sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

CASUAL FRIDAY


«O Pato Lógico e a Imprensa Nacional-Casa da Moeda convidam-no para a finissage da exposição sobre a colecção “Grandes Vidas Portuguesas”, dia 27 de Fevereiro, sexta-feira, pelas 18 horas, na loja-livraria da INCM, na Rua D. Filipa de Vilhena 12, em Lisboa.

Os títulos Fernando Pessoa, o Menino que era muitos Poetas, ilustrado por João Fazenda, Almada Negreiros, Viva o Almada, Pim!, por Tiago Albuquerque, Salgueiro Maia, o Homem do Tanque da Liberdade, por António Jorge Gonçalves, e Aníbal Milhais, o Herói chamado Milhões, por Nuno Saraiva, todos com textos de José Jorge Letria, estreiam a coleção que terá novos biografados brevemente.

O evento conta com a presença dos autores José Jorge Letria, Nuno Saraiva, Tiago Albuquerque e António Jorge Gonçalves, e encerra a exposição em Lisboa, patente desde finais de Dezembro, com a próxima paragem já marcada para o Porto.»

Fonte: Editora Pato Lógico.

(PS - Entre os «novos biografados» está Ana de Castro Osório, uma senhora que combateu em muitas frentes, também pela divulgação da literatura. É um dos próximos títulos desta coleção, com texto meu e ilustrações de Marta Monteiro, como contei aqui.)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

QUE LUZ ESTARIAS A LER?


Não foi propositado, mas o post de ontem tem tudo a ver com este livro que vai ser apresentado publicamente, em Lisboa: Que Luz Estarias a Ler?, de João Pedro Mésseder (texto) e Ana Biscaia (ilustração), é um testemunho e uma homenagem ao morticínio ocorrido na Faixa de Gaza, entre Julho e Agosto de 2014. As crianças mortas em cenários de guerra, transformadas em bombas suicidas e exploradas em todos os sentidos são o produto de uma psicopatia colectiva que todos os dias atinge novos limites, porque a maldade humana provém de um poço sem fundo. Ter consciência e presença é o mínimo que podemos fazer para não participar nesta barbárie. Para saber mais sobre o livro, eis aqui um bom artigo do Público e uma peça na RTP Notícias. A apresentação decorre mais logo, às 18h30, na Galeria Abysmo, com apresentação de Bruno Monteiro, investigador e ensaísta.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

THE CHILD AND THE BOOK EM AVEIRO


Para tomar nota: The Child and the Book Conference: Children's Literature - Fractures and Disruptions. De 26 a 28 de Março, a Universidade de Aveiro oferece uma excelente oportunidade de discutir questões fulcrais para a compreensão e evolução do livro para crianças, quer na perspectiva de quem o faz (escritores, ilustradores, tradutores, editores...) como de quem tem a responsabilidade de transmitir e produzir conhecimento científico sobre esta convulsiva matéria. Os temas em debate reflectem a época que atravessamos: violência, guerra, política, pobreza, desastres naturais, exílio, refugiados, racismo, religião, terrorismo, fluxos migratórios... Para quem pensa que os livros para crianças se ocupam de animais queriduchos e famílias felizes, pode parecer estranho, mas muitos livros estão aí para provar o contrário. Portugal não é um caso extremo de intolerância, mas nos Estados Unidos há largas centenas de livros proibidos em escolas e bibliotecas. Claro, é mais fácil enterrar a cabeça na areia e viver no «mundo la la la». Ana Saldanha, Richard Zimmler e Madalena Matoso (Planeta Tangerina) fazem parte do painel de comunicadores. E saúda-se o regresso a Portugal de Sandra Lee Beckett, que tivemos o gosto de ouvir na Gulbenkian, em 2009, a propósito da literatura crossover. Programa completo, biografias, inscrições e tudo o resto: aqui.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

ADEUS, PRINCESAS


Estão desde manhã a cortar os três choupos gigantes que havia na minha rua. Odeio o barulho das serras mecânicas. Odeio trabalhar em casa.

(Fotografia retirada daqui)

SEMINÁRIO SOBRE TERAPIA PELOS CONTOS


«Os contos são uma medicina», afirmou a escritora e psicanalista jungiana Clarissa Pinkola Estés, autora do best-seller Mulheres que Correm com os Lobos e presença constante no Jardim Assombrado (por exemplo, aqui, aqui e aqui). Que em Portugal alguém se tenha lembrado de a convidar para um seminário internacional parece-me um feito extraordinário; é mais ou menos como pedir à Rainha de Inglaterra que apareça para tomar um chá em nossa casa... Clarissa não virá, por razões de agenda, mas o seminário sobre o uso terapêutico dos contos, com contribuições vindas da literatura, da educação, da psicanálise, da arte-terapia e da narração oral, acontece já daqui a três semanas, em Sintra. O cenário não podia ser melhor. A organização é da Moonluza, com o apoio do IELT - Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, entre outras entidades. As inscrições para as conferências e/ou workshops podem ser feitas aqui, na modalidade de um dia (25 €) ou três dias (45 €). Como é óbvio, lá estarei!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

É ENTÃO ISTO UMA CRIANÇA?


