terça-feira, 1 de setembro de 2015

WENDY NO DIVÃ: A BELA E O MONSTRO


A BELA E O MONSTRO Meio-homem, meio-animal, o Monstro não é flor que se cheire. Quanto a Bela, rapariga modesta e prendada, vê no autossacrifício a maior das virtudes. Só mesmo um desencantamento para salvar esta triste história.


Em 1946, Jean Cocteau adaptou-o ao cinema e criou um prodígio de imaginação cenográfica e alegórica. A Bela e o Monstro, também conhecido por A Bela e a Fera, é um dos mais populares contos de fadas, celebrizado na Europa pela versão literária de Madame Le Prince de Beaumont, publicada em 1757. Desde então, tem produzido estragos consideráveis em inúmeras famílias, sensíveis à cantiga do «ele é bom rapaz, um pouco tímido, até». Pois se é verdade que existem monstros capazes de inspirar compaixão, como Frankenstein, King Kong ou o Corcunda da Nôtre-Dame, outros há cujo trato é tão inútil e danoso como mandar o Freddy Krueger à manicura.


O Monstro da Bela não é dos piorzinhos, sobretudo se o compararmos com Barba-Azul, nosso psicopata de eleição, mas não temos outro remédio se não julgá-lo pelas aparências: «Além de ser feio, não tenho inteligência: sei que não passo de um animal», admite. Quem fala assim não é gago, mas Bela é uma mulher de palavra: «Estou disposta a abandonar-me à sua fúria e sinto-me muito feliz, porque, morrendo, terei a alegria de salvar meu pai e de lhe provar o meu amor.» Recorde-se que é o pai de Bela o primeiro a concordar com o sacrifício de uma das filhas ao Monstro, mesmo quando os irmãos mais velhos se prontificam a ir lá limpar-lhe o sebo. E fá-lo para salvar o próprio pelo, na boa tradição dos pais tiranos/ausentes/incestuosos dos contos de fadas: A Gata Borralheira, Pele de Burro, Branca de Neve e outros que tais (depois admiram-se).


Há quem veja nesta transferência edipiana uma conquista da maturidade. «Neste conto tudo é bondade e devoção amorosa de um pelo outro, da parte dos três personagens: a Bela, seu pai e o Monstro», escreve Bruno Bettelheim, na Psicanálise dos Contos de Fadas. A sério? Muitas Belas deste mundo diriam outra coisa, se tivessem vivido para contar a história.



(Texto publicado na LER nº 138. Mais personagens semi ou totalmente insanos, da série «Wendy no Divã», podem ser lidos no Jardim Assombrado, aqui.)

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

IRMÃO LOBO É BRAT VUK


Tenho em mãos a recém-chegada versão sérvia do Irmão Lobo, cuja capa mole não desmerece em nada a cuidada edição da Kreativni Centar. Por esta editora de Belgrado, com o suporte dos programas de apoio à tradução da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, já saíram os romances juvenis de Ana Saldanha (Para Maiores de Dezasseis), Afonso Cruz (Os Livros que Devoraram o Meu Pai), Ondjaki (Bom Dia, Camaradas) e Alice Vieira (A Vida nas Palavras de Inês Tavares), todos eles essenciais para a compreensão da literatura portuguesa para «adolescentes e leitores mais crescidos», roubando a bem achada designação do Planeta Tangerina. Escusado será sublinhar o quanto me sinto grata por estar junto destes nomes. Irmão Lobo escreve-se como podem ver na imagem e pronuncia-se Brat Vuk.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 16


«Durante a última primavera na Universidade, uma espécie de agitação apoderou-se de Myra. Era algo que não conseguia compreender; estava para além da inquietação de uma juventude exuberante. Era mesmo qualquer coisa de neurótico. Nada do que fazia parecia satisfazê-la ou realizá-la totalmente. Nem quando regressava tarde de um baile em que passara de par em par, nem isso bastava para que caísse de fadiga e adormecesse. Era como se faltasse não sabia o quê que atribuísse à noite toda a sua plenitude. Às vezes, tomava-a uma sensação de pânico, ou quase, como se tivesse perdido ou esquecido alguma coisa muito importante.»

Tennessee Williams, O Campo das Crianças Azuis, in A Noite da Iguana e Outras Histórias, Assírio & Alvim, 1987, tradução de José Agostinho Baptista. Originalmente publicado em 1936.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 15


«Ele estava a ler-lhe Rilke, um poeta que admirava, quando ela adormeceu com a cabeça no travesseiro dele. Gostava de ler em voz alta e lia bem, numa voz confiante e sonora, ora baixa e grave, ora retumbante, ora excitante. Enquanto lia nunca desviava os olhos da página e apenas interrompia para estender o braço para a mesinha-de-cabeceira e pegar num cigarro. Era uma voz que a transportava até um sonho povoado de caravanas que iniciavam uma viagem a partir das cidades rodeadas de ameias, com homens barbudos vestidos com túnicas. Tinha-o escutado durante alguns minutos, fechara os olhos e adormecera.»

Raymond Carver, A Mulher do Estudante, in Queres Fazer o Favor de te Calares?, Teorema, 1989, tradução de Carlos Santos. Originalmente publicado em 1976.

terça-feira, 21 de julho de 2015

E POR FALAR DE AMORES


(...) «Aqui há uns tempos fui à Escola S. João de Brito e estava a falar do meu Irmão Lobo para uma turminha de miúdos do 3º ano do 1º ciclo, e disse: «Bom, este livro, o Irmão Lobo, já é assim mais para adolescentes...». Queria pôr as coisas de uma forma que não soasse muito triste, e disse: «Bom, não sei como é que vos hei de dizer isto...». E há um miúdo que se levanta e diz: «Mas pode dizer, que nós percebemos.» E eu: «Pronto, então este livro é a história de uma família que se desmoronou.». E há outro miúdo, do outro lado da sala, que diz: «A minha família também se desmoronou.» Isto tocou-me imenso. Houve um silêncio naquela sala que foi de comunhão. Todos percebemos do que estávamos a falar.» (...)

Este é um excerto da uma entrevista para o programa Escrever na Água, da RDP África, conduzida pela jornalista Fernanda Almeida. O pretexto foi o Amores de Família, que saiu recentemente pela Editorial Caminho, um livro que cruza os arquétipos da mitologia greco-latina com algumas famílias que vivem mesmo ao nosso lado. Famílias funcionais e nutritivas, em que se valoriza o amor, o carinho e a ética do cuidar, forças essenciais numa sociedade tão fragmentada como a nossa. Falámos também de literatura para crianças, de mediadores de leitura apaixonados, de como nasce e se fixa a ideia para um livro, do processo de ilustração com a Marta Monteiro, da resistência dos adultos a livros fora da norma e, enfim, de outras coisas que podem surgir numa conversa que flui como a água. Com a Fernanda Almeida é sempre assim.

A entrevista demora meia hora (entre o minuto 00:00 e 29:55) e pode ser ouvida na íntegra aqui. Pode ser útil para os professores que estejam a pensar trabalhar o Amores de Família no próximo ano lectivo, em especial para a abordagem dos temas clássicos numa perspectiva literária e estética. O livro entrou agora para o Plano Nacional de Leitura, área de Apoio a Projectos - Educação para a Cidadania (3º, 4º, 5º e 6º anos), que é justamente onde deve estar.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 14


   «Foi um Verão estranho e sufocante, aquele em que electrocutaram os Rosenberg. Estava então em Nova Iorque sem saber ao certo porquê. As execuções incomodam-me. A ideia de se ser electrocutado dá-me a volta ao estômago, e os jornais não falavam de outra coisa: cabeçalhos atrás de cabeçalhos olhando-me esbugalhados em todas as esquinas e entradas de metro tresandando a amendoim. Embora nada daquilo tivesse a ver comigo, não conseguia deixar de imaginar como seria ser queimado vivo até à mais ínfima parcela do nosso corpo.
   Deve ser a pior coisa do mundo.»

