sexta-feira, 21 de Novembro de 2014

A EDUCAÇÃO QUE NÃO INTERESSA AOS MINISTÉRIOS


«A criança que cresce em ambientes emocionalmente inseguros, ameaçadores ou negligentes, sente uma ansiedade constante e perturbadora. Com o passar do tempo, a ansiedade adquire um caráter persecutório e a criança procura ativamente proteger-se da ameaça. Depois, consoante a idade, o temperamento e o nível de resiliência, irá fechar-se sobre si mesma ou exteriorizar essa ansiedade, que se transformará em negativismo e em perturbações comportamentais.

Os ambientes emocionalmente seguros não só constituem a base do equilíbrio emocional, como também são a força geradora do intelecto e da criatividade do ser humano, pelo que deveriam ser o primeiro e o mais importante direito fundamental da criança.»

(Educar as Emoções, de Amanda Céspedes, Editorial Presença)

quinta-feira, 20 de Novembro de 2014

PATOS AO MAR



Aproxima-se um fim-de-semana diluviano em Lisboa (e não é por causa destas chuvas torrenciais que nos deixam loucos), diz-nos a meteorologia da editora Pato Lógico. Sábado é dia do lançamento do livro a solo de António Jorge Gonçalves (Prémio Nacional de Ilustração 2014), Barriga da Baleia; domingo de manhã são os autores do livro de actividades Mar, Ricardo Henriques e André Letria, que convidam os mais pequenos para uma oficina de pirataria na nova loja da Orfeu Mini. Horas, locais, dress code, está tudo muito bem explicado no site do Pato, aqui e aqui

quarta-feira, 19 de Novembro de 2014

PRÓXIMAS FORMAÇÕES



«Seleção do Livro Infantil», já no próximo sábado, 22 de Novembro, na Biblioteca Municipal de Algés (ver aqui) e «Playoga - Livros & Histórias», no sábado seguinte, 29 de Novembro, em Sintra, no âmbito do 12º Encontro Eterna Biblioteca (aqui). Mais pormenores em breve...

terça-feira, 18 de Novembro de 2014

LER: UM TESOURO FANTÁSTICO


O fantástico site brasileiro Garatujas Fantásticas convidou-me para bater um papo virtual sobre o meu trabalho, fazendo companhia a outros escritores, designers e ilustradores portugueses: Isabel Minhós Martins, André da Loba, André Letria, Catarina Sobral, Yara Kono, Madalena Matoso, Ana Pessoa, Ricardo Henriques e Bernardo Carvalho. Responder às perguntas foi tão divertido como tirar as fotografias. Aqui está o resultado: http://garatujasfantasticas.com/cma_nopapo/. Na foto (cortesia de Tânia Raposo) está uma colecção essencial na minha formação leitora: O Tesouro das Crianças, um clássico dos anos 70 das edições Finsu Panamá, em português do Brasil. Oferta da minha Mãe.

sexta-feira, 7 de Novembro de 2014

ATÉ JÁ


Quase, quase a terminar mais um livro (o sétimo ou oitavo, dependendo da ordem de saída do que está na calha para 2015), vou fazer uma pequena pausa nas postagens do Jardim Assombrado. Volto muito, muito em breve. Fiquem por perto.

quinta-feira, 6 de Novembro de 2014

HARRY POTTER: AS NOVAS CAPAS


Ainda a propósito dos 15 anos de Harry Potter, atente-se nas diferenças entre as novas capas agora desenhadas por Kazu Kibuishi (em cima) e as anteriores. É nítida a incorporação das técnicas de ilustração digital e do direccionamento para outras faixas etárias, no sentido do que hoje se convencionou designar por crossover fiction ou escrita para young adults. Peço desculpa se os termos em inglês incomodam, mas não encontro melhor forma de dizer.

quarta-feira, 5 de Novembro de 2014

UM CORVO DE 952 PÁGINAS


Genial, doente e miserável, como aquela criatura integrante do júri do Nobel da Literatura acha que os escritores devem ser, Edgar Allan Poe, para quem superlativos do género «mestre do gótico e do fantástico» são por demais escusados, tem uma nova edição que reúne todos os seus contos (todos mesmo?). Com a chancela Círculo de Leitores/Temas e Debates, trata-se da mesma tradução de J. Teixeira de Aguilar que já havia sido publicada em conjunto pela Quetzal/Temas e Debates, só que em dois volumes. É um calhamaço de 952 páginas: tal como a perna de borrego hitchcockiana, posicionado no ângulo correcto, dá para matar alguém.