Algumas proposições com crianças

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz

Ruy Belo, in 'Homem de Palavra[s]'

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

SAIR DA SOMBRA



Quando falei (aqui e aqui) da Marta Monteiro e deste picture book sem texto («álbum puro», se quiserem) editado em 2013 pela Pato Lógico, Sombras, estava longe de imaginar que iria fazer um livro com ela. Mas a admiração e a empatia, ultrapassando a mera avaliação estética, para a qual não tenho unhas suficientes, foram imediatas. E reincidentes. Não a conhecia pessoalmente, mas soube desde logo que haveria de fazer um livro com ela; ou, pelo menos, fazer tudo o que pudesse para que isso acontecesse. Qual é a alternativa? Pouco depois, surgiu a oportunidade de colaborarmos na biografia de Ana de Castro Osório para a colecção da Pato Lógico, que também deverá sair em breve. Logo a seguir, pus as botas à estrada e rumei ao Porto, para a convencer a ilustrar um novo picture book para a Caminho (o quinto, três anos depois do Onde Moram as Casas). Sabia que precisava de um olhar poético e delicado, mas não atmosférico nem abstracto. Queria mostrar o texto, como num filme, como numa fotografia de família. Juntas, trabalhámos (quer dizer: a Marta trabalhou, eu dei algumas ideias) na construção de cenários que ilustram - no verdadeiro sentido do termo - o quotidiano de várias famílias contemporâneas à volta do mundo; famílias muito diferentes, cujo ponto em comum será, entre outros, a valorização do amor e da ética do cuidar. Cada vez mais, temos de encontrar modelos «fora do modelo» que amparem a nossa fome de sentido, de apoio e de respeito mútuo. Porque acredito que um escritor de livros «para» crianças deve estar em sintonia com o seu tempo, também acredito muito neste livro, justamente chamado Amores de Família. Daqui a umas semanas já o poderão ver e folhear. 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

UM LIVRO NOVO A CAMINHO


Com ilustrações da maravilhosa (pessoa e ilustradora) Marta Monteiro e a chancela da Editorial Caminho, este é um livro sobre.................................................. (e mais não digo). Quase a entrar para a gráfica. Muito feliz. Stop.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

EU ESPERO... DAVIDE CALI


Cabe-lhes a palavra na conferência de abertura do colóquio É Então isto Para Crianças - Criações para a infância e a juventude, que acontece segunda e terça na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Davide Cali e Serge Bloch são os autores do indispensável Eu Espero..., o segundo livro publicado pela Bruaá no já longínquo ano de 2008 (como toda a gente é capaz de notar, o tempo acelerou-se desde então... ou fomos nós que atrasámos o passo). Não sei se David Cali se considera «um escritor que também ilustra», tal como Edward Gorey - com quem partilha a excentricidade e o bigode - mas essa é uma das perguntas que lhe quero fazer, na mesa que me cabe moderar logo a seguir. Até porque mestre Gorey, autor muito estimado neste jardim, como alguns saberão, partilha do humor nonsense e um nadinha perverso que atravessa Não Fiz os Trabalhos de Casa Porque..., acabado de publicar pela Orfeu Negro, com ilustrações de Bensamin Chaud (o mesmo de A Cantiga do Urso). É um novo título de Davide Cali a juntar-se aos que já saíram noutras editoras: Livros Horizonte, Gato na Lua, Planeta Tangerina e Bruaá. Ainda faltam umas dezenas, mas esperemos que cá cheguem. Entretanto, vale a pena ler a entrevista ao escritor e ilustrador, realizada por Pedro Miguel Silva para o Deus Me Livro.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

DESDE HOJE NAS LIVRARIAS


Um Homem e o Seu Cão é a comovente história da relação de Thomas Mann com o seu perdigueiro alemão. Desde o primeiro encontro, numa quinta, Mann conta como gradualmente começa a amar este animal inteligente, leal e cheio de energia. Durante os seus passeios diários, Mann começa a compreender e apreciar Bauschan enquanto ser vivo, testemunha o seu prazer em caçar lebres e esquilos e as suas meticulosas inspeções a pedras, galhos e folhas húmidas. Mann reflete sobre a vida interior do animal e maravilha-se com a facilidade com que ele confia totalmente em si, pondo a sua vida nas mãos do dono.