Sylvia Plath, A Câmpanula de Vidro, Assírio & Alvim, 1988, tradução de Mário Avelar. Originalmente publicado em 1963.

sábado, 18 de julho de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 13


«Chamo-me Mary Katherine Blackwood. Tenho dezoito anos e vivo com a minha irmã Constance. É frequente pensar que se tivesse tido um pouco de sorte poderia ter nascido lobisomem, porque o anular e o dedo médio das minhas mãos têm o mesmo comprimento, mas tive de me contentar com aquilo que tenho. Não gosto de me lavar, nem de cães ou barulho. Gosto da minha irmã Constance, de Ricardo Coração de Leão e do Amanita phalloides, o cogumelo da morte. Todas as outras pessoas da minha família estão mortas.»

Shirley Jackson, Sempre Vivemos no Castelo, Cavalo de Ferro, 2010, tradução de Maria João Freire de Andrade. Originalmente publicado em 1962.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

GRANDE AFONSO



Afonso Cruz venceu esta semana a 19ª edição do Prémio Nacional de Ilustração com o livro Capital, uma obra da colecção Imagens que Contam (Pato Lógico), já assinada por alguns dos nossos melhores ilustradores: Marta Monteiro (Sombras), André da Loba (Bestial), Catarina Sobral (Vazio), João Fazenda (Dança) e Bernardo P. Carvalho (Verdade?!). Como o nome da colecção sugere, trata-se de livros sem texto, ancorados num título de uma só palavra que dá o mote para a narrativa de 32 páginas que se segue. Ainda há muito desconhecimento (e também preconceito intelectual e falta de curiosidade) em relação a este género de picture books - ou «álbuns puros», se preferirem - que se caracterizam pela recusa do primado da palavra, durante tanto tempo responsável pela clivagem hierárquica entre o texto e a ilustração. A prová-lo, como exemplo negativo desta tendência, temos aí uma quantidade de livros palavrosos, chatos, quadrados e absolutamente irrelevantes.

Graças ao trabalho de editores e autores, entre outros agentes (e honra seja feita ao investimento continuado da actual Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas), o panorama da literatura infanto-juvenil mudou muito nos últimos vinte anos, felizmente; e Afonso Cruz, com a sua vivência singular da arte e da criatividade, sem constrangimentos étarios, contribuiu para essa revolução. É um autor completo e complexo, de quem nunca sabemos bem o que esperar, e que já nos deu livros tão bons e tão peculiares como A Contradição Humana (Caminho), O Livro do Ano (Alfaguara), Os Livros que Devoraram o Meu Pai (Caminho) ou essa pequena pérola, rara nas livrarias, que dá pelo nome de Os Pássaros (APCC), só para falar da sua produção que acolhe (sublinhado meu) os leitores mais novos. A bibliografia completa de Afonso Cruz pode ser conhecida aqui.

A leitura de Capital é bastante explícita e não deixa dúvidas quanto à sujidade do chamado «vil metal», desde a primeira contaminação das personagens até à apropriação absoluta do Sistema Solar. A página dupla das guardas finais evidencia, simbolicamente, os resultados desta digestão devoradora, com o porquinho-mealheiro a flutuar no lugar onde antes estava a Terra. Limpinho. Para os professores e mediadores de leitura que queiram trabalhar esta obra recém-premiada de Afonso Cruz, sugiro que o façam em complemento com um excelente texto dramático, levado à cena no Centro Cultural de Belém e agora fixado em livro: A Cruzada das Crianças - Vamos Mudar o Mundo (Alfaguara).

Inspirada num acontecimento adstrito aos «ficheiros secretos» da História, um movimento semiespontâneo de milhares de crianças e adolescentes que, em 1212, partiram em peregrinação por terras de França e da actual Alemanha, empenhados na missão insana de libertar Jerusalém dos muçulmanos, A Cruzada das Crianças - Vamos Mudar o Mundo é seguramente a obra mais política de Afonso Cruz destinada a este público. Intercalando ilustrações, notícias de jornais e fotografias de manifestações com crianças, um pouco por todo o mundo (excelente trabalho de design gráfico de Maria João Lima), é um livro de uma inteligência poética e argumentativa desconcertantes.

«Dedicado a todas as crianças que já fui», diz o autor em epígrafe, a peça parte desta possibilidade extraordinária: como seria se milhares de crianças resolvessem questionar todas as instituições e os adultos que as dirigem? Crianças para quem o território da justiça é sempre maior do que o mapa das leis; crianças para quem a semiótica e a retórica dos «crescidos» não interessa patavina; crianças que só querem respostas directas, honestas e verdadeiras:

(...)
Polícia (condescendente): Não podem andar assim, aos milhares, a reclamar coisas tão importantes.
Criança 1: Não se pode reclamar coisas importantes?
Polícia: Não têm idade para isso. Vocês não percebem.
Criança 2: Com que idade é permitido?
Polícia: A partir da idade em que sabem o que querem e não andam a brincar com as pessoas.
Criança 1: Quando ficarmos sentados no sofá sem tempo para brincar?
Criança 2: Estamos presos?
Polícia: Não estão presos. Estamos à espera dos vossos pais.
(...)

Com imagens ou sem imagens, Afonso Cruz é um autor capital. E estes dois livros só nos enriquecem ainda mais. Agora chega de trocadilhos. Vão ler.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

A VIDA EM ANEXO


A 15 de Julho de 1944, faz hoje 71 anos, uma rapariga judia escrevia num diário secreto a uma amiga imaginária: «...se estás a pensar que a vida aqui no Anexo é mais difícil para os adultos do que para os jovens, a resposta é não, sem dúvida que não. As pessoas mais velhas têm uma opinião sobre tudo e estão seguras de si próprias e das suas ações.»

Se há nomes próprios que reflectem algo do carácter do seu portador, a frontalidade e a argúcia de Anne Frank transparecem no que lhe foi atribuído à nascença (em inglês, «frank» é sinónimo de «sincero», «honesto», «directo»). Do horror generalizado até aos familiares e residentes no «anexo», expressão por que ficou conhecida a parte da casa de Amesterdão onde oito pessoas viveram escondidas durante dois anos, Anne não foi branda nas palavras. Quando veio a público a primeira edição do diário, em 1947, a opção de Otto Frank, pai de Anne e único sobrevivente, foi eliminar os trechos mais íntimos ou então pouco abonatórios para a família, em especial para a mãe. «Tenho uma característica predominante que deve ser óbvia para qualquer pessoa que me conheça: tenho um grande autoconhecimento [«autocrítica» na tradução anterior de Ilse Losa para a Livros do Brasil]», escreveu Anne: «Em tudo o que faço, consigo observar-me como se fosse uma desconhecida. Consigo pôr-me de fora da Anne de todos os dias e, com imparcialidade e sem a tentar desculpar, observar o que ela está a fazer, tanto o bom como o mau.»