terça-feira, 4 de Novembro de 2014

O NOSSO HARRY


Num instante, passaram-se 15 anos. Foi em Outubro de 1999 que a Editorial Presença publicou a primeira edição de Harry Potter e a Pedra Filosofal, com tradução de Isabel Fraga. Desde então, a saga dos aprendizes de feiticeiros de Hogwarts vendeu mais de 450 milhões de livros em dezenas de línguas, tornando Joanne Kathleen Rowling, vulgo J.K. Rowling, numa personificação do arquétipo da Gata Borralheira: de pobre professora de inglês, em Portugal, triste e mal casada, passou a ser uma das mulheres mais ricas de indústria literária, não sem antes ter levado várias «negas» das editoras. Quanto a Daniel Radcliff, o actor que encarnou a personagem de Harry Potter, é ver como também está crescido. Por exemplo, aqui, na série de televisão A Young Doctor's Notebook, decalcada da obra homónima de Mikail Bulgakov. No papel de um jovem médico desterrado na província e viciado em morfina, para aplacar as dores do ofício e não só, Radcliff não é nenhum Richard Burton (e ter John Hamm a contracenar com ele não foi um casting inocente), mas esforça-se por mostrar que ser um bom actor não é algo que se consiga por magia.

sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

INVENTÁRIO DOS ANIMAIS COM CAUDA


Para que serve uma cauda? Entre outras coisas, para transportar as crias, manter o equilíbrio, mudar de direção, espalhar feromonas e enxotar as moscas. Dos mesmos autores do Inventário Ilustrado das Árvores, um catálogo de animais dotados de um fim que justifica os meios. Edição da Faktoria K de Livros, uma chancela da Kalandraka. 

quarta-feira, 29 de Outubro de 2014

KEITH & KEITH


Quando as celebridades ou «aspirantes a» desatam a escrever livros para crianças, só podemos fazer como Noé: arranjar uma cena que flutue e esperar que a chuva passe. De Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones (desculpem a referência, mas posso estar a ser lida na galáxia M87), é lícito esperar que um livro subintitulado «a história do meu avô e da minha primeira guitarra» seja isso mesmo. Caramba, o homem tem mais histórias para contar no dedo mindinho do que a maioria de nós, pobres mortais, durante a vida toda. Não sabe escrever? Não precisa. Basta-lhe ser um dos melhores músicos da História. E é também para dar uma ajuda à economia que existem ghostwriters. Provavelmente, nem a Hachette nem editora alguma conseguiria convencer Keith Richards de que o seu talento para escrever é tão nulo como o que a neta, Theodora Richards, demonstra ter para desenhar. Podemos encolher os ombros e pensar que, assim, só se estraga uma família, mas o que eu queria mesmo era uma história como deve ser. Ou algo vagamente parecido.

terça-feira, 28 de Outubro de 2014

MÃOS ÀS OBRAS


aqui tinha falado de Art & Max e da estreia de David Wiesner em Portugal pela Orfeu Negro. Num registo completamente diferente, mais conduzido e com alguns pontos de contacto com o livro informativo, saiu também O Museu (Presença), uma história de Susan Verde com ilustrações de Peter H. Reynolds. Para quem queira explorar livros centrados na temática das Artes Plásticas, aí estão duas sugestões a ter em conta.

sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

BONJOUR, TENDRESSE


Capa de Tom Gauld para a última The New Yorker. Só para quem teve preguiça de abrir o link do post anterior. Bom fim de semana!

ESCREVER NÃO TRAZ SEGURANÇA


Em nenhum sentido. (Cartoon de Tom Gauld, que assina a capa da New Yorker desta semana. Luxo e conforto para este Outono-Inverno.)

quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

AVENTUREIRAS


De Sónia Serrano, investigadora na área da literatura de viagens, um ensaio de 344 páginas (Tinta-da-China) que cruza duas trajectórias tradicionalmente divergentes: a condição feminina e o impulso nómada. Neste caso, dizer «a descobrir» soa algo redundante.

quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

O SENHOR ZORRO É UM LIVRODEPENDENTE


Com texto e ilustrações da alemã Franziska Biermann, Al Señor Zorro Le Gustan Los Libros veio da livraria Gigões & Anantes, em Aveiro. Não se trata de um álbum, mas de um livro ilustrado («profusamente ilustrado», para usar a terminologia correcta) altamente recomendável para todos os que se interessam pela «livrodependência». A graça desta personagem consiste na sua semelhança com qualquer viciado noutras substâncias legais ou ilegais. Entregue ao vício prazenteiro da leitura, o Senhor Raposo é capaz de mentir, enganar e roubar para alimentar a sua pouco virtuosa adição. Da decadência à cadeia, é um instante. Para superar a desgraça, decide contar a sua história, enriquece e torna-se ele próprio um produtor na indústria do livro, passando a alimentar vícios alheios. Neste twist há uma óbvia ironia no tratamento de um tema que está longe de ser novo. Assim, de repente, surge o «velhinho» Leónia Devora os Livros, de Laurence Herbert e Frédéric du Bus, editado pela Caminho em 1992, com uma tiragem de 11 mil exemplares (outros tempos...). Em 2008, a Orfeu Negro publicou um muito mais sofisticado Incrível Rapaz Que Comia Livros, de Oliver Jeffers, cuja pièce de résistance é a mordidela apensa na contracapa. Al Señor Zorro Le Gustan Los Libros ainda não está traduzido em Portugal, mas há uma edição em português do Brasil pela Cosac Naify.

terça-feira, 21 de Outubro de 2014

QUERIDOS MONSTROS


Que bom ver mais um livro de Peter Brown depois de O Jardim Curioso, um dos títulos da saudosa colecção Borboletras (Caminho) que incluí no Best of 2010 da LER. Dedicado aos «professores incompreendidos» e aos «alunos incompreendidos», o novo álbum da colecção Orfeu Mini consegue ser profundamente honesto na abordagem desta relação periclitante (porque assente no desequilíbrio de poder entre as duas partes) e, ao mesmo tempo, convincente pela graça e desafectação paródica. É muito interessante a forma como o autor explora a mudança de cenários exteriores e a transformação interna das personagens, Frederico e Dona Lurdes, culminando num desfecho tudo menos forçado. Neste ano lectivo de contornos surreais, A Minha Professora é Um Monstro! (Não Sou, Não.) é um desafio ao nosso sentido de humor. Vale a pena conhecer outros livros de Peter Brown aqui.

sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

OS CONTOS SÃO UMA MEDICINA

 
«Os contos são uma medicina. Senti-me fascinada por eles desde que ouvi o primeiro, pela primeira vez. Têm um poder extraordinário: não exigem que façamos, sejamos ou ponhamos em prática algo: basta que os escutemos. Os contos contêm o remédio para reparar ou recuperar qualquer pulsão perdida. Os contos engendram emoções, tristeza, perguntas, desejos e pensamentos que trazem espontaneamente os arquétipos à superfície; neste caso, o arquétipo da Mulher Selvagem.»

(um excerto da minha «bíblia»: Women Who Run With Wolves [Mulheres que Correm com os Lobos], de Clarissa
Pinkola Estés, psicanalista junguiana, escritora e contadora de histórias, só para ficarmos por aqui)  

terça-feira, 14 de Outubro de 2014

APRENDER COM OS MESTRES - 2

 

- Todos os livros incorporam um conjunto de valores, intencionalmente ou não.
- Os adultos gostam de alguns livros escritos para crianças.
- As crianças gostam de alguns livros escritos para adultos.
- Crianças e adultos são influenciados pelo que leem.
- Um livro escrito para crianças pode ser um bom livro, ainda que as crianças em geral não gostem dele.
- Um livro escrito para crianças pode ser um mau livro, ainda que as crianças em geral gostem dele.
- Um livro pode influenciar num sentido (ou vários) que o autor não previu ou não teve intenção.
- Um livro pode estar bem escrito e, no entanto, dar forma a valores que numa determinada sociedade são largamente contestados.
- Um livro pode estar mal escrito e, no entanto, dar forma a valores que numa determinada sociedade são largamente aprovados.
- Um livro pode ser desaconselhável às crianças por causa dos valores que transmite.
- O mesmo livro pode significar coisas diferentes para crianças diferentes.
- É sensato prestar atenção aos julgamentos das crianças acerca dos livros, independentemente de os adultos concordarem. 
- É sensato prestar atenção aos julgamentos dos adultos acerca dos livros, independentemente de as crianças concordarem.

