quinta-feira, 7 de Agosto de 2014

MASSACRE CEREBRAL


A instrumentalização do livro para crianças é um fenómeno que se confunde com a própria génese, ou não fossem os livros essenciais para «instruir» e «educar» os delfins de há séculos. Os livros para crianças têm servido para tudo, desde apelar ao esforço de guerra até ajustar contas com o marido infiel. Quando pensamos que já não se pode ir mais longe (Go The Fuck to Sleep é um desses recentes dejectos), eis que surge outra coisa para nos deprimir ligeiramente. Esta alegre família norte-americana explica como é tão bom e tão útil andar armado, num video esclarecedor. Nem é uma novidade (saiu em 2012), mas parece que alguém se lembrou agora de dar uma ajuda às vendas. Carregar armas é um direito, dizem. Pois claro. Segundo a notícia do Observador, «cerca de 10 mil crianças são feridas ou mortas devido a incidentes com armas de fogo nos Estados Unidos».

(Cortesia de Tânia Raposo.)

terça-feira, 5 de Agosto de 2014

ESCREVER AO SOL


Passei o Verão de 2012 a escrever o Irmão Lobo e jurei que nunca mais. Escrever, sim, sempre, mas só em clima agreste e dado à introspecção, pensei. O Verão passa demasiado depressa e o excesso de exposição à luz do computador não traz boas cores, embora exalte o espírito. Seria bom que as coisas acontecessem according to plan (ou talvez não), mas escrever implica um compromisso e mesmo devoção ao instinto não domesticado. De outro modo, é programa. Isto para dizer que as intermitências prolongadas deste blogue se devem ao facto de estar a trabalhar num novo livro que implica alguma pesquisa. Para já, não posso dizer mais nada. Felizmente, consigo ler e escrever na praia. Uma bênção.

(na foto: Sylvia Plath em versão solar)

sexta-feira, 25 de Julho de 2014

DESENCONTROS


Um bom leitor sentirá um final feliz forçado como uma condescendente traição por parte do autor. A menos que já saiba «ao que vai», não tendo razões para se sentir enganado, nesse caso. A melhor literatura evita clichés, contraria padrões e remete o leitor para esse campo crítico da subjectividade onde não existem respostas certas ou erradas, boas ou más. É isso que este livro de Jimmy Liao, Desencontros (Kalandraka), um misto de picture book e de novela gráfica, consegue fazer de forma exemplar, desconstruindo a previsibilidade do vulgar enredo boy meets girl.

Vemos como as vidas paralelas de dois seres perdidos no labirinto da cidade se cruzam, por acaso, num jardim; e vemos também como, por um caprichoso imprevisto, se voltam a separar. Ficarão juntos, como secretamente desejamos, se acreditarmos no amor? Há indícios deixados pelo autor que podemos ou não ignorar: os cisnes de pedra retirados do jardim, presos pelo pescoço; ou, mais explícito, o sinal partido da paragem de trânsito quando ambos se reencontram, finalmente. São indícios de que algo vai acabar mal. Contudo, inspirados pela vida, tendemos a não prestar atenção a esses indícios e a substituí-los por outros que não colidam com a inquietação provocada pelo amor. Porque não há amor tranquilo, a não ser ao fim de muitos encontros. Talvez.

A resposta a estes Desencontros está no cenário da página dupla quase final, a lembrar as composições de Martin Handford e Onde Está o Wally? É uma festa de passagem de ano onde os dois protagonistas estão presentes. Basta procurar. Quanto à imagem dos dois guarda-chuvas junto à ficha técnica, na última página, é uma espécie de faixa escondida do disco; não faz parte da história. Ou faz? A cada leitor a sua interpretação. No fim, compreende-se o poema que Jimmy Liao escolheu para abrir o livro:

Estão ambos convencidos
de que uma súbita paixão os uniu
É bela essa certeza mas a incerteza
é ainda mais bela.