Este grau de honestidade só é possível quando a capacidade de observação é aliada do pensamento crítico e reflexivo. Mais: quando a vida interior de uma adolescente brutalizada ainda não foi totalmente destruída pelo «lado pior da natureza humana, quando toda a gente duvida da verdade, da justiça e de Deus». Pergunto-me que esforço intolerável teremos ainda nós de fazer - adultos, mas sobretudo adolescentes e crianças - para resistir à distribuição diária de pequenas e grandes mentiras a que somos expostos. Mais do que um testemunho histórico, O Diário de Anne Frank, hoje integrado nas Metas Curriculares de Português (8º ano), é uma obra «que nunca acabou de dizer o que tem a dizer» (para recorrer à definição de Italo Calvino em Porquê Ler os Clássicos?), precisamente porque se construiu ancorada na verdade essencial de um indivíduo, uma rapariga morta aos 15 anos num campo de concentração.

Recentemente, numa visita que fiz à escola EB1 de São João de Brito, em Lisboa, uma professora desassombrada comentava: «Outro dia, o meu filho perguntou-me "mãe, o que é a esperança?", e eu não sabia o que lhe dizer... E agora acontece isto: queremos que eles leiam O Diário de Anne Frank, mas não lhes sabemos explicar o que é a esperança.»

Possa a vida prosseguir e prosperar, mas não em anexo. 

O Diário de Anne Frank - versão definitiva
Tradução de Elsa T. S. Vieira
Livros do Brasil, 2015

sexta-feira, 10 de julho de 2015

SEI O QUE FIZESTE NO VERÃO PASSADO


Finalmente o Verão, de Mariko Tamaki (texto) e Jillian Tamaki (ilustração), duas primas de ascendência japonesa nascidas no Canadá, é o quarto título publicado na colecção Dois Passos e um Salto, «para adolescentes e outros leitores mais crescidos», como desde o início foi apresentada pela editora Planeta Tangerina. Nada de equívocos, portanto. A linguagem explícita que aqui aparece é até bastante soft, se comparada com alguns «diálogos» avulsos que captamos na rua ou perto de qualquer escola secundária. Se há pais, professores, livreiros e adultos em geral que preferem olhar para os adolescentes como se os pudessem conservar num frasco de formol delicodoce, talvez seja porque se esqueceram dessa época bruta, incerta, confusa e sempre angustiante que se sucede à relativa previsibilidade da infância. Finalmente o Verão tem tudo a ver com isso e muito mais.

A maternidade é um dos temas que atravessam o livro de uma ponta à outra - e esta noção de «travessia» é, em si mesma, estruturante do ponto de vista narrativo. Primeiro, a travessia da família Wallace para a zona dos grandes lagos, um lugar idílico chamado Awago Beach onde desde há muitos anos passam as férias de Verão. Rose Wallace, adolescente magra e aérea como um galho, reencontra ali a amiga de infância, Windy, cujo corpo redondo contrasta com o seu e oferece já outra visão do feminino, menos agreste e mais maternal. Mas perceberemos rapidamente algumas das razões da crispação de Rose: um aborto espontâneo da mãe às seis semanas, ainda por curar, transporta o mal-estar e as discussões do casal Wallace para o desejado retiro no seu éden privado.

Interligando-se com o cenário familiar, o quotidiano rude dos adolescentes e jovens adultos da localidade de Awago Beach - e o impacto de uma gravidez não desejada entre duas personagens - adensam o clima sufocante da teia de relações humanas. Surgem alguns presságios: as referências aos feiticeiros da tribo Huron, ancestrais habitantes daquela região do Canadá, agora convertidos em atracção turística; ou a fantasmática figura do homem que aparece a Rose quando ela foge para o lago, avisando-a do perigo dos relâmpagos. No entanto, nada nos prepara a iminência da tragédia nem para o final redentor do livro. E essa surpresa é um dos deslumbramentos desta novela gráfica em tons de azul, por isso não a estraguemos aqui.

Mas esta é, esssencialmente, uma travessia dos lugares cristalizados da infância, ainda com cheiro a gomas e refrigerantes e festas de pijama, para outros lugares insondáveis onde se fala (muito) de sexo, rapazes, casamento, filhos... Personagens que são, sobretudo, seres em transição: raparigas que gostariam de ser mulheres para serem desejadas; mulheres que gostariam de voltar a ser crianças só «para poder gritar e espernear», mulheres que não querem ter filhos porque elas próprias se sentem ainda crianças. A maternidade, fortemente simbolizada nas águas uterinas do lago, recorda que «a mãe natureza nem sempre é a pessoa mais simpática do mundo». Por vezes, navegamos em águas turvas ou desconhecidas. Há perdas de sangue e de filhos; há conversas cortadas a meio e mensagens não respondidas no telemóvel. Há a eterna incomunicabilidade das coisas brutais, e também o esforço que fazemos para lhes dar um nome. Onde faltam as palavras, exorbitam as onomatopeias, traduzindo emoções, cheiros, sabores, sensações, gestos, movimentos, sons. Do muito grande ao muito pequeno, o espaço de página faz convergir espaços antagónicos e tempos paralelos com absoluta mestria.

Muito mais poderia ser dito sobre Finalmente o Verão, livro que mereceu, com bastante polémica (ver aqui), o prestigiado Caldecott Honour, atribuído pela American Library Association, em 2015. É um daqueles livros que não hesitamos em classificar como obra-prima, por muito batida que esteja a palavra. E ainda bem que agora se escrevem tantas obras-primas na literatura infanto-juvenil. Mas nada de equívocos, novamente: este é um livro «para adolescentes e outros leitores mais crescidos», que muitos adultos deviam ler pelo menos duas vezes. Terminamos com a fala do homem do lago, que com o seu cão magro aparece junto de Rose, deixando-lhe um sábio conselho: «Algumas lições só se aprendem a doer, miúda. Não precisas armar ao pingarelho.»

Finalmente o Verão
Mariko Tamaki (texto)
Jillian Tamaki (ilustração)
Tradução de Isabel Minhós Martins
Planeta Tangerina

quarta-feira, 8 de julho de 2015

E NÓS, MÃE, PARA ONDE VAMOS DE FÉRIAS?


O Jardim Assombrado não foi de férias, muito pelo contrário: sucumbiu a uma avalanche de trabalho que fez os livros acumularem-se numa pilha rival à da roupa para passar a ferro, havendo agora que desbastar uma e outra. Começo por uma das novidades da Kalandraka, Gatinho e as Férias, o terceiro título da série iniciada com Gatinho e a Neve e Gatinho e a Bola. Não é muito fácil encontrar obras adequadas a pré-leitores (a partir dos 3/4 anos, diria) em que a aparente simplicidade é o resultado de um trabalho invisível que implica muita reflexão, bom senso e profundidade psicológica; um pouco como a indispensável colecção do Sapo, do holandês Max Velthuijs (1923-2005).

Partindo de situações familiares à vida interior das crianças, sempre realçando os tempos livres e as brincadeiras (sem i-pads nem consolas), faz-se aqui uma subtil apologia da oportunidade de aprender com situações inesperadas e mesmo geradoras de ansiedade. Neste caso, é a aproximação das férias a dar o mote: o que fazer com esses dias que interrompem a segurança das rotinas, seja ela falsa ou verdadeira? Um dos amigos do Gatinho não vai de férias porque o pai tem de trabalhar; outros vão sozinhos para casa da avó, na aldeia; outro passa metade das férias com o pai e outra metade com a mãe... Circunstâncias sociais comuns na vidas dos miúdos de hoje. Algum vocabulário pode ser desconhecido («espesso», «caldeira», «lomba», de O Gatinho e a Neve), mas guarda a oportunidade de aprender palavras novas com a ajuda das imagens e dessa força agregadora que preside às ligações parentais. Estes são livros ideais para leituras partilhadas entre adultos e crianças pré-leitoras, em que a figura nutritiva da mãe sobressai com o tal «bom senso» supracitado. Mais informação sobre o livro e os autores na página da Kalandraka, aqui.