Os dois desenvolvem uma compreensão mútua com o passar do tempo, mas Mann ganha também consciência de uma divisão intransponível que os separa. E, como em todas as relações, existem momentos de tensão, frustração ou desilusão, mas que são sempre superados por uma ligação íntima, profunda e de grande amizade entre os dois.




Thomas Mann é um dos maiores romancistas do século XX. Nasceu na Alemanha, em 1875, e recebeu o Prémio Nobel em 1929. Deixou a Alemanha quando Hitler subiu ao poder, primeiro para viver na Suíça e depois nos Estados Unidos, tendo-se tornado cidadão americano em 1936. É autor de obras-primas como A Montanha Mágica, A Morte em Veneza, Os Buddenbrook e Doutor Fausto. Morreu em Zurique em 1955, aos oitenta anos.

Fonte: Bertrand

AS VOZES DELAS E DELES



Amanhã, na Fundação Calouste Gulbenkian, escolhem-se os vencedores do concurso Dá Voz à Letra, que pôs centenas de adolescentes a ler para outros ouvirem. E como é curioso constatar as diferenças entre cada um dos dez finalistas, uns mais dramáticos (elas), outros mais contidos, mas todos capazes de atingir uma fluência notável. Sei que não vou influenciar o júri, por isso deixo aqui o video da minha «favorita», Maria Matilde Anjos, de 15 anos, leitora do poema Nem Tudo é Fácil, de Cecília Meireles. A empatia com o texto é notória.

sábado, 31 de janeiro de 2015

TRÊS MINUTOS DE SABEDORIA



«Não quero exagerar, mas há uma grande diferença entre todo esse mundo de prémios, entrevistas e leituras públicas, e o mundo privado das portas fechadas, do rumor do silêncio, do "cá estamos nós outra vez", "como é que vais conseguir fazer sair essas letras?" Não se pode estar tranquilo, não se pode ter a certeza de que o vais conseguir outra vez.»

(Ian McEwan, a escrever contos e romances geniais há quatro décadas. Desculpem não traduzir o resto.)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

É ENTÃO ISTO UM LIVRO?, 1


Os livros

É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo 'eu' entre nós e nós?

Manuel António Pina, in Todas as Palavras, Assírio & Alvim, 2012

(Não me lembro do ano, mas foi no auditório da Fundação Calouste Gulbenkian que ouvi Manuel António Pina dizer que «a literatura para crianças está cheia de pessoas que não percebem nada de literatura e não percebem nada de crianças». E outra coisa que me acompanhará para o resto da vida: «Sou um homem religioso, mas não professo nenhuma religião». Dia 9 de Fevereiro, no primeiro debate que me cabe moderar (ver aqui), sei que ele estará presente - de alguma forma, na ausência de forma - quando todos tentarmos responder à pergunta 'é então isto um livro?'.)

É ENTÃO ISTO PARA CRIANÇAS?


Já falei aqui do colóquio que acontecerá na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, dias 9 e 10 de Fevereiro, comissariado pela jornalista Inês Fonseca Santos e denominado É então isto para crianças? - Criações para a Infância e a Juventude. A ideia é excelente, o programa idem. Cliquem na imagem para ler melhor (também no site da fundação e no blogue Pim!). 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

1º ENCONTRO DE LITERATURA INFANTO-JUVENIL DA LUSOFONIA


De 2 a 7 de Fevereiro, escritores, ilustradores, animadores, contadores de histórias e especialistas em literatura infantil vão trocar ideias e livros num encontro comissariado pelo escritor José Fanha e acolhido pela Fundação O Século, instituição bem conhecida por quem passa pela Av. Marginal, entre Lisboa e Cascais. A lista de participantes é grande (também lá estamos) e há que salientar a visita da escritora Ana Maria Machado, antiga presidente da Academia Brasileira de Letras e autora da citação acima reproduzida. O programa completo, ainda passível de alterações, pode ser consultado aqui. Inscrevam-se!

domingo, 25 de janeiro de 2015

O ARTISTA: UMA DEFINIÇÃO


«Encontrava-se exactamente onde tinha iniciado a viagem. E aqui ocorreu-lhe, não tendo herdeiros, ou amados, que estava sozinho. E que tinha de ser o seu próprio filho e o seu próprio pai e o seu próprio companheiro. Amar e elevar-se a si próprio como um deus se imprime contra o azul e se forma a partir do fogo.»