Wislawa Szymborska, «Amor à primeira vista»

terça-feira, 22 de Julho de 2014

MARY SHELLEY PARA CRIANÇAS


Alguma editora portuguesa poderia fazer o favor de publicar o único conto para crianças escrito por Mary Shelley, dois anos depois do clássico Frankenstein? Datado de Agosto de 1820, quando ela estava prestes a completar 23 anos, Maurice, or the Fisher's Cot: a Tale só foi descoberto por acaso em 1997, numa casa particular na Toscânia, e publicado no ano seguinte. Como então se explicou, o interregno de 177 anos sucedeu à desaprovação do pai de Mary Shelley em relação ao manuscrito: por razões editoriais e pessoais, William Godwin, também autor e editor de livros para crianças (além de reputado filósofo), censurou o texto da filha, com quem andou de candeias às avessas depois da sua (literal) escapadela romântica, aos 17 anos, com o poeta Percy Shelley. Tiveram três filhos, todos falecidos prematuramente; e rodearam-nos outras perdas de crianças, tema que subjaz a Maurício ou a Cabana do Pescador, traduzido no Brasil há poucos meses. Não sei, mas uma história que começa com um miúdo solitário a assistir a um funeral promete ser boa. Ainda que, como adverte a Folha de S. Paulo, «frases complicadas e palavras difíceis, como "conquanto", "goivos", "gerânios" e "olmos"» pipoquem pelo texto. Não faz mal: daremos conta delas. É que gostaríamos mesmo de ver Mary Shelley pipocando por aqui.

segunda-feira, 21 de Julho de 2014

A MULHER QUE VOTOU NA LITERATURA


Uma das razões por que O Jardim Assombrado esteve em pousio prende-se com esta distinta senhora: Ana de Castro Osório (1872-1935). O seu contributo para a emancipação da mulher foi essencial, bem como a visão articulada e muito «profissional» da literatura infantil. Escritora, editora, jornalista, ensaísta, pedagoga, feminista, maçónica, republicana... Não foi fácil juntar tantas pontas para escrever mais uma biografia da colecção Grandes Vidas Portuguesas, da Pato Lógico. Mas está feita; e agora nas mãos de Marta Monteiro, ilustradora e autora de Sombras, um dos meus favoritos de 2013, também publicado pela Pato Lógico e recentemente distinguido pela revista Communication Arts.

sábado, 19 de Julho de 2014

IRMÃO LOBO NO PNL


Saíram ontem as listas de 2014 do Plano Nacional de Leitura. Irmão Lobo ficou recomendado (e muito bem) para o 3º Ciclo - Leitura Autónoma. Aqui. Não é um livro para crianças, mesmo.

quinta-feira, 17 de Julho de 2014

AS REGRAS DO VERÃO


As Regras do Verão (Rules of Summer) é o quarto livro de Shaun Tan publicado pela Kalandraka, depois de Emigrantes, A Árvore Vermelha e A Coisa Perdida. Os dois primeiros estão, para mim, na categoria dos superlativos. O terceiro e e este, um pouco menos. Gosto especialmente desta regra, aliás, válida para todo o ano: «Nunca esperes por uma desculpa.»

quarta-feira, 16 de Julho de 2014

FESTA TANGERINA


Amanhã há mais uma das sumptuosas festas da Planeta Tangerina... e em Lisboa. Dois livros novos do catálogo são a pièce de résistance: Supergigante, de Ana Pessoa e Bernardo Carvalho (ilustrações), na colecção Dois Passos e um Salto; e Com o Tempo, de Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso (ilustrações). Aposto que vai ser um belo fim de tarde.