Gatinho e as Férias
Joel Franz Rosell (texto)
Constance v Kitzing (ilustração)
Kalandraka

quinta-feira, 25 de junho de 2015

AMAR É BATER PALMAS


«A senhora Clap é excelente a bater palmas. Bate palmas mesmo muito bem.» Começa assim a história da Senhora Clap, um livro que não é bem uma história - no sentido estritamente narrativo do termo - mas que guarda uma integridade e coesão estranhamente invulgares. Podemos chamar-lhe um «livro de personagem», na medida em que a força da sua argumentação se concentra à volta de uma só figura, à semelhança do conto «Retrato de Mónica», de Sophia de Mello Breyner Andresen, ou O Senhor Valéry, de Gonçalo M. Tavares, entre tantos outros.

Mas as comparações acabam aqui, porque a Senhora Clap, que conhece «quase todos os segredos sobre cada salva de palmas e sabe ler os sentimentos e as emoções de cada pessoa que as dá», é demasiado original para ser comparada com outra personagem qualquer. Muito ocupada a escrever o Tratado Universal sobre a Arte de Bater Palmas em Situações Alegres ou Tristes, aplica grande parte do seu tempo em conferências sobre o assunto, explicando ao público algumas noções retiradas do seu diário de campo. Por exemplo:

38 - «Só devemos bater palmas quando nos apetece.»
41 - «Não devemos ter receio de bater palmas mesmo quando somos os únicos a fazê-lo.»
74 - «As pessoas que batem palmas a olhar para o lado, não sentem muito.»
75 - «As palmas que não se sentem perdem o som.»
94 - «Não é preciso ganhar para que as pessoas mereçam palmas.»
108 - «As pessoas apaixonadas batem palmas com mais intensidade.»
387 - «Amar é bater palmas.»

Na caracterização da Senhora Clap, que aqui não se pretende exaustiva, há que referir ainda um pormenor da ordem da fenomenologia: é que a Senhora Clap fica transparente do lado esquerdo quando bate palmas, e isso contribui para o seu interesse científico e antropológico, acham os especialistas. A única condição é que as palmas têm de ser sinceras (confirmar acima, nota 38), sob pena de nela se produzir o efeito adverso. Quem acha que bater palmas é um acto banal e desprovido de interesse, «são só as mãos a fazerem uma espécie de barulho», deve pelo menos ter a delicadeza de guardar esse julgamento para si. Caso contrário, pode acontecer isto:

«Uma vez, enquanto aplaudia, a Senhora Clap ouviu um comentário deste género e - zás - perdeu a transparência num ápice! Começou a ficar opaca, muito opaca, tão opaca que não se conseguia ver nada, nem a cor dos seus olhos, principalmente do esquerdo. E nessa altura disse:
- Peço desculpa, mas hoje não consigo bater mais palmas!»

Seria uma pena que isso acontecesse muitas vezes, pois a matéria do Tratado Universal sobre a Arte de Bater Palmas em Situações Alegres ou Tristes é vastíssima, mesmo inesgotável. Se «amar é bater palmas» (confirmar acima, nota 387), é impossível ficarmos quietos e calados por muito tempo, está bem de ver. Comecemos por aplaudir a Senhora Clap e de certeza que sentiremos o eco da atenção dela em nós. Experimentem.

A Senhora Clap e o Mundo na Palma das Mãos
Marta Duque Vaz (texto)
Alexandre Esgaio (ilustração)
Planeta Manuscrito, 2015

terça-feira, 23 de junho de 2015

A ILHA DO TESOURO



Enquanto esperamos (ansiosamente) que chegue às bancas a LER de Verão, aqui fica um texto publicado na edição anterior, na secção de «clássicos recuperados», Biblioteca do Nautilus. A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson (1850-1894), é um daqueles romances sem tempo e sem idade, tal como Peter Pan ou As Viagens de Gulliver, mas que se compreendem com outra amplitude depois de instalada (esperemos que não demasiado instalada) essa época designada por «maturidade. A colecção chama-se Vício dos Livros e é editada pela Civilização. Adoro a(s) capa(s). E nunca me canso de voltar a estes mares turbulentos:

A Ilha do Tesouro
«Estamos mais que nunca no espírito do jogo infantil, entre assédios, surtidas e assaltos de bandos rivais.» Em Porquê Ler os Clássicos? (Teorema), Italo Calvino não se referia à história de Jim Hawkins e do execrável bando de piratas que acompanha o seu crescimento, mas o que afirmou a propósito de outro livro pode ser aplicado, sem reservas, ao clássico A Ilha do Tesouro. É um dos títulos recuperados do catálogo da editora Civilização, com traduções revistas e design gráfico de Pedro Aires Pinto. De Anne dos Cabelos Ruivos (Lucy Maud Montgomery) a O Príncipe e o Pobre (Mark Twain), passando por O Apelo da Selva (Jack London) e As Minas de Salomão (H. Rider Haggard), os doze primeiros títulos estão já definidos.

Se há razões que explicam a qualidade perene e universal de um romance de aventuras publicado em 1883, talvez uma delas se prenda à pulsão lúdica própria do ser humano, ao seu desejo de ensaiar e repetir o jogo, instituído como um fim em si mesmo e, por isso, livre de regras e de retórica. No fundo, a pirataria. Sobre um género em voga no seu tempo, Robert Louis Stevenson aplicou o estilo de narrar enérgico e expressivo, sempre comprometido com a ação, sem maneirismos e moralismos de época. Ao mesmo tempo, divertia-se (é lícito pensá-lo) a construir personagens dotadas de tal graça e manha que não desdenharíamos conhecê-las. É reconfortante saber que boa parte delas foram inspiradas em amigos e conhecidos do próprio autor. 

Obedecendo à sua moral peculiar, Stevenson, um cavalheiro escocês que sempre gostou das más companhias, fará os possíveis para nos confundir, juntando no mesmo barco aparentes virtuosos como doutor Livesey e requintados sacanas como Long John Silver. Chegaremos a decifrá-los? Ganharemos a compreensão profunda destes personagens, das suas motivações e comportamentos? Todo o romance é um jogo de escondidas, e o pacto estabelecido com o leitor de A Ilha do Tesouro – seja adolescente curioso ou adulto nostálgico – não ficará completo sem que este se atreva a perder, porque saber perder também é uma das finalidades do jogo. Nada de grave: os derrotados dão boas histórias. 

A Ilha do Tesouro
R.L. Stevenson
Civilização Editora

domingo, 21 de junho de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 12


«Uma coisa, logo que conhecida, jamais poderá ser desconhecida. Apenas poderá ser esquecida. E, na medida em que domina o tempo, enquanto puder ser lembrada, indicará o futuro. É mais prudente, sejam quais forem as circunstâncias, esquecer, cultivar a arte de esquecer. Lembrar é defrontar o inimigo. A verdade jaz na lembrança.»