(Patti Smith sobre Robert Mapplethorpe, in O Mar de Coral, (não) edições. Momento de leituras de um não-lançamento, ontem, na Igreja Anglicana de Lisboa. Fotografia de Tânia Raposo)

sábado, 24 de janeiro de 2015

THE COAL BLACK SEA WAITS FOREVER



Well the coal black sea waits for me me me
The coal black sea waits forever
The waves hit the shore
Crying more more more
But the coal black sea waits forever

The tornados come up the coast they run
Hurricanes rip the sky forever
Through the weathers change
the sea remains the same
The coal black sea waits forever

There are ashes split through collective guilt
People rest at sea forever
Since they burnt you up
Collect you in a cup
For you the coal black sea has no terror

Will your ashes float like some foreign boat
or will they sink absorbed forever
Will the Atlantic Coast
have its final boast
Nothing else contained you ever

Now the coal black sea waits for me me me
The coal black sea waits forever
When I leave this joint
at some further point
The same coal black sea will it be waiting

(Lou Reed, «Cremation», do álbum Magic and Loss, 1992) 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

SETE PALMOS DE MAR


Depois do velhinho Witt (1973), publicado pela Assírio & Alvim na Colecção Rei Lagarto, eis que chega um novo livro de poesia de Patti Smith, O Mar de Coral, dedicado ao companheiro e amigo Robert Mapplethorpe, falecido em Março de 1989 (saber mais aqui). O lançamento é amanhã e o local não podia ser mais digno: a Igreja Anglicana de St. George, em Lisboa. Uma edição da (não) edições. Sim, isso mesmo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O QUE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA TEM EM COMUM COM PATTI SMITH, 2


Patti Smith explica o Cântico dos Cânticos

Deitamo-nos juntos na noite ilegal
trespassados por faíscas de prata

Talvez fôssemos sem saber nessa hora
a senha aguardada por mundos futuros
Talvez desvendássemos um centro para as rosas
e agora é de lá que partem os comboios
a decidir o curso dos impérios

Pouco importa que tenha chegado a aurora
aos bares que cumprem o horário nocturno
e o cheiro dos desinfectantes mostre
como se apagam
os vestígios do amor


José Tolentino Mendonça, in Estação Central

O QUE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA TEM EM COMUM COM PATTI SMITH, 1


«O trabalho de um artista é sempre um trabalho espiritual porque remete para a procura da verdade. A arte e a fé são matérias comuns, remetem para a procura, a interrogação e para a abertura radical ao outro. O próprio sentido de transcendência, mesmo que não explicitado, está sempre presente no trabalho do artista. Essa espécie de estaleiro da transcendência, de grande atelier da transcendência, é uma coisa que faz existir uma proximidade muito grande entre a fé e a arte.»

Conferir no post «Goddess Patti». A entrevista completa a Catarina Carvalho, publicada no Diário de Notícias, pode ser lida aqui. Fotografia de Paulo Spranger.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

ANIMAIS BESTIAIS


Com uma nova tradução do grande Tomi Ungerer em mãos, sinto-me grata por contribuir para a reabilitação de espécies animais pouco populares nos livros para crianças. A seu tempo, o polvo Emílio irá juntar-se à jibóia Crictor e ao canguru fêmea Adelaide, todos protegidos pela chancela da Kalandraka. Capas e minibiografia de Tomi Ungerer (França, 1931), um dos últimos dos moicanos, aqui mesmo

domingo, 18 de janeiro de 2015

DESMENTIDO


Entre as dezenas de livros que costumo levar para as formações está Samuel e Saltitão (Caminho), de Margaret Wild e Freya Blackwood, vencedor do prémio Kate Greenaway 2010. Ninguém lhe fica indiferente. Trata da perda e do luto de um animal de estimação, tema tanto mais difícil de partilhar quanto mais se esconde na noite de seda que envolve o nosso coração. De vez em quando surgem livros assim, capazes de cerzir as partes inconjuntas de que é feito o nosso corpo emocional. Andamos sempre à procura da linguagem que nos permita comunicar o incomunicável; e é também para isso que temos a arte e a literatura. Por isso, o que escrevi aqui, questionando a «plausível inutilidade da arte e da literatura em geral», não é só uma mentira. É uma mentira perigosa, estéril e inútil; e parte do nosso desamparo individual e colectivo advém do facto de nos tentarem convencer disso, constantemente.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