terça-feira, 15 de Julho de 2014

ALEGRAR A ALMA, CULTIVAR O JARDIM


Este blogue não é sobre jardinagem, ao contrário do que uma jornalista da RTP afirmou em directo num telejornal, proporcionando-me uma tremenda lição de fair-play. Vem a propósito do colóquio marcado para amanhã, 16 de Julho, na Biblioteca Nacional, onde se falará da influência da arte dos jardins na literatura, na ensaística, no pensamento, na arquitectura e noutras áreas mais terrenas. O programa completo está aqui e os trabalhos começam às 10h00. Noutra sala, a BN dá a conhecer o seu acervo de livros sobre jardins e botânica, na exposição em curso até 31 de Julho. Para ambos os casos, a entrada é livre. 

terça-feira, 1 de Julho de 2014

PAUSA PARA BALANÇO


Por razões várias, O Jardim Assombrado vai ficar em pousio por duas ou três semanas. As minhas desculpas aos passeantes regulares e ocasionais.

sexta-feira, 27 de Junho de 2014

PRÉMIO NACIONAL DE ILUSTRAÇÃO 2013


António Jorge Gonçalves, «meu irmão lobo», ganhou o último Prémio Nacional de Ilustração pelo livro Uma Escuridão Bonita, com texto de Ondjaki. Que orgulho termos ilustradores assim (e que ainda não tenham emigrado). Ver notícia completa no blogue O Palácio da Lua, da jornalista Sílvia Borges Silva.  

quinta-feira, 26 de Junho de 2014

GATOS E PATOS


Os meus gatos ficam verdadeiramente intrigados com certos livros que chegam cá a casa. Os pop-ups são um desses géneros, como contei neste post. Livros com vozes de animais causam idêntico efeito de curiosidade e receio. O último de Eric Carle, 10 Patinhos de Borracha (Kalandraka), inclui um «botão» que se prime para ouvir grasnar. É o que a Mini está a tentar descobrir. Já agora, esta história é inspirada no caso dos 29 mil patos de borracha que se perderam de um cargueiro, no Oceano Pacífico, e andam à deriva desde 1992. Fascinante.

segunda-feira, 23 de Junho de 2014

A COMÉDIA HUMANA DOS ANIMAIS


«La Fontaine escreveu verdadeiramente a comédia humana dos animais», afirmou Pinheiro Chagas, escritor, jornalista e político que, no século XIX, comentava a importância da obra de Jean de La Fontaine (1621-1695), dada à estampa pela primeira vez dois séculos antes. Com outros textos introdutórios assinados por Teófilo Braga e Ramalho Ortigão, além do próprio La Fontaine, surge agora uma nova edição das mais de 200 fábulas ilustradas por Gustave Doré. São dois volumes com cerca de 400 páginas, publicados em exclusivo pelo Círculo de Leitores, com o aliciante de serem lançados com 50 por cento de desconto (17,90 € cada). Não são leituras de Verão, são de todas as estações.

Adenda ao post: acabo de reparar, hélas, que os textos desta edição são traduzidos por poetas portugueses e brasileiros do século XIX, árcades como Curvo Semedo ou Filinto Elísio, esses «mazorros sensaborões» que tanto irritavam Eça de Queirós, quando perguntava, de Inglaterra, «o que é que em Portugal lêem as pobres crianças». Bom, é pena não termos direito a traduções mais frescas... Haverá que ler com atenção, mas fica desde já o aviso: cuidado para não tropeçar nos arrebiques e gongorismos da linguagem.

sexta-feira, 20 de Junho de 2014

GODDESS PATTI


«O artista procura o contacto com a sua noção intuitiva dos deuses, mas, para criar a sua obra, ele não pode ficar nesse domínio sedutor e incorpóreo. Tem de regressar ao mundo material para efectuar a sua obra. É responsabilidade do artista equilibrar a comunicação mística e o labor da criação.»