Anita Brookner, Olhem Para Mim, Teorema, 1988, tradução de Paula Reis. Originalmente publicado em 1983.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

RATING MÁXIMO


Não é um «triplo A», mas um «quádruplo A», esta segunda leva da colecção Grandes Vidas Portuguesas, uma edição conjunta da Pato Lógico/Imprensa-Nacional Casa da Moeda. Dá-se a coincidência de todos os biografados partilharem a letra A no nome com que ficaram para a História. Por ordem, na imagem: Azeredo Perdigão, primeiro presidente da Fundação Calouste Gulbenkian; Alfredo Keil, artista e compositor do hino nacional; Aristides de Sousa Mendes, o diplomata que salvou milhares de vidas do regime nazi; e Ana de Castro Osório, escritora, editora, feminista, republicana e unanimemente considerada «a mãe da literatura infantil». A colecção foi apresentada por Henrique Cayatte no passado domingo, durante a Feira do Livro de Lisboa, com a presença dos quatro escritores: António Torrado, José Jorge Letria, José Fanha e moi-même. Faltaram os ilustradores, que fizeram um trabalho primososo. Também por ordem: Susa Monteiro, Susana Carvalhinhos, Alex Gozblau e Marta Monteiro. Venham mais quatro.

domingo, 14 de junho de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 11


«Juntamos duas coisas que ainda não se tinham juntado. E o mundo transforma-se. Nesse momento as pessoas podem não dar por nada, mas não importa. De qualquer maneira, o mundo transformou-se.»

Julian Barnes, Os Níveis da Vida, Quetzal, 2013, tradução de Helena Cardoso. Originalmente publicado em 2013.

sábado, 13 de junho de 2015

VIDAS PORTUGUESAS


Azeredo Perdigão, Alfredo Keil, Aristides de Sousa Mendes e Ana de Castro Osório. Mais quatro biografias para a colecção Grandes Vidas Portuguesas (Pato Lógico/INCM) e a minha segunda parceria deste ano com a ilustradora Marta Monteiro, depois do Amores de Família (Caminho). Amanhã, 14 de Junho, os autores reunem-se na Feira do Livro (Auditório da APEL, 16h00) para um debate moderado por Henrique Cayatte. Será que as biografias ainda são importantes na formação de novos leitores? É disso que vamos falar. E é o último dia da feira. Apareçam!

sexta-feira, 5 de junho de 2015

OUTROS AMORES DE FAMÍLIA


Em Junho de 2005, chegava ao fim uma das melhores séries de televisão de sempre: Sete Palmos de Terra. Obra-prima do argumentista, produtor e realizador norte-americano Alan Ball, ao longo de cinco temporadas tratou de tudo o que há entre a vida e a morte, criando um espaço simbólico onde os mortos falavam com os vivos, sem sustos, sem surpresas, como se fosse natural conversarmos todos sobre as nossas culpas, os nossos medos e ressentimentos (e que algum alívio, às vezes, pudesse resultar dessas conversas). A história da família Fisher é também a nossa História: o antes e o depois da Guerra do Iraque, o 11 de Setembro e a antevisão dos tempos sombrios que nos esperavam, com piscadelas de olho ao colapso financeiro iminente (George é uma espécie de Cassandra) e à queda da classe média. Julgo que nas séries feitas agora, a maior parte delas versando psicopatas, não seria possível um final épico como este: Claire a conduzir o automóvel por uma longa estrada onde há luz e poeira, Claire a conduzir-nos pelos caminhos da incerteza com um sorriso de esperança, apesar de tudo. 

Dez anos volvidos sobre Sete Palmos de Terra, o Público fez um excelente trabalho jornalístico multimédia em que, entre outras abordagens, entrevistou 13 grandes fãs da série. Aceitei. Foi um privilégio. Está aqui.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

DE VOLTA À FEIRA DO LIVRO


Ainda a propósito do post de ontem, deixo a programação da Pato Lógico e Orfeu Negro (ambas no stand A42) para esta Feira do Livro de Lisboa. No último dia, a colecção Grandes Vidas Portuguesas será o pretexto de um debate com os autores António Torrado, José Jorge Letria, José Fanha e moi-même. «A importância da biografia literária na formação de novos leitores» será moderado pelo designer e ilustrador Henrique Cayatte. Dia 14 de Junho, domingo, às 16h30, no auditório da APEL. Cliquem na imagem para ler melhor.

terça-feira, 2 de junho de 2015

E VÃO OITO


No mesmo dia em que estive com a Marta Monteiro na Feira do Livro de Lisboa, para o lançamento do Amores de Família, chegava ao Stand A 42 a nossa primeira produção conjunta: a biografia de Ana de Castro Osório para a colecção Grandes Vidas Portuguesas, nascida da parceria entre a Imprensa Nacional-Casa da Moeda e a editora Pato Lógico. Não é a primeira biografia que escrevo (há outra na gaveta), mas gostei muito de pesquisar sobre a vida e a obra de uma mulher tão versátil, que deixou a sua marca na literatura infantil portuguesa e não só: foi editora de Camilo Pessanha (Clepsidra) e uma figura proeminente na luta pelos direitos das mulheres e pelo sufrágio universal. Escrevi um breve post no Verão passado, quando estava mergulhada no assunto. Por razões de calendário, o livro acabou por só sair agora, a fazer pendant (galicismo dispensável) com o Amores de Família e indo juntar-se aos outros sete que estão no lado direito do Jardim Assombrado.

domingo, 31 de maio de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 10


   «Os escritores que engendram histórias sobre outros escritores, não há quem o não saiba, arriscam-se a trazer à luz do dia a pior espécie de literatura. Inicia-se uma narrativa pela frase: "Craig esmagou o cigarro no cinzeiro e dirigiu-se à máquina de escrever", e não haverá um único editor nos Estados Unidos que sinta o desejo de ler a frase seguinte.
   Não se aflijam: garanto-vos que o que se vai seguir é uma simples narrativa de ficção, talvez um tanto insensata, acerca de um motorista de táxi, de um astro de cinema e de um psicólogo de crianças. Mas, pelo menos durante um instante, tereis de ter paciência, pois também irá aparecer em cena um escritor. Não lhe vou chamar Craig, e posso garantir-vos que não será a única pessoa sensível entre todas as personagens, mas iremos encontrá-lo ao longo desta narrativa e é preferível que contem com ele, como criatura desairosa e embaraçante, dado que assim são, quase sempre, os escritores, quer na ficção, quer na vida.»

Richard Yates, Construtores, in Onze Tipos de Solidão, Livraria Bertrand, s/ data, tradução de Bertha Lopes. Originalmente publicado em 1962.

sábado, 30 de maio de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 9


  «Sou americano, nascido em Chicago - Chicago, aquela cidade sombria -, e encaro as coisas da maneira que aprendi a fazer sozinho, em estilo livre. Vou, portanto, fazer o relato à minha maneira: o que bater primeiro, é o primeiro a entrar; às vezes uma pancada inocente, outras nem tanto. Mas o carácter de um homem é o seu destino, diz Heraclito, e no fundo não há forma de disfarçar a natureza das pancadas, nem fazendo um tratamento acústico na porta nem cobrindo os nós dos dedos com uma luva.
  Toda a gente sabe que não existe primor nem exactidão na supressão; quando se corta uma coisa, acaba-se por amputar o que está ao lado.»