(Fotografia retirada daqui.)

segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

APRENDER COM OS MESTRES - 1


- É bom para as crianças lerem ficção.
- Os gostos das crianças são importantes.
- Alguns livros para crianças são melhores do que outros.
- É bom ajudar as crianças a gostarem de livros melhores.
- Um bom livro para crianças não é necessariamente mais difícil ou menos entusiasmante do que um mau livro para crianças.
- As crianças são indivíduos e têm gostos diferentes.
- Crianças de idades diferentes tendem a gostar de tipos de livros diferentes.
- Crianças de etnias diferentes e contextos sociais diferentes podem divergir nos seus gostos e necessidades. 

(Algumas ideias sobre livros para crianças segundo Peter Hollindale, do artigo «Ideology and the Children's Book». Amanhã, parte 2 e 3)

DA MÃO PARA A BOCA


«Dizem que se os seres humanos não pudessem sonhar à noite acabariam loucos. Do mesmo modo, se não se permite a uma criança entrar no mundo do imaginário, ela nunca chegará a assumir a realidade. A necessidade dos contos, para uma criança, é tão fundamental como a sua necessidade de comida e manifesta-se do mesmo modo que a fome.»

  (Paul
Auster, A Invenção da Solidão)


quinta-feira, 9 de Outubro de 2014

PRESENTES PARA AMANTES DE LIVROS


Abat-jour, caixa de lenços de papel e edredon em forma de livro. E outras ideias ainda melhores aqui.

(Cortesia de Micaela Maia.)

WENDY NO DIVÃ: GATO DAS BOTAS


GATO DAS BOTAS Aldrabão, trapaceiro, mentiroso, sem escrúpulos... Mesmo? A moralidade apensa ao conto de Charles Perrault não diaboliza a esperteza de «mestre-gato.


Um case study para as modernas neurociências, o Gato das Botas pode ser descrito como um psicopata funcional, cuja única culpa é ter nascido mais inteligente do que os outros. Séculos de perseguição e glória, do Antigo Egito à Idade Média, treinaram-no para a finura de uma mente superior, capaz de manter o sangue-frio até no momento em que escuta a sua sentença de morte. Imperturbável como um sat guru indiano, responde: «Não vos afligeis, meu dono. Só tendes que me dar um saco e um par de botas para poder entrar pelo mato dentro, e haveis de ver que não fostes tão mal bafejado como julgais.» Seguem-se as conhecidas peripécias que transformam o moleiro labrego – mas «formoso e bem apessoado» – no Marquês de Carabás, apenas com o sacrifício de alguns coelhos e perdizes para ofertar a um rei embasbacado com o poder. Dotado de suprema confiança, killer instinct e um par de botas (símbolo de autoridade e de afirmação social), o encantador felino, se nos permitem o pleonasmo, vai contando as mentiras que todos querem ouvir, ameaçando quando é preciso e bajulando quando se impõe. Tudo somado, convenhamos que o preço a pagar por salvar a pele e ainda garantir a harmonia do reino não é elevado. «Mestre-gato», como lhe chama Perrault, sabe que tudo nesta vida muda de forma, a começar pelos juízos e opiniões. De resto, está-se marimbando para o que pensam dele. 


(Texto publicado na LER nº 135. Outros da série «Wendy no Divã»: Capitão Gancho, Lobo Mau, O Chapeleiro Louco.)

terça-feira, 7 de Outubro de 2014

PÓS-GRADUAÇÃO EM LIVRO INFANTIL

Até ao final desta semana ainda estão abertas as candidaturas ao curso de Pós-Graduação em Livro Infantil da Universidade Católica Portuguesa, coordenado por Dora Batalim e José Alfaro. Fiz a primeira edição, em 2009, e a única coisa de que tenho pena é de não ter tido duas cadeiras essenciais (ainda se diz «cadeiras»?) que foram acrescentadas no ano seguinte. Aproveitem! Mais informações aqui.

CONCURSO DÁ VOZ À LETRA



É uma bela ideia, sem dúvida; e só é pena que o concurso se restrinja a alunos de escolas da Área Metropolitana de Lisboa. Estudantes dos 13 aos 17 anos são convidados a enviar um video até ao dia 29 de Outubro (regulamento completo aqui). O objectivo é encontrar os melhores leitores em voz alta, valorizando os seguintes aspectos: capacidade de comunicação; criatividade interpretativa; texto escolhido. Para os três primeiros classificados, há dois iPads e uma viagem a Londres. No dia 7 de Fevereiro de 2015, somos todos convidados da Gulbenkian para assistir ao espectáculo e à entrega dos prémios.