(Patti Smith, Apenas Miúdos, ed. Quetzal, tradução de Jorge Pereirinha Pires. Fotografia de Robert Mapplethorpe.)

quinta-feira, 19 de Junho de 2014

BARNABY BROCKET, UM HERÓI

 

Penitencio-me por só agora ter dado a devida atenção a este livro, ou tê-lo-ia incluído na lista dos melhores de 2013. Do mesmo autor de O Rapaz do Pijama às Riscas, o irlandês John Boyne (ver post aqui), A Coisa Terrível que Aconteceu a Barnaby Brockett (adoro títulos compridos) é um romance em que a imaginação e o humor se encontram bem sustentados pela fluência e estrutura narrativa. Barnaby Brockett é um rapazinho autraliano que nasce incólume à lei da gravidade, estranheza que o põe a flutuar acima de toda a gente, literalmente. Os pais não vêm com bons olhos a bizarria do filho mais novo; e o que se segue é um enredo cheio de peripécias que incorpora o tema do abandono e da construção da identidade sem facilitismos nem lamechices de qualquer espécie. Exemplo perfeito de literatura crossover, a história de Barnaby Brockett encontrará especial eco nos leitores adolescentes, mais aptos a compreender a crítica social implícita no livro. Cinco estrelas.

quarta-feira, 18 de Junho de 2014

O RAPAZ OSTRA



O Rapaz Ostra, de Tim Burton, na versão da fotógrafa Susana Blasco. Ver mais imagens desta série no Público. (Obrigada, Angelina Pereira).

COMO UMA ÁRVORE


Um dos poucos lugares onde não se pratica o jornalismo cultural envergonhado, a revista Blimunda faz dois anos e assinala o aniversário com um número especial em papel. É deitar-lhe as mãos.

terça-feira, 17 de Junho de 2014

O QUE ESTÁ LÁ FORA


Durante anos, persegui a origem desta imagem, publicada num artigo que escrevi para a Notícias Magazine sobre o livro Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés (basicamente, a minha «bíblia»). Descobri, há pouco, no meio das traduções da obra de Maurice Sendak, tratar-se de uma pintura de Briton Rivière, datada de 1902, representando Afrodite a descer o Monte Ida, espaço sagrado da mitologia greco-romana. Ida é o nome da protagonista de Outside Over There, o último livro da «trilogia deslaçada» de Sendak, a sua obra mais pessoal e mais enigmática, da qual ele próprio confessou ter tido dificuldades em sair. «Foi a experiência mais penosa da minha vida enquanto criador. Uma verdadeira catástrofe. Foi tão duro que acabei por ter uma depressão», afirmou, numa entrevista à Horn Book Magazine, em 2003. Ida, a menina que parte em busca da irmã bebé raptada por duendes, é uma homenagem à sua irmã, Natalie Sendak, nove anos mais velha. O bebé raptado não é outro se não «o próprio» Sendak, revisitando um dos acontecimentos mais marcantes da sua infância: o rapto criminoso do bebé Lindbergh, que assustou o mundo em Março de 1932 (seria descoberto dois meses mais tarde, já morto). Maurice Sendak, então com apenas quatro anos, não compreendeu como era possível a tragédia abater-se sobre uma criança rica e superprotegida pelos pais, o seu oposto enquanto filho de emigrantes pobres que não falavam inglês, nos Estados Unidos de todas as oportunidades. Ida, a personagem-irmã de Outside Over There, menina corajosa, intensa e pletórica (tal como Afrodite) vem resgatar não apenas o bebé da história, mas toda uma possibilidade de justiça e ressurreição da vida interrompida. A essa ressurreição também se chama Arte.