Saul Bellow, As Aventuras de Augie March, Quetzal, 2010, tradução de Salvato Telles de Menezes. Originalmente publicado em 1953.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

ALICE JÁ NÃO MORA AQUI


Tinha de partilhar aqui esta fotografia, eu que não percebo nada de fotografia. Porque foi distinguida num concurso da Gulbenkian, A Terra Como um Jardim (Prémio do Júri), e sobretudo porque é da autoria de um amigo chamado Fernando Lopes dos Reis, que umas vezes tratávamos por Paulo e outras por Fernandinho (esqueçam a lógica). Não é fotógrafo profissional, não vale a pena googlar. Conheço-o desde o tempo em que comprávamos singles e LPs em vinil e tínhamos o gozo de ler e decorar as letras das canções, dando graças quando estas apareciam no interior do disco. Portanto, estão a ver os séculos... Não percebo nada de fotografia e não me atrevo a comentar a luz e o enquadramento e por aí fora, mas sei que quem olha assim para as árvores vê além do visível e é sempre isso que me interessa; é sempre isso que distingue um olhar poético de um olhar concreto e banal. Os anos vão passando e começo a reparar nas pessoas da minha geração que se salvaram da morte por suicídio, overdose e doenças várias, todas elas estúpidas e demasiado rápidas. Se me dissessem que iria escrever isto há 30 anos, diria que estavam malucos, mas os anos passam e uma pessoa aprende a dar valor a certas coisas, se não for arrogante ou autista de todo. Enfim, que grande relambório só para dizer que estou orgulhosa por ter esta foto no meu Jardim Assombrado (fica a matar, na verdade), com a devida permissão do autor: Fernando, Fernandinho, Paulo Reis, Sonic Vessel ou o que ele quiser. A foto tem um título: Alice Já Não Mora Aqui, como o filme do Martin Scorcese que todos nós vimos, os da geração do vinil. E ainda que o disfarcemos, estamos sempre à procura uns dos outros, nas nossas moradas frequentemente extraviadas, perdidas, incompletas, rasuradas. Estamos sempre à procura uns dos outros e ficamos contentes quando, por acaso, nos encontramos no abraço de uma árvore.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

CONVITE


Começa hoje a Feira do Livro de Lisboa, para durar até 14 de Junho. E é já neste primeiro fim-de-semana - domingo, 31 de Maio, às 18h30, na Praça Leya - que acontece o lançamento do Amores de Família, meu recente livro para a Caminho A apresentação será feita pela jornalista e directora da revista Pais & Filhos, Helena Gatinho, a quem muito agradeço, e lá estarei com a Marta Monteiro, autora das lindíssimas ilustrações que podem ver no convite. Se não forem à praia nem ao Estádio do Jamor, apareçam, porque a conversa vai ser boa.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

DOIS REBELDES


Quase ao mesmo tempo, a editora Relógio d'Água fez sair dois novos títulos da colecção Universos Mágicos. De Mark Twain, Viagens de Tom Sawyer (Tom Sawyer Abroad), uma das sequelas de As Aventuras de Tom Sawyer, já publicado na mesma colecção. E com uma nova tradução de Alexandre Pastor (directamente da língua sueca, incluindo algumas notas úteis), surge também Pippi das Meias Altas, de Astrid Lindgren, obra publicada originalmente em 1945 e já então motivo de controvérsia. De facto, entre as personagens femininas mais subversivas da literatura infantojuvenil, desde Alice às meninas mal comportadas dos álbuns de Babette Cole, é difícil encontrar quem manifeste tanta indiferença pelas instituições sociais, a par de um sentido elementar de justiça e liberdade individual. Uma espécie de anarquista, portanto.

terça-feira, 26 de maio de 2015

COM O TEMPO: PRÉMIO SPA/RTP 2015


Confesso que é um dos meus álbuns preferidos do catálogo Tangerina, pela inteligência com que palavras e imagens se conjugam para explicar um tema tão difícil de materializar. Com o Tempo, de Isabel Minhós Martins (texto) e Madalena Matoso (ilustração), foi o vencedor dos prémios da Sociedade Portuguesa de Autores/RTP, entre os nomeados deste ano para Melhor Livro Infantojuvenil. O Planeta Tangerina bisou com a representação de Supergigante, de Ana Pessoa (texto) e Bernardo Carvalho (ilustração), e a Orfeu Negro voltou à liça com Hoje Sinto-me, de Madalena Moniz (texto e ilustração). Parabéns a todos!

ERA UMA VEZ UM RAPAZ


«Um artista tem sempre os olhos postos na sua infância», disse Tonino Guerra (1920-2012), poeta, escritor e argumentista, numa entrevista à Pública. Já a tinha citado num post dos primórdios do Jardim Assombrado, Caminhos da Infância. Recordei-a a propósito de José Fanha e de Era Uma Vez Eu (Booksmile), um livro feito de pequenas histórias que transmitem as emoções de uma criança perante os segredos, as estranhezas e as interrogações do mundo à sua volta. Por exemplo, sentir-se protegido debaixo da mesa da sala de jantar, acreditar que a mítica carrinha itinerante da Gulbenkian pertencia a uma tal Senhora Dona Gulbenkian ou que havia (e há!) um lago cheio de plantas carnívoras lá para os lados do Largo da Luz. Se não acreditam, vão lá ver.

O lançamento de Era Uma Vez Eu é hoje, às 18h30, no Piso 7 do El Corte Inglés (Lisboa), com apresentação de Eduardo Sá.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

MEDIAÇÃO LEITORA AVANT LA LETTRE


William Wordsworth, poeta romântico inglês (1770-1850), disse em poucas palavras o que é a mediação e a promoção da leitura.

POEMAS PARA BOCAS PEQUENAS


Nos primeiros anos de vida, quando estamos ainda próximos do nosso estado de natureza animal e intuitiva, somos facilmente enfeitiçados pelo ritmo, pela melodia, pelo movimento, pelo jogo lúdico e descomprometido. A primeira ligação às palavras e à linguagem que nos «civiliza» faz-se pela voz e pelos sons circundantes que entram na barriga da mãe como numa caixa de ressonância, levantando arcos e abóbadas que sustentarão um mundo crescente de significados. Não mais a voz humana soará tão pura, tão solta, tão des-racionalizada. Vem esta deambulação regressiva a propósito de um audiolivro acabado de editar pela BOCA, o quarto da colecção Boca Júnior: Poemas para Bocas Pequenas, com música e interpretação de Margarida Mestre e António-Pedro. Começou por ser um recital de poesia para crianças dos três aos cinco anos, encenado para o Teatro Maria Matos e entretanto transposto para outros palcos, e agora materializou-se num suporte ainda mais itinerante. Pode ser ouvido em casa, no carro, no avião ou noutros lugares mais imaginativos. Mais do que um livro acompanhado de CD, é uma obra completa em que tudo dança: os textos poéticos seleccionados (e escritos, em alguns casos) por Margarida Mestre; a música interpretada por António-Pedro e um lote de músicos convidados; as ilustrações de Marta Madureira e o grafismo de Pedro Serpa; os desafios lúdico-filosóficos «para fazer» e «para pensar», no fim de cada canção (com a colaboração de Dina Mendonça); as fotografias e os vários textos de apoio que acompanham a edição. Tudo, tudo um primor. Vejam mais (e ouçam) aqui.