MORTALIDADE, MORALIDADE


Tenho três gatos. Já aqui escrevi sobre eles, várias vezes, e sobre animais em geral. Gosto de animais porque gosto da Natureza; não gosto de todas as pessoas, nem todas as pessoas gostam de mim, porque há demasiadas comparações e juízos nesse conjunto de forças individuais e sociais a que se chama Cultura. Refiro-me à dicotomia antropológica Natureza e Cultura, evidentemente. Mas não interessa, para o caso. Tenho três gatos (ou «eles é que me têm a mim», como dizia Agostinho da Silva) e em breve vou ter apenas dois; e quando digo «em breve» quero mesmo dizer dentro de dias ou de horas. Depende de uma decisão que parte da minhas emoções e termina na moralidade, no meu sistema de valores. É sempre assim. Todas as formas de sofrimento, físico ou psicológico (para o cérebro, a leitura é semelhante, explicam as neurociências), acabam por interrogar a nossa humanidade, a nossa consciência. Isto, se não formos uns brutos ou psicopatas. Devo prolongar a vida dele por mais alguns dias, correndo o risco de repetir o sofrimento intenso e repentino pelo qual passou? Devo partilhar a dor da perda iminente com mais alguém, sabendo que nenhum dos meus amigos tem, neste momento, uma vida fácil? Como enfrentar a provação que será devolver o seu corpo à terra e à Natureza? São questões que merecem tempo, sabendo de antemão que o «dever», o «sentir» e o «reflectir» nem sempre estão de acordo quando se trata de chegar ao inevitável: decidir.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

ALL THE CREATURES GREAT AND SMALL


«Há nos humanos um desequilíbrio congénito que se exprime numa insatisfação que não é constante mas é frequente.
Ora, não sucede isto com os animais. Se os alimentarmos, se lhes dermos abrigo, espaço e companhia, se lhes cuidarmos da saúde, se os amarmos, eles são felizes, esfusiantemente felizes, sempre. A infelicidade é a excepção na vida dos animais amados, e não, como no caso dos humanos, a regra. Isto quer dizer que nós, que partilhamos a experiência irreversível do gosto pelos animais, conseguimos por vezes trazer a felicidade absoluta a algumas criaturas deste planeta.»

("in" Ouro e Cinza, Paulo Varela Gomes, ed. Tinta-da-China)

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

SINÓNIMOS PARA A 'CRIANÇA INTERIOR'


Estamos em contagem decrescente para o colóquio que acontecerá na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, dias 9 e 10 de Fevereiro, comissariado pela jornalista Inês Fonseca Santos e denominado É então isto para crianças? - Criações para a Infância e a Juventude

Desde o colóquio Formar Leitores para Ler o Mundo, também na Gulbenkian, em 2009, não surgia nada tão estimulante. A aproximação a um tema tão vasto parte de um ângulo menos óbvio e com uma forte tónica subjectiva, posto que a questão se coloca do lado de quem pensa e faz o objecto criativo: escritores, ilustradores, músicos, coreógrafos, realizadores, editores e outros agentes, em alguns casos «agentes duplos» ou mesmo «triplos» (Afonso Cruz, João Paulo Cotrim, Regina Pessoa...). E eis então a pergunta que importa interrogar: «o que é afinal uma criação para a infância? Cria-se para ou será que o que é criado encontra naturalmente, na sua fase final e última, aquele a quem se destina?» 

Como moderadora do primeiro debate, «É então isto um livro?», onde vão estar Catarina Sobral, João Fazenda, Francisco Vaz da Silva e Davide Cali, interessa-me muito reflectir sobre os mecanismos conscientes e insconscientes que ligam o criador à coisa criada, partindo desse lugar de potencialidade pura em que tudo é possível: a infância. Tudo é possível porque tudo está no princípio, longe da morte. Atravessar esse estado de máxima confiança e máxima vulnerabilidade não é tarefa fácil; muitos sucumbem pelo caminho, construindo egos postiços que lhes hão de servir pela vida fora, no trabalho, nos casamentos, em frente ao espelho.

Leio Bachelard, Jung, Joseph Campbell, Marie-Louise von Franz, Ursula K. Le Guin, Alice Miller, Erik Erikson e outros pensadores que estudaram a «criança interior», um conceito psicológico não erudito, infelizmente degradado pela força do uso e abuso na praça pública, mas que me parece indissociável deste debate. Ando à procura de sinónimos para falar na tal «criança interior» sem arrepelar os neurónios do público nem fazer de conta que se ouvem sininhos no palco do auditório da Gulbenkian. Não é fácil, mas lá chegarei.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O AMOR SEM DONO



O mapa

aprendido num salmo sufi

Para os teus discípulos não há heresia
nem ortodoxia
Todos podem contemplar sem véus
a verdade que vem de ti

Insista o herético na sua heresia
e o ortodoxo na sua ortodoxia

O teu fiel é mercador de perfumes
em busca de essência de rosas
do amor divino
eu deambulo


José Tolentino Mendonça, in Estação Central
Fotografia de Nacho Doce (1998)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