Outside Over There ficou, em português, para a tradução da Kalandraka que será publicada este ano, O Que Está Lá Fora. Quero dizer: tudo o que nos assusta e que nos atrai ao mesmo tempo. Tudo o que está lá fora e cá dentro, como as muitas encostas do Monte Ida.

segunda-feira, 16 de Junho de 2014

LEITURAS MIÚDAS DE VOLTA À LER


Já anda aí a LER de Junho, a única que teremos até ao próximo trimestre. O grafismo mudou, o papel também, a linha editorial idem. Ganhou cerca de 50 páginas; há muito para ler e demoradamente. Eu gosto. As «Leituras Miúdas» mantiveram-se e voltaram a ter três páginas com as rubricas habituais (Scrapbook e Wendy no Divã), recuperadas (Biblioteca do Nautilus) ou novas (Destinatário Incerto, sobre livros crossover). Não há críticas de livros, mas há sugestões. Espero que também gostem.

sexta-feira, 6 de Junho de 2014

VOAR É CAIR CONTRA O CÉU


«Tal como tu cais no chão,
voar é cair contra o céu,
disse-me um pássaro.
Creio que era um gaio.
Mas os corvos dizem a mesma coisa.
Exactamente a mesma coisa.»

in Os Pássaros (os poemas voam mais alto), texto e ilustrações de Afonso Cruz, ed. APCC, 2014

quinta-feira, 5 de Junho de 2014

SALVANDO MARY POPPINS


«P.L. Travers adoptou a tradição de muitos escritores vitorianos (como Lewis Carroll em Alice no País das Maravilhas ou J. M. Barrie em Peter Pan) no que toca à exaltação mitificada da infância e de um perpétuo mundo de fantasia. No livro, os gémeos bebés falam assim dos pais e dos dois irmãos mais velhos: «Acho que nunca irei compreender os adultos. Parecem todos tão estúpidos. Até a Jane e o Michael são estúpidos às vezes.» Walt Disney preferiu o tom reconciliatório e da afirmação dos valores familiares, como seria de esperar; mas a edição do texto original pela Relógio d’Água apresenta-nos uma Mary Poppins muito diferente da protagonizada pela cristalina Julie Andrews.»

(Texto completo na LER nº 134... Quase a chegar às bancas, agora com periodicidade trimestral. O trailer do filme sobre o «processo» P.L. Travers/Walt Disney pode ser visto aqui.)

quarta-feira, 4 de Junho de 2014

20 LIVROS PARA CRIANÇAS (NEM TODOS BONS)


A propósito do Dia Mundial da Criança, o MSN Portugal recolheu 20 propostas de leituras para os mais novos e preparou uma galeria de imagens que continua online, aqui. Sugeri cinco. Não subscrevo todas as outras, mas isso é a biodiversidade.

segunda-feira, 2 de Junho de 2014

MAURICE SENDAK EM ENTREVISTA



«I think there's something barbaric in children, and it's missing in lots of books for children because we don't like to think of it. We want them to be happy. And childhood is a very tough time. It was for me, and it was for my brother and my sister.»

(Um pequena e tocante entrevista a Maurice Sendak, realizada em 2009, com a particularidade de ser feita em animação e com legendas em inglês. Cortesia de Bruno Vide).

segunda-feira, 26 de Maio de 2014

sábado, 24 de Maio de 2014

HOJE EM AVEIRO


Mais logo, na livraria Gigões & Anantes, em Aveiro, são lançados dois novos livros da editora Pato Lógico: Capital, de Afonso Cruz, e Vazio, de Catarina Sobral. Dois livros sem texto em que as imagens dizem tudo, ou quase. Porque o «quase» é o lugar quântico do leitor onde todas as leituras são possíveis.

sexta-feira, 16 de Maio de 2014

O DOM DA UBIQUIDADE



Amanhã há lançamentos de novos livros de dois dos meus escritores preferidos: Rita Taborda Duarte (O Rapaz que Não se Tinha Quieto, Caminho) e David Machado (Acho que Posso Ajudar, Objectiva). As ilustrações são de Ana Ventura e Mafalda Milhões, respectivamente. Com um bocado de elasticidade, até se consegue fazer um sprint entre a livraria Pó dos Livros e o Palácio Galveias, já que ficam perto um do outro. Eu faria, mas não vou estar em Lisboa nos próximos dias, pelo que este post fica em jeito de «adeus, até ao meu regresso». Parabéns, Rita e David!