CURSO DE AUTO-EDIÇÃO OFICINA DO CEGO


Depois de três edições que proporcionaram a cerca de duas dezenas de formandos o desenvolvimento de trabalhos individuais no âmbito da criação de livros e outros objectos de natureza gráfica-editorial, o Curso de Auto-Edição volta a reunir os formadores da Oficina do Cego para oferecer um conjunto de ensinamentos e práticas que cruzam técnicas de impressão como a tipografia, a serigrafia ou a gravura com noções de planificação editorial, paginação ou acabamentos. O objectivo é cruzar saberes, pôr as mãos no papel e na tinta e chegar a Julho com um objecto impresso que resulte do trabalho de cada um e da experiência colectiva que se proporcionará ao longo quatro meses de aulas.

Os interessados devem contactar a Oficina do Cego através do e-mail ocformacao@gmail.com, até ao próximo dia 5 de Novembro. As inscrições serão efectuadas após selecção dos candidatos, com base na apresentação do seu portfolio em formato digital (imagens em formato jpeg ou pdf ) ou de currículo.

Mais informações sobre a Oficina do Cego e o Curso de Auto-Edição em http://oficinadocego.blogspot.com, ou através do mail ocformacao@gmail.com
(Informação enviada pela Oficina do Cego) 

sexta-feira, 3 de Outubro de 2014

IRMÃO LOBO NO WHITE RAVENS 2014


Quase a sair de Lisboa para o seminário e workshop em Torres Novas, chega esta notícia maravilhosa: Irmão Lobo, o meu livro e do António Jorge Gonçalves, está entre os 200 melhores títulos infanto-juvenis vindos de todo o mundo para integrar o prestigiado catálogo White Ravens 2014, uma selecção da International Youth Library (Internationationale Jugendbibliothek), sediada em Munique (este lugar digno de um conto de fadas). Já não tenho tempo, mas está tudo na notícia do blogue do Planeta Tangerina. Obrigada a uma grande equipa!

quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

SOMOS TODOS FILHOS DAS PALAVRAS


Foi talvez a presença mais comovente da 13ª edição das Palavras Andarilhas, em Beja, e que agora podemos rever na entrevista à Blimunda conduzida por Andreia Brites e Sérgio Machado Letria. «Somos todos filhos das palavras», diz Yolanda Reyes, para quem tão importante como ler os livros é ler as crianças. Escritora, educadora, cronista no diário colombiano El Tiempo, criou o projecto pedagógico Espantapájaros para dar corpo à noção, cientificamente comprovada, de que começamos a apropriar-nos da linguagem desde o quinto mês de gestação, quando as palavras e todos os sons ressoam amplificados na caixa líquida onde vivemos. Palavras ditas, palavras não ditas, silêncios, sonoridades, embalos, cadências, ritmo, melodia, ecos... Simbolicamente, as mães são música para o ouvido emocional da criança: «Quando me nomeias, eu existo. Quando me contas, eu existo.» Por isso os bebés choram quando a mãe sai do quarto. «Não te vás embora», diriam, se soubessem falar. Toda a nossa vida, afirma Yolanda, é passada a gerir, melhor ou pior, a ausência daqueles que amamos e a construir, sozinhos, o nosso próprio mundo. Até que chega a nossa vez de o comunicar.

(na fotografia: Yolanda Reyes, à esquerda, e Cristina Taquelim, a «alma» das Palavras Andarilhas)

quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

MEDIADORAS DE LEITURA


Esta fotografia foi tirada na Praia de Matosinhos, entre os meus três ou quatro anos. Rodeada de tias, primas e senhoras amigas da família, usufruo de um dos valores mais importantes com que uma criança pode ser contemplada: ser encorajada a mostrar a sua originalidade; aquilo que a língua inglesa define como uniqueness e que não me parece ter tradução exacta para português. Pedem-me para ler qualquer coisa escrita num papelinho, porque sabem que sou capaz. Apesar do meu ar desconfiado e do olhar por cima do sobrolho, eu também sei que sou capaz. Creio que nesta fotografia está tudo o que é preciso de imaterial para fazer um bom leitor: incentivo, confiança, atenção, tempo, amor, descontracção, reconhecimento, autonomia. Tive essa sorte. Tenho essa gratidão.

terça-feira, 30 de Setembro de 2014

O QUE TEM UM BOM LIVRO PARA CRIANÇAS?