ADEUS, DODÓ


Querido 2014: começaste mal, continuaste pior, mas acabas bem (embora todos os noticiários o desmintam). É isso que te safa. Isso e os «momentos especiais» do ano que o Facebook seleccionou aleatoriamente, admito que com extremo bom gosto. E houve mais, muitos mais, mas tu não ficaste a saber. Dos outros, nem falar. Pira-te depressinha e, já agora, põe o lixo lá fora. Não te esqueças de fechar bem o saco. Many thanks.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

DEAR PATTI


Patti Smith faz hoje 68 anos. Há um certo conforto em envelhecer com os nossos heróis, aqueles que tiveram a arte de roubar o fogo aos deuses sem se autoimolarem no altar das oferendas (Ian Curtis, Janis Joplin, Kurt Cobain, Amy Winehouse). Contrariando o aforismo grego, «morrem cedo aqueles que os deuses amam», Patti foi sempre fiel à vida e atravessou os seus tumultosos abismos com uma dignidade de princesa. Estas fotografias ilustram-no: de donzela dos infernos a velha sábia, reconhece-se aqui a inteireza de um espírito clarividente e perene, enraizado na força do rock'n'roll. Nas entranhas do dragão esconde-se uma pérola, rezam os mitos. Ela regressou para contar como foi.

Mais sobre Patti Smith n'O Jardim Assombrado: May Your Path Be Your Own, Rock'n'Roll Nigger, Goddess Patti.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

«NÃO PODE SER SÓ ISTO»


É uma pena que a entrevista ao padre e poeta José Tolentino Mendonça, conduzida pela jornalista Anabela Mota Ribeiro e publicada no Jornal de Negócios de 24 de Dezembro, não possa ser lida na íntegra urbi et orbi. Foi uma óptima companhia na viagem de comboio Lisboa-Porto e continuará depois disso. Partilho aqui alguns sublinhados:


«As nossas sociedades são extenuantes nos ritmos que pedem. É sempre para lá das margens. Perdemos o sentido dos limites. Não é só em termos do espaço, com a disseminação dos "open spaces". Também com os telemóveis, e as comunicações, estamos sempre ligados.»

«Deixámos de ter tempo para nós próprios, para a gratuitidade dos gestos. Deixámos de ter tempo para uma conversa. Em vez de ouvirmos palavras, ou frases, apenas ouvimos sílabas, rumores, que já não são nada. Isso implica uma diminuição da nossa qualidade de vida.»

«Cada vez mais um de nós tem de levantar a mão, e tem de esbracejar. Temos de ouvir os poetas quando dizem:"Não pode ser só isto". Um grande manifesto político seria dizer: "Não pode ser só isto."»

«A questão é se estamos a pensar na sobrevivência ou se estamos entretidos com a sobrevivência. Sobrevivemos para alguma coisa. A sobrevivência não é a finalidade da própria vida, é um meio para a construção de outra coisa. Vivemos para quê? É esse tipo de abertura que é necessário rasgar.»

«Também digo que o corpo é a língua materna de Deus.»

«Os distúrbios permitem-nos tomar consciência do sítio onde estamos. As crises são máquinas de consciência, de intensificar a nossa atenção aos próprios processos, àquilo que estamos a viver. Senão, caímos num automatismo muito grande.»

«Muitas vezes, o que a nossa casa precisa é que abramos a janela, em vez de estarmos exasperadamente a introduzir um novo purificador do ar. Precisamos de uma boa corrente de ar. E isso é uma metáfora para a própria vida.»

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

ESPÍRITO & REVOLUÇÃO


Duas sugestões de última hora n'O Jardim Assombrado, antes da pausa para recolhimento festivo, passe a contradição. Dois livros, duas gerações, duas autoras admiráveis: Sophia de Mello Breyner Andresen e Isabel Minhós Martins (A Fada Oriana está para Quando Eu Nasci como a minha infância está para um propósito de vida; a ambas infinitamente grata me confesso). Se A Noite de Natal (Porto Editora) significa reencontrar a protecção da Consoada e a «casa pintada de amarelo com um jardim à volta», na edição especial agora ilustrada por Jorge Nesbitt, Daqui Ninguém Passa! (Planeta Tangerina) incita-nos a avançar sem medo para 2015, depois de cingir os rins e enxugar os fígados. O trabalho de ilustração de Bernardo P. Carvalho é excepcional: Daqui Ninguém Passa! é mesmo a grande surpresa do final deste ano tramado, disseram-no mais cedo os blogues Cadeirão Voltaire, O Bicho dos Livros e Hipopótamos na Lua. «Espírito da revolução» ou «revolução do espírito», preparem-se para o melhor; nada menos do que isso. E Boas Festas (sempre)!

domingo, 21 de dezembro de 2014

SOLSTÍCIO DE INVERNO


Vieste vagante através da visão e da dor,
vieste dos meus mais escuros dias
e construíste até mim uma ponte
por sobre a culpa e a neve.