terça-feira, 13 de Maio de 2014

O MAPA NÃO É O TERRITÓRIO


Os 20 livros imprescindíveis que é preciso ler durante a infância: este guia de sugestões de leitura das lojas Imaginarium já existe há pelo menos um ano, mas confesso que só ontem tropecei nele. Não tem assinatura da equipa nem do atelier que o produziu. Está bem escrito e bem organizado; e quase todas as escolhas são, de facto, imprescindíveis para o contacto com a nata dos livros para a infância: Leo Lionni, Maurice Sendak, Tomi Ungerer, Arnold Lobel e outros nomes de primeira água. Parece-me sintomático, em época de contenção sedimentada de custos para a Cultura e Educação (o que é que isso interessa?), que estas iniciativas partam de empresas privadas. O ano passado, a Fnac foi mais abrangente e lançou o guia Biblioteca Fnac Kids - 100 livros que crescem contigo. A selecção também era bastante criteriosa,  mas a edição e revisão de texto deixavam algo a desejar, e este é um dos aspectos perniciosos da livre iniciativa: fazer o vulgo acreditar que «para quem é, bacalhau basta», «tão bonzinhos que nós somos», «é grátis, agradeça» e outras falácias do género. O problema é quando, por força de nos preocuparmos demasiado com a estrita sobrevivência, nos contentamos com pouco e deixamos de acreditar que merecemos o melhor. Dar e receber o melhor, sempre.

segunda-feira, 12 de Maio de 2014

LÁ FORA NÃO HÁ LIMITES



Foi ontem o lançamento do Lá Fora - Guia para descobrir a natureza, como falámos no post anterior. Muita gente respondeu ao convite do Planeta Tangerina para fazer o percurso da Lagoa Pequena, um sítio bonito às portas de Lisboa. As lontras fizeram jus à sua timidez, mas puderam observar-se várias aves e prestar atenção a outras manifestações mais subtis. Muito impressionante para adultos e crianças: o enorme peixe morto e encalhado nas rochas... A natureza é mesmo assim! Talvez o guia seja um pouco pesado para transportar a toda a hora (afinal, são 368 páginas), mas nada tem de maçudo. Das árvores às rochas, dos anfíbios aos tipos de nuvens, toda a abundante informação se presta a uma apreensão intuitiva, facilitada pelo design gráfico e pelas ilustrações, e abrindo caminho para actividades extra-leitura. Por exemplo, como preparar uma saída nocturna para ouvir os pirilampos ou como fazer uma escultura inspirada na Land Art. Isabel Minhós Martins, editora do Planeta Tangerina, disse no início que tinha sido «um livro muito difícil de fazer» e compreende-se porquê. Mas valeu a pena.

sábado, 10 de Maio de 2014

IR PARA FORA LÁ FORA


«Criado com a colaboração de uma equipa de especialistas portugueses, este livro pretende despertar a curiosidade sobre a fauna, a flora e outros aspectos do mundo natural que podem ser observados em Portugal. Inclui também propostas de actividades e muitas ilustrações, para a judar toda a família a ganhar balanço, sair de casa e descobrir - ou simplesmente contemplar - todo o mundo incrível que existe "Lá Fora".»

Com textos de Maria Ana Peixe Dias e Inês Teixeira do Rosário, ilustrações pela mão de Bernardo Carvalho, Lá Fora é um guia para descobrir a natureza com a marca do Planeta Tangerina. O local escolhido para o lançamento é muito especial: como quem vai para as praias do Meco/Alfarim, virar um pouco antes para o lado direito e já está. Tudo explicado aqui.  