- Tem uma boa ideia e um conceito global forte.
- Tem uma linguagem verbal cuidada, estimulante e adequada ao destinatário infantil, abrindo para o literário, com possibilidades plurisignificativas, múltiplas, com um carácter aberto.
- Tem ritmo e musicalidade na leitura em voz alta.
- Tem ilustrações criativas e adequadas ao texto, acrescentando-lhe significado. Põe cuidado no design gráfico, formato e edição.
- Tem valores humanistas e intemporais. Está em sintonia com o seu tempo. É progressista, muitas vezes.
- Tem uma marca autoral forte.
- Tem emoções associadas à infância e significativas para a criança (humor, gozo, fantasia, devaneio, justiça, segurança…).
- Tem pensamento. Questiona. Permite reflectir.


(Esta é uma síntese a que cheguei - discutível, certamente - e que costumo transmitir nas minhas formações, sabendo de antemão que os livros «perfeitos» são aqueles que cada leitor escolhe. Fica a partilha, a pedido de várias famílias.)

segunda-feira, 29 de Setembro de 2014

CURSO DE LIVRO INFANTIL BOOKTAILORS


Convidados especiais do meu próximo Curso de Livro Infantil para a Booktailors, a começar no dia 13 de Outubro. Informações e inscrições aqui.

quarta-feira, 24 de Setembro de 2014

QUEM ROUBOU O TOY?


Na capa da edição actual, põe-se a questão de saber qual dos cães é o Ziguezague. Lembremos que o Toy é um puro e genuíno golden retriever.

(Correcção: não percebo nada de cães, mas tendo por guia o texto em inglês (Hodder, 2006), trata-se antes de um golden spaniel.)

terça-feira, 23 de Setembro de 2014

THE KIDS ARE ALRIGHT: PIERRE



Versão cantada de Carole King para Pierre, um dos quatro títulos da adorável Nutshell Library, de Maurice Sendak, também já traduzida e a publicar pela Kalandraka em 2015. Um bocado chatota, digo eu (a música, não a colecção), tendo em conta que Pierre é um verdadeiro punk. Mais posts da série The Kids Are Alright: Alice, The Sisters of Mercy; Alice, Jefferson Airplane; The House That Jack Built, Metallica.

segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

CONTA-ME FÁBULAS


Assinado por Catarina Araújo, Fábulas começou por ser um blogue, mas «rebaptizou-se» recentemente como «revista online de literatura infantil e juvenil», com mais arrumação e mais conteúdos. A designação não é assim tão importante, porque o essencial está lá. Nas categorias «Infantil», «Juvenil» ou «Jovem Adulto», Fábulas continua a sugerir boas pistas de leitura e divulgação do mercado editorial português e estrangeiro. Também no Facebook, com título homónimo.

domingo, 21 de Setembro de 2014

DON'T LOOK BACK IN ANGER





Dois filmaços que vi este fim-de-semana: Gimme Shelter e Joe. Etiquetas: adolescentes, violência, famílias disfuncionais, amor, lealdade, traição, trabalho duro, cobras, bons polícias & maus polícias, cães perigosos, cidades, drogas, causas perdidas, árvores, esperança, sobrevivência, náufragos, porte de armas, cicatrizes, maternidade, gótico americano e por aí fora.

MAIS UM SENDAK


Terminada hoje mais uma tradução de Maurice Sendak para a Kalandraka (e, para variar, nada fácil). Publicado em 2011, Bumble-Ardy pôs fim ao seu interregno de dez anos como autor do texto e das ilustrações, o que é apenas uma demonstração do tempo não-linear da escrita e da arte em geral. Nesta entrevista à Paris Review, aos 83 anos, Sendak fala da incerteza do amor familiar e da propensão humana para o caos, temas que tratou também em livros como Where the Wild Things Are e Outside Over There. Como seria de esperar, Bumble-Ardy não é um livro amável nem superficial. Pode incomodar quem não tiver sentido de humor, por exemplo. E isso para dizer o mínimo.

segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

PALAVRA DE INÊS


É uma estreia na literatura para crianças, vinda de quem nunca escondeu grande sensibilidade e conhecimento de causa. Inês Fonseca Santos, jornalista cultural e um dos rostos do saudoso Diário Câmara Clara, desenvolveu uma tese de mestrado sobre a poesia de Manuel António Pina, que não anda longe deste livro (e mais não dizemos porque não o lemos, ainda). Com edição da Arranha-Céus, uma chancela da editora Abysmo, A Palavra Perdida tem ilustrações de Marta Madureira, das edições Tcharan. Para quem está no Porto, será mais fácil assistir ao lançamento já no próximo sábado, 20 de Setembro, às 17h00, na livraria Papa-Livros, onde também vão estar expostas as ilustrações. Em Lisboa, haverá uma segunda oportunidade para encontrar A Palavra Perdida no dia 18 de Outubro, em local a anunciar. Estejam atentos.

sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

BIBLIOTECAS PARA SEMPRE


«Pode a resposta estar na biblioteca?» É uma boa pergunta. É também a designação da comunicação de José Pacheco Pereira, o primeiro interveniente no debate que inaugura o seminário «Nós nas Bibliotecas», dias 3 e 4 de Outubro, em Torres Novas. Numa época em que o essencial passa a supérfluo muito rapidamente, como convém a uma minoria, temos de lembrar que o papel das bibliotecas públicas é insubstituível. E quanto trabalho já feito se está a perder por «falta de meios»...

Na tarde do segundo dia haverá oficinas de três horas; também lá estarei, para mostrar e falar de álbuns (prefiro a designação picture book, perdoem-me), o único contributo realmente original do livro infantil para o sistema literário, segundo um dos meus gurus, Peter Hunt. O programa completo pode ser consultado no site da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, aqui.

quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

PORTO ANTIGO E RAPIOQUEIRO


Raquel Patriarca (n. Benguela, 1974), bibliotecária, historiadora e contadora de histórias, apresentou o ano passado uma tese de doutoramento na área do livro infantojuvenil que, noutros tempos, seria rapidamente editada. É muito interessante e bem escrita, garanto. Valha-nos a possibilidade de a consultar em formato pdf nos arquivos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, mediante uma pesquisa no Google. Procurem pelo título: O Livro Infantojuvenil em Portugal entre 1870 e 1940 - uma Perspectiva Histórica. Agora, para os leitores mais novos e não só, Raquel Patriarca publicou uma história do Porto, «cidade antiga e orgulhosa, sábia e rapioqueira». Enquadra-se claramente no género «livro informativo», mas é contada sob um olhar muito pessoal e subtilmente literário. Além dos factos e da inclusão de um glossário final, há histórias de vida (o almocreve, o clérigo, a menina que vivia em Campanhã...) e textos que remetem para os géneros lírico e jornalístico. Como o livro se apresenta, logo no início, como «uma proposta de aventura pela cidade do Porto», há também uma espécie de guião de leitura com a remissão dos temas para as respectivas páginas. Era Uma Vez o Porto tem edição da Verso da História.

segunda-feira, 8 de Setembro de 2014

ILUSTRAÇÃO NA FEIRA DO LIVRO DO PORTO


A Feira do Livro do Porto começou na sexta e vai durar até 21 de Setembro. Vou estar lá no sábado, dia 13 (ver aqui a notícia da Bookoffice) e de certeza que não perderei a exposição Outro Modo de Ler - Texto e Imagem na Ilustração para a Infância, patente na galeria da Biblioteca Almeida Garrett. De Alain Corbel a Yara Kono, são nada mais nada menos do que 36 ilustradores, desde «consagrados» como Teresa Lima. André Letria, João Fazenda, Bernardo Carvalho, Madalena Matoso ou António Jorge Gonçalves a outros nomes menos habituais nestes circuitos. Mesmo à distância, dá para perceber que a selecção foi cuidadosa e equilibrada. 

domingo, 7 de Setembro de 2014

SINAIS


«Toda a gente devia parar junto de um pequeno riacho - e ouvir.» Ilustração de Maurice Sendak para o livro de Ruth Krauss, Open House for Butterflies (1960). Fonte: Brainpickings.

sexta-feira, 5 de Setembro de 2014

FOI NAQUELE VERÃO EM QUE TUDO COMEÇOU A ARDER


Embora com muito atraso, queria mencionar a inclusão do Irmão Lobo na lista de títulos para crianças e adolescentes recomendados no jornal Público. Não sei se os leitores conseguem ver ou se é só para assinantes, mas está aqui e aqui. Tocou-me muito o título do texto de Rita Pimenta, «Quando tudo arde»... É que a primeira frase do livro (e quanto haveria a dizer sobre as primeiras frases dos livros...) esteve para ser outra: «Foi naquele Verão em que tudo começou a arder». Depois, mudei de ideias. Mas durante cerca de um ano, até começar a escrever, essa sequência de palavras foi o rastilho da história de Bolota e seus irmãos, do cão Malik, de Alce Negro e de Blanche. A história «de uma família a desagregar-se por motivos banais (menos dinheiro, menos amor), mas não por isso menos dolorosos», como se lê no texto. De vez em quando esta família volta para mim; não em cinzas, mas como um fogo que habita permanentemente a minha casa imaginária.