Sorridente e brandamente tu me guias,
e, sobre teu cabelo em coroa de ouro,
levas breves, leves, plumosos flocos
a morrer alegremente em primavera.


Rainer Maria Rilke, Primeiros Poemas - Advento (1898). Prefácio, selecção e tradução de Paulo Quintela, Atlântida Editora, Coimbra, 1967.

A MAIS SOLITÁRIA DAS LUTAS


«Quando se escreve temos de nos isolar dos outros, não podemos lembrar-nos de que eles existem, do que vão pensar do nosso trabalho, do que poderão dizer. Temos de ser completamente livres. Escrever tem de ser muitas vezes um acto imoral. Para o fazer é preciso ser independente e livre, e isso obriga a que de vez em quando se tenha de ir contra o social, que é o lugar da moral.»

Karl Ove Knausgard, autor de A Morte do Pai (Relógio d'Água), em entrevista a José Riço Direitinho no Ípsilon de sexta-feira.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

TRILOGIA DO INVISÍVEL


Tempus fugit. Não vou conseguir deixar um best of de 2014, mas antes de fazer as malas há que lembrar alguns (bons) livros que chegaram nas últimas semanas. Da Orfeu Negro veio O Escuro, com texto de Lemony Snicket (o mesmo de Uma Série de Desgraças) e ilustrações de Jon Klassen, admirável na sua arte de brincar com um dos nossos medos imortais. Da Kalandraka, chegou o vencedor do recente VII Prémio Internacional de Compostela para Álbuns Ilustrados, Ícaro, de Federico Delicado, narrativa de traço hiperrealista que mergulha no oniríco e na metaficção, com ecos de Franz Kafka e de Edward Hopper pairando sobre uma família-pássaro. Também próximo da temática familiar, O Regresso, da Bruaá, um álbum sem texto em que a autora, Natalia Chernysheva, evoca o sentimento nostálgico da infância recorrendo apenas à exploração das perspectivas, formas, cores e indícios olfactivos. Três livros unidos pela mesma capacidade de evocar, questionar e sugerir, como é próprio da literatura, e que por isso se recomendam a todas as idades.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

III CONCURSO LA ATREVIDA



No número 136 da revista LER, recém-chegado às bancas, escrevo sobre um projecto de amor em tempos de cólera: um concurso literário destinado a crianças e adolescentes entre os 8 e os 14 anos, sem condescendências nem pantominas, a julgar pela qualidade do júri e dos textos seleccionados. Já foram publicadas duas antologias e espera-se uma terceira. O prazo para a recepção dos originais em língua portuguesa foi prolongado até 30 de Janeiro (ver regulamento completo aqui). Excerto do meu artigo e de um texto sem paninhos quentes:

(...)

«Nesta segunda antologia, de 2014, a palavra «crise» continua presente. Outras: «escola», «trabalho», «bullying», «liberdade» e «LOL». As privações sociais e económicas atravessam muitos textos («Vida difícil», «Desapareceu o verbo trabalhar», «Uma moeda importante»), mas há abordagens mais lúdicas e fantasiosas, dotadas de humor surreal («Mundo ao contrário», «Os três porquinhos em Marte»). Há textos que impressionam pela brutalidade intrínseca dos temas («Sozinha», sobre a automutilação); e outros pela maturidade psicológica e literária, como o merecedor do segundo prémio, de amplas ressonâncias tchekovianas («A solução»). Os russos também não andam longe deste desassombrado retrato geracional («Ensaio sobre a maternidade»), de vocação contestatária e – porque não dizê-lo? – atrevida. A autora tinha então 14 anos:  

"Crescemos, uns de forma mais natural que outros, e chegamos àquela idade insuportável de cada projeto de vida, mais conhecido (sic) como a temível fase da ADOLESCÊNCIA (vale a pena salientar que sou uma dessas pestes em desenvolvimento...). Ficamos mais altos, mais sebosos, emanamos um imprestável odor pubescente, comemos que nem porcos, dormimos demais, ficamos mais idiotas do que nunca. Aqui, é a mãe que quer atirar o filho pela janela. E aqui surgem os maiores problemas: somos mais ou menos como os cães, “são mais giros quando são pequeninos”. Começamos a questionar e a ripostar tudo e algo mais, incluindo o trabalho a full-time das nossas queridas progenitoras. “Quando fores mãe, saberás”. Esperemos que isso não aconteça tão cedo."»