sexta-feira, 9 de Maio de 2014

CURSO DE LIVRO INFANTIL BOOKTAILORS


Só recentemente vi este post que o Cria Cria dedicou ao Curso de Livro Infantil Booktailors, entretanto marcado para os dias 8, 10, 15, 17, 22 e 24 de Julho (ver aqui). Muito obrigada! Se não estiverem todos de férias, vão ser uns fins de tarde muito bem passados.

quinta-feira, 8 de Maio de 2014

PARA MARCAR NA AGENDA


Depois não venham dizer que «não acontece nada»... Sempre a mexer, a psicóloga Ana Mourato e seu projecto Ouvir o Falar das Letras promove mais uma acção de formação subordinada ao tema «O conto, os lobos e os medos organizadores da infância», dia 14 de Junho (já fiz e recomendo). Dia 23 de Maio, o Departamento de Educação da Universidade de Aveiro passa a palavra a Andreia Brites (O Bicho dos Livros) para falar sobre um tema difícil, com um título muito bem achado: «Os jovens e a leitura: um gueto dentro do gueto». Mais próximo, dia 19 de Maio, decorre o simpósio sobre a obra de António Mota, no Instituto de Educação da Universidade do Minho. O programa é suculento e culmina com a presença do próprio escritor, noblesse oblige. Cliquem nas imagens para ler melhor.

terça-feira, 6 de Maio de 2014

THE WARRIOR'S REMINDER



Gosto mais de falar para adolescentes e adultos do que para crianças, é um facto. As crianças são a minha «zona de conforto», mas obrigam-me a um ajuste cognitivo de linguagem que, nos livros, é muito mais livre. Quando me perguntam, por exemplo, «o que me inspira para escrever», dou por mim a falar da natureza e do mundo em geral, quando só me apetece dizer que o fundamental é a nossa vida interior, consciente e inconsciente, porque é nessa torrente que mergulhamos quando nos comprometemos verdadeiramente com a arte. Portanto, quando não digo isto e digo outra coisa simpática, soa-me sempre como uma espécie de mentira; ainda que seja uma «mentira positiva», como diz o meu tio Ruben. Ora, estou cansada de mentiras e deste embuste institucionalizado. Na véspera de visitar o INETE, uma escola profissional em Lisboa onde se completa o ensino secundário, tinha preparado uma espécie de aula em power-point sobre o que é isso de escrever. À última hora, mudei tudo. Peguei nos meus livros e numa série de objectos pessoais, desde um disco de vinil a uma pequena estatueta africana que me assombrou a infância, e fui ter com eles. Ouviram-me durante hora e meia, com uma atenção tão generosa quanto curiosa. Passei-lhes um poema da Erykha Badu que me acompanha há anos, The Warrior's Reminder, e que um aluno chamado André quis ler alto para todos nós, espontaneamente, num inglês perfeito. Passei-lhes o que sentia, sem preocupações de «fazer bonito». Porque tão importante como «escrever contra a mentira» é falar contra a mentira.

segunda-feira, 5 de Maio de 2014

PRÉMIO BISSAYA BARRETO 2014


Pequeno Livro das Coisas (Caminho), escrito por João Pedro Mésseder e ilustrado por Rachel Caiano, venceu o Prémio Bissaya Barreto de Literatura para a Infância 2014. Sendo um dos critérios a valorização estética das obras, o prémio, no valor de cinco mil euros, será dividido pelos dois autores. Ver notícia aqui. Para espreitar o livro por dentro, o blog Hipopótamos na Lua já deu uma valente ajuda.