ZEN E A ARTE DO TIRO COM ARCO


«O ser humano é uma criatura pensante, mas as suas grandes obras realizam-se quando ele não pensa nem calcula. Após longos anos de treino na arte do esquecimento-de-si, o objectivo é o de recuperar o "estádio de infância". Uma vez atingido, a pessoa pensa, embora não pensando. Pensa como a chuva que cai do céu; pensa como as vagas que se levantam do mar; pensa como as estrelas que iluminam o céu nocturno; como a folhagem verde que rebenta sob a doçura da aragem primaveril. Na verdade, ele próprio é a chuva, o mar, as estrelas, o verde.»

[O post anterior remete, obviamente, para o clássico de Eugen Herrigel (Alemanha, 1884-1995), Zen e a Arte do Tiro com Arco, que li pela primeira vez há uns dez ou quinze anos (não percebi nada). Apesar da controvérsia que rodeia o autor, acusado de fortes ligações ao nazismo, é um livro que permanece «fora do tempo» e actualizável por quem o lê; essa é uma das marcas dos «clássicos». Esta edição é da Cotovia, porque não encontrei na net uma imagem da capa da Assírio & Alvim, mas ambas têm a tradução de Patrícia Lara.]

quinta-feira, 4 de Setembro de 2014

A ESCRITA E A ARTE DO TIRO COM ARCO


A única guerra que um escritor deve esforçar-se por vencer é contra o seu próprio ego. Só assim poderá adoptar uma atitude simultanemente crítica, activa e observadora, indispensável à percepção do mundo sem a influência dos anões devoradores da criatividade: o narcisismo, a insegurança, a vaidade e a autocondescendência, entre outros. Nessa batalha terá como principal aliado o conhecimento armazenado no seu corpo (inconsciente, em grande parte), que lhe chegará através das palavras e das imagens mentais, nesses momentos de grande «dilatação psíquica» de que falava Bachelard. O medo de que o corpo se antecipe à mente e fale o que preferiríamos calar é uma das razões da nossa esmagadora solidão. Proibimo-nos de ser naturais e damos rédea curta à nossa presença animal, ligada ao instinto, à harmonia e ao afecto. A deseducação do corpo será, creio, a principal causa das doenças degenerativas individuais e sociais. Um escritor comprometido com o seu tempo e a sua arte tem a obrigação de trabalhar diariamente para curar essa ferida colectiva. Para isso, deve deixar que o corpo o guie na direcção escolhida, com estratégia, mas sem demasiado esforço e absolutamente nenhum calculismo.

quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

LEITURAS DE AGOSTO - II




Em Agosto, segui o rastro luminoso de Herberto, um picture book escrito e ilustrado quase de raiz para a editora Bruaá (digo «quase» porque a autora, Lara Hawthorne, tinha apenas algumas páginas esboçadas), tão bonito que só mesmo visto. Da Gatafunho, li mais uma tradução da grande Jutta Bauer, O Anjo da Guarda do Avô, delicadíssimo na sua arte de convocar a transcendência da vida. Mal vi a capa, demorei tempo (é verdade) a decifrar a primeira palavra do livro de Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso, Com o Tempo (Planeta Tangerina), mas também isso mudou com o tempo porque, explicam-nos, e é assim mesmo, «o difícil torna-se fácil». Agosto foi um mês de muitas leituras (estas e mais estas entram na LER de Setembro, a sair em breve). Agora vêm coisas novas.

terça-feira, 2 de Setembro de 2014

RECADO A MAURICE SENDAK


Maurice, meu herói, meu rebelde, meu amor. Na Europa cavam-se trincheiras outra vez e as crianças desaparecem sob os escombros. Os homens não aprendem nada e eu também estou em guerra. Sonho com uma insurreição temperada pela doçura. Era só isto. Muito tua, C.