Amanhã, 23 de Maio, às 18h00, a BOCA convida toda a gente a assistir ao lançamento de Poemas para Bocas Pequenas no Teatro Maria Matos (Lisboa), onde no final da apresentação por Susana Menezes, João Bonifácio e moi-même acontece um mini-concerto. Para bocas pequenas e bocas grandes, claro.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

BLIMUNDA DE MAIO


Imperdível, como sempre, o último número da Blimunda, revista cultural digital da Fundação José Saramago, traz um resumo das novidades infantojuvenis que vão passar pela próxima Feira do Livro de Lisboa, entre 28 de Maio a 14 de Junho (a que se seguirá a do Porto). O texto de Andreia Brites está organizado por editoras e, no que toca à Caminho, Gato Procura-se, de Ana Saldanha, e o nosso Amores de Família são os dois livros em destaque (págs. 60-61). Atenção também ao artigo dedicado ao novo título da colecção Dois Passos e um Salto, da Planeta Tangerina: Finalmente o Verão, de Jillian Tamaki e Mariko Tamaki, uma novela gráfica crossover para leitores de estômago forte... A Blimunda pode ser lida online ou descarregada em PDF no Scribd ou no site da FJS.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

PRÓXIMAS FORMAÇÕES


Terminam hoje as inscrições para o II Encontro de Literatura para a Infância e Juventude, na Escola Superior de Educação de Lisboa, que acontece no próximo sábado. O tema é a mediação leitora (ou, dito de forma mais bonita, «Livros de Mão em Mão») e compete-me iniciar o programa logo depois da sessão de abertura, às 9h30. Está tudo aqui. Já no mês de Junho, também num sábado, na Biblioteca Municipal de Ovar, farei uma formação de seis horas no âmbito da organização da rede de Bibliotecas da CIRA - Região de Aveiro. As inscrições são gratuitas e terminam a 28 de Maio. Informações pelo telefone 256 586 478 ou biblioteca@cm-ovar.pt.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

FAMÍLIAS FUNCIONAIS




Sexta-feira, 15 de Maio, foi Dia Internacional da Família e dia de Amores de Família. Em tempo recorde, a jornalista Salomé Pinto, do Porto Canal - delegação Lisboa, fez uma óptima peça de reportagem sobre o tema, tomando o meu livro e da Marta Monteiro como enquadramento para esta ideia que defendo: uma família funcional é uma família em que há respeito, confiança, comunicação, apoio mútuo, carinho, compreensão, autonomia, liberdade e outras qualidades que compõem a palavra «amor». Entendo outras sensibilidades, mas a minha definição de família está muito, muito além do modelo clássico pai + mãe + filho(s). Família é quem nos acolhe e quem nos trata bem, ponto. Não é uma questão de crença ou descrença, mas de consciência. Nos últimos dez anos, houve um aumento de 49% de famílias monoparentais, de 276 mil para 411 mil (fonte: Pordata). Conheço várias, nenhuma tem a vida facilitada. São «menos famílias» do que as outras? Porquê? A partir do momento em que um papel é assinado? Era o que faltava, que lhes fosse também negado, por pressão social e por convenções anacrónicas, o direito de constituirem e viverem o seu próprio «amor de família». Num trabalho sério, reflectido e original, a jornalista Salomé Pinto levantou uma ponta do véu. Muito há a dizer e a pensar sobre este tema. E, sobretudo, muito há a fazer.

domingo, 17 de maio de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 8


«Um dia, já eu era velha, um homem dirigiu-se-me à entrada de um lugar público. Deu-se a conhecer e disse-me: «Conheço-a desde sempre. Toda a gente diz que você era bonita quando era nova, vim dizer-lhe que, para mim, acho-a mais bonita agora do que quando era jovem, gostava menos do seu rosto de mulher jovem do que daquele que tem agora, devastado.»

Marguerite Duras, O Amante, Difel, s/ data, tradução de Luísa Costa Gomes e Maria da Piedade Ferreira. Originalmente publicado em 1984.

sábado, 16 de maio de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 7


«Quando Genghi, o Resplandecente, o maior sedutor que jamais surpreendeu a Ásia, atingiu os cinquenta anos, deu-se conta de que tinha de começar a morrer. A sua segunda mulher, Murasaki, a princesa Violeta, que ele tanto amara através de tantas infidelidades contraditórias, precedera-o num desses Paraísos aonde vão os mortos que conquistaram algum mérito durante esta vida inconstante e difícil, e Genghi atormentava-se por não conseguir recordar exctamente o seu sorriso ou o esgar que esboçava antes de chorar.»

Marguerite Yourcenar, O Último Amor do Príncipe Genghi, in Contos Orientais, Dom Quixote, 1986, tradução de Gaetan Martins de Oliveira. Publicado originalmente em 1938.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

LIVROS PREMIADOS, 4


Com cinco importantes distinções bem explícitas na capa, quer para o texto quer para a ilustração, Sete Minutos Depois da Meia-Noite (Editorial Presença) é uma novela juvenil ilustrada, não chegando a ser exactamente uma novela gráfica. Mas as ilustrações a preto e branco de Jim Kay, na sua expressiva fantasmagoria simbólica, têm um papel relevante nesta história, e não se percebe bem por que motivo o seu nome foi arredado da capa, também na edição original inglesa (A Monster Calls). O tema é pesado, como é hábito nestes tempos a ferro e fogo: Conor O'Malley, um miúdo de 13 anos, enfrenta a morte iminente da mãe, vítima de cancro terminal, depois de o pai ter saído de casa para constituir uma nova família (mais cool) nos Estados Unidos. Há uma relação difícil com a avó materna e um cerco de bullying à sua volta, criando um reduto de solidão e revolta que passam visceralmente para o leitor, ainda que não se trate de literatura de primeira água. O estilo de Patrick Ness, que elaborou o texto a partir de uma ideia original de Siobhan Dowd, é curto e seco, com grande ênfase nos diálogos e nas imagens. Pelo meio, há histórias dentro da história, contadas pela figura do Monstro. É um bom livro para oferecer a adolescentes e pré-adolescentes (a partir dos 12 anos, talvez) que gostem de temas fortes, crus e realistas. Ou que também estejam a enfrentar os seus próprios monstros.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

LIVROS PREMIADOS, 3


Duas figuras públicas de reconhecida projecção social e política, dois irmãos, falavam numa entrevista à TSF do seu percurso profissional, a que atribuiam grande importância. «E os vossos pais, elogiavam esse trabalho?», perguntou o jornalista, a dado passo. Responde a voz feminina, num tom que nada tinha de pesaroso nem melancólico: «Não. Na nossa família sempre houve um grande pudor em manifestar sentimentos.» Desliguei o rádio, por manifesta falta de paciência. Alguns dias antes, tinha recebido pelo correio este livro de Simona Ciraolo, vencedor do Sebastian Walker Prize for Illustration 2014. É um álbum recomendado para crianças entre os três e os seis anos, sobre uma ilustre e antiga família de cactos que não gosta de «invadir o espaço dos outros»; por exemplo, dando abraços. Um dos elementos da família sai fora da linha e essa opção terá os seus efeitos. Não vou contar o fim, para não perder a graça. Quero um Abraço tem a chancela da Orfeu Negro e já se encontra por aí. 

quinta-feira, 7 de maio de 2015

FLORES MÁGICAS


Flores Mágicas (Livros Horizonte) é uma das preciosidades do ano editorial. Li algures que este livro é um tratado de mindfulness (ou «consciência plena»), termo circunscrito à área do bem-estar e do desenvolvimento pessoal. Pode ser. É um livro sobre a arte de reparar nas coisas que nos rodeiam (pessoas, flores, animais...) e prestar-lhes a devida atenção, sem necessidade de palavras. A figura infantil disfarçada de Capuchinho Vermelho é só para despistar. Aqui não há lobos bons nem lobos maus. Há um autor da ideia (Jon Arno Lawson) e um autor da ilustração (Sydney Smith). Parceria invulgar, já que os álbuns sem texto são habitualmente assinados pela mesma pessoa. Esta entrevista desvenda parte do processo e algumas páginas.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

JOÃO PEDRO MÉSSEDER EM BRAGA


À semelhança do que já aconteceu com outros autores, o Instituto de Educação da Universidade do Minho vai dedicar um dia de comunicações centradas na obra de João Pedro Mésseder, nome literário de José António Gomes. O primeiro é co-autor (com Francisco Duarte Mangas) de dois dos meus livros de cabeceira: Breviário do Sol e Breviário da Água, ambos editados pela Caminho, em 2002. O segundo é docente de literatura na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto. Foi a primeira pessoa que entrevistei nesta área, há coisa de quinze anos, quando ainda só fazia jornalismo. E também por culpa da sua imensa sabedoria e paciência (de professor?), meti-me nesta embrulhada da literatura infantojuvenil, da qual não penso livrar-me tão cedo. Gosto muito de ambos. Não consigo decidir-me.