PINA & COMPANHIA



Para arrumar na estante, eventualmente ao lado de O Senhor Pina, o terceiro volume da colecção Vozes e rostos da literatura infantojuvenil portuguesa, que antes se debruçou sobre a obra de Luísa Ducla Soares e Vergílio Alberto Vieira. Editado pela Tropelias & Companhia, Coisas que não há: sobre a escrita de Manuel António Pina, contou com a organização de Sara Reis da Silva e João Manuel Ribeiro, compreendendo uma série de textos de investigação e uma entrevista a que até aqui não era fácil aceder. 

domingo, 4 de Maio de 2014

O SENHOR PINA: PRÉMIO SPA 2014



Soube ontem pelo anúncio de página inteira do Expresso: O Senhor Pina, de Álvaro Magalhães e Luiz Darocha (ilustrações) foi distinguido este ano pela Sociedade Portuguesa de Autores na categoria de Melhor Livro Infanto-Juvenil. Os outros dois nomeados: O Rei Vai à Caça, de Adélia Carvalho e Marta Madureira (ilustrações) e... Irmão Lobo, de Carla Maia de Almeida e António Jorge Gonçalves (ilustrações). Este ano não há transmissão da entrega dos prémios pela RTP.

Sobre o fantástico O Senhor Pina, ver aqui, aqui, aqui e aqui.  Uma entrevista que fiz a Álvaro Magalhães, em Janeiro do ano passado, pode ser lida aqui e aqui.

sábado, 3 de Maio de 2014

MAIS NOVIDADES DA ORFEU NEGRO




Além da chegada em português de David Wiesner, a Orfeu Negro tem na calha mais um livro de Oliver Jeffers, a estreia de Beatrice Alemagna no catálogo e também de Madalena Moniz, ilustradora do belíssimo Sílvio Domador de Caracóis, editado em 2010 pela Caminho, com texto de Francisco Duarte Mangas.

sexta-feira, 2 de Maio de 2014

DAVID WIESNER NA ORFEU NEGRO


A editora Orfeu Negro vai publicar um dos autores mais conceituados no domínio da ilustração e do storytelling, o norte-americano David Wiesner (New Jersey, 1956). Vencedor por três vezes do Prémio Caldecott, que distingue o melhor álbum ilustrado editado no ano anterior, Wiesner é um exímio desenhador e um mestre na composição de narrativas visuais, recorrendo a pouco ou nenhum texto, sozinho ou em parceria com escritores. Art & Max, o livro a publicar brevemente em português, afasta-se da fantasia cinematográfica de Tuesday (e continuada em Hurricane e June 29, 1993), bem como da habilidosa metaficção de The Three Pigs; mas é um livro visualmente muito estimulante, ideal para quem queira explorar o tema das artes visuais. Oxalá que a Orfeu Negro possa trazer mais livros de Wiesner. O meu preferido é The Night of the Gargoyles (ver o post A Vida Interior das Gárgulas).

Antes que alguém mande retirar do YouTube, vale a pena ver aqui o pequeno filme de animação realizado por Geoff Dunbar e produzido por Paul McCartney, a partir do livro Tuesday. O site oficial de David Wiesner está aqui.

sábado, 26 de Abril de 2014

COMO SI FUERA UN TÓTEM


Listo! Em vésperas da 27ª FILBO - Feira Internacional do Livro de Bogotá, chega a notícia de que está pronta a edição em castelhano do Irmão Lobo, com tradução de Jeronimo Pizarro e a chancela da editora Rocca. Hermano Lobo. Garanto: soa como se tivesse sido eu a escrever. «Malik. Pienso en él como si fuera un totém que hubiera logrado mantener unida a una tribu, mientras buscaba adaptarse al apartamento y soñaba con su viejo tipi en medio de la pradera.» Algumas páginas podem ser vistas aqui.

sexta-feira, 25 de Abril de 2014

CAPITÃO DE ABRIL


Este post só poderia ir para a etiqueta «Heróis». Com texto de José Jorge Letria e ilustrações de António Jorge Gonçalves, Salgueiro Maia - o homem do tanque da liberdade é uma das primeiras biografias da nova colecção produzida em parceria pela Imprensa Nacional Casa da Moeda e a editora Pato Lógico. Daqui a uns meses também darei o meu contributo, num volume dedicado à escritora e feminista Ana de Castro Osório. Para já, celebremos este dia que nos lembra o valor da liberdade!