terça-feira, 5 de maio de 2015

LIVROS PREMIADOS, 2


Também considerado o melhor livro de literatura infantojuvenil pelos prémios Newbery, atribuídos pela Associação Americana de Bibliotecas, foi agora publicado pela Booksmile a versão semificcionada da história de Ivan, um gorila macho submetido a 27 anos de cativeiro num centro comercial manhoso de autoestrada. Retirado da selva ainda bebé, Ivan foi uma espécie de brinquedo de família até ao momento em que as suas gracinhas se tornaram cansativas e a roupa de miúdo deixou de lhe servir. A família desfez-se e Ivan foi posto a render. Um clássico, no seu género. Para quem ache que estamos neste mundo para nos servirmos dos animais, a história pode ser indiferente; e basta pensar nesses 27 anos para constatar como a espécie humana consegue ser tão miseravelmente indiferente. Com a ajuda de uma reportagem da National Geographic, o caso tornou-se falado pela opinião pública, essa entidade abstracta de pulso intermitente, e Ivan encontrou um novo habitat no Jardim Zoológico de Atlanta, junto de outros gorilas, onde viveu até aos 50 anos. Katherine Applegate, escritora norte-americana que já vendeu 40 milhões de livros, conta como tudo aconteceu em O Único e Incomparável Ivan. O que não aconteceu é imaginado, mas com contenção e sem ponta de lamechice, o que é obra. Mais informação aqui.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

LIVROS PREMIADOS, 1


Talvez seja prematuro fazer desta coincidência uma tendência, mas nota-se a preocupação, por parte de algumas editoras, de traduzir em tempo útil livros de reconhecida qualidade, nomeadamente os distinguidos com prémios relevantes na área da literatura infantojuvenil. É o caso de Flora & Ulisses (Presença), uma novela juvenil que mereceu a Newbery Medal de 2014, atribuída pela American Library Association, e que também assinala o regresso de Kate DiCamillo aos nossos escaparates. Os títulos anteriores foram publicados pela Gailivro. Agora que está em preparação o próximo número da LER, aqui fica o texto publicado na edição nº 137: 

«Tal como Desperaux, protagonista do livro e do filme de animação homónimo (A Lenda de Desperaux), também Ulisses é «um herói improvável», talvez mesmo o superlativo da improbabilidade na galeria dos heróis de Kate DiCamillo: é um esquilo voador, compreende os humanos, sabe escrever à máquina e é sensível à poesia de Rilke. Quanto a Flora, nas palavras de uma mãe escritora e neurótica (parece que não há forma de evitar o cliché), «é uma criança estranha», uma céptica assumida cuja filosofia de vida se traduz no produto de decepções várias, a começar pela separação dos pais: «Não tenhas esperança. Em vez disso, observa», repete Flora para si mesma, enquanto consulta de memória o livro Podem Acontecer-te Coisas Terríveis!, um manual de sobrevivência para crianças ansiosas. Apesar de tudo, Flora tem esperança – e o leitor tem história. De amizade, de coragem e de perdão, a trilogia de valores em que se sustenta a obra de Kate DiCamillo, profundamente influenciada pela tradição do sul dos Estados Unidos. Fantasia com um pé no realismo, Flora & Ulisses é uma novela indicada para leitores pré-adolescentes. Descontando as quebras no ritmo narrativo e algumas cedências aos estereótipos, DiCamillo continua a dotar os seus personagens com a mesma estranheza inspiradora que encontrámos em Por Causa de Winn-Dixie, A Libertação do Tigre, A Lenda de Desperaux e A Odisseia de Edward Tulane, todos traduzidos em português pela Gailivro. É muito bom tê-la de volta»

domingo, 3 de maio de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 6


«Conhecêmo-lo naqueles tempos de incerteza em que o facto de cada um ser dono de si e dos seus bens nos bastava para vivermos contentes. Nenhum de nós, julgo eu, possui hoje quaisquer bens e ouço dizer que muitos perderam a vida negligentemente; mas estou certo de que os poucos que ainda vivem, não estarão tão faltos de vista que deixem passar, por entre as brumas da respeitabilidade dos jornais que lêem, as notícias sobre as várias insurreições de nativos no Arquipélago Malaio.»

Joseph Conrad, Karain: Uma Recordação, in Histórias Inquietas, Assírio & Alvim, 1986, tradução de Carlos Leite. Publicado originalmente em 1898.

sábado, 2 de maio de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 5


«Esta é a história mais triste jamais contada. Convivemos com os Ashburnham durante nove temporadas de Nauheim em extrema intimidade ou, melhor dizendo, com um relacionamento muito solto e natural e ao mesmo tempo tão chegado como uma luva à nossa mão. A minha mulher e eu conhecemos o Capitão e Mrs. Ashburnham o melhor que se pode conhecer alguém e no entanto, num outro sentido, nada sabíamos deles. Este estado de coisas, ao que creio, só é possível com ingleses, dos quais, até este dia em que me sento a reflectir sobre o que conheço deste triste caso, nunca soube absolutamente nada. Até há seis meses nunca tinha estado em Inglaterra e seguramente nunca tinha sondado o fundo de um coração inglês. Os baixios, conhecia.»

Ford Madox Ford, O Bom Soldado, Teorema, 2004, tradução de Telma Costa. Originalmente publicado em 1915.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

IRMÃO LOBO EM AVEIRO


Para a semana, a convite do Departamento de Línguas e Cultura da Universidade de Aveiro, vou falar sobre a concepção e escrita do Irmão Lobo (Planeta Tangerina), livro que está desde o ano passado em estudo nas aulas de Literatura para a Infância e Juventude, conduzidas pela professora e investigadora Ana Margarida Ramos. Não será uma conferência, mas uma espécie de «oficina de escrita pessoal» em que tentarei explicar o percurso sinuoso que vai desde a miragem de uma história até ao ansiado dia do imprimatur. Vou abrir o armário e mostrar alguns esqueletos, que é como quem diz: imagens, fotografias, rascunhos, pontas soltas. Há sempre uma grande curiosidade pela ilustração e, neste caso, falarei também do que distinguiu o processo de trabalho com o António Jorge Gonçalves. «A melhor maneira de dizer é mostrar», como alguém afirmou. Por estas aulas já passaram obras de Richard Zimler (Ilha Teresa), Afonso Cruz (Os Livros que Devoraram o meu Pai), Ana Saldanha (Para Maiores de Dezasseis) e Alice Vieira (Os Olhos de Ana Marta), entre outros títulos; e a partir daqui creio que não é preciso dizer mais nada. A não ser isto: a aula é aberta a todos os alunos e a quem quiser assistir, e realiza-se no dia 7 de Maio, às 14h30. Uma quinta-feira, na boa tradição dos lobisomens.

domingo, 26 de abril de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 4


«Se realmente estão interessados nisto, a primeira coisa que desejarão saber é o local onde nasci, o modo como passei a minha estúpida infância, a ocupação dos meus pais, o que faziam antes de eu nascer, e tudo o mais, como se se tratasse de David Copperfield. Mas eu não estou com disposição para isso, se, de facto, querem que vos conte a verdade.»

J.D. Salinger, Uma Agulha no Palheiro, Livros do Brasil, sem data, tradução de João Palma-Ferreira. Originalmente publicado em 1951.