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

UM LOBO NA ARCÁDIA


«Poucas vezes a derrocada familiar é tratada com ternura», diz a crítica literária da revista Arcadia, que considerou Hermano Lobo um dos melhores livros editados na Colômbia em 2014. E lá está ele, incluído numa lista muitíssimo respeitável, apenas acompanhado pelo senhor Oliver Jeffers na categoria «Infantil» (leia-se «Infanto-Juvenil»). Grata ao meu tradutor para espanhol, Jerónimo Pizarro, à agência Bookoffice e aos pacientes editores Luis Rocca e Isabel Minhós Martins. Quem quiser ler o texto completo pode ver aqui, no blogue do Planeta Tangerina.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

ONDE MORAM AS CARLAS


A convite da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, de Torres Novas, fiz uma breve incursão a três escolas do Agrupamento Artur Gonçalves e do Agrupamento Manuel de Figueiredo, para rematar a leitura em sala de aula do Onde Moram as Casas. Tratando-se de alunos do 5º ano, era inevitável que o livro lhe parecesse «infantil», o que não impediu diálogos bastante animados a propósito de ideias transversais ao tema da «habitação recíproca»; e, sobretudo, de uma questão que actualmente me ocupa o espírito: mudar de casa. Do levantamento de opiniões efectuado, registei, no meu caderninho preto:

Coisas que levam a mudar de casa: 

- Estarmos fartos
- Ter vizinhos chatos
- Falta de ideias para novos livros
- Mudar de personalidade
- Conhecer alguém
- Falta de espaço
- Muito difícil de limpar
- Pouco dinheiro
- Ter mais um gato

... e coisas a ter em conta quando se muda de casa:

- Saber para onde vamos e o preço da casa
- Boa localização (por exemplo, ao pé de um supermercado)
- Um sítio onde nos sentimos bem
- Casa bonita e acolhedora
- Casa grande
- Ter um escritório para escrever
- Ter um quintal ou um jardim para nos inspirarmos
- Casa ao pé da praia
- Casa ao pé da floresta
- Casa longe da floresta, por causa dos fogos
- Casa ao pé de uma biblioteca
- Lugar tranquilo e sossegado, mas com pessoas ao pé, para o caso de desmaiar e ser preciso chamar o INEM

(Muito grata. Mais alguma sugestão?) 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

NÃO PISEM OS VULCÕES


Em 2015, a obra mais lida e traduzida da literatura francesa entra em domínio público numa série de países, incluindo Portugal. Prevê-se uma avalanche de traduções, versões e adaptações. Quantas maneiras haverá de desenhar uma ovelha?

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

BONS VÍCIOS


Aí estão os primeiros títulos de uma colecção dedicada aos clássicos, apropriadamente designada por Vício dos Livros, cuja imagem gráfica (da autoria do designer Pedro Aires Pinto) os torna, desde já, muitíssimo apetecíveis. Desconhecendo ainda as traduções, agora revistas pela editora Civilização, não é possível adiantar muito mais, a não ser isto: no mercado, encontram-se várias edições de A Ilha do Tesouro, As Aventuras de Tom Sawyer e O Apelo da Selva, mas o mesmo não se pode dizer de Anne of Green Gables (Anne dos Cabelos Ruivos), um clássico de 1908 escrito por Lucy Maud Montgomery que remete para o imaginário vitoriano dos «órfãos resilientes» como Oliver Twist ou Sara Crewe. A edição anterior de Anne of Green Gables, de 1972, foi então pacificamente traduzida por Anne e a Sua Aldeia (ver no catálogo da Biblioteca Nacional), em alusão à casa e à ilha do Canadá onde se situa a história, hoje transformado em atracção turística. Além disso, como é sabido, no imaginário tradicional os ruivos não são de confiança. Vamos ler.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

ELA TAMBÉM NÃO QUER USAR ÓCULOS


O francês Patrick Modiano, Prémio Nobel da Literatura 2014, tem pelo menos mais dois livros «para crianças», todos publicados entre 1986 e 1988. Desconhecendo-os, aplico as aspas por uma questão de cautela, já que muitos livros ditos «para crianças» encontram eco mais facilmente no leitor adulto, podendo agradar a ambos (ou não) e sem que daí advenha algum prejuízo da sua qualidade literária e artística. A ambiguidade do destinatário é uma questão complexa e nunca resolvida, portanto, passemos adiante. Serve este post para assinalar a tradução de Catherine Certitude (em português, A História de Catherine), nome invulgar para uma menina que tem o sonho bastante comum de tornar-se bailarina, mas precisa de tirar os óculos quando dança. Cria-se assim uma espécie de visão dividida da realidade, em que o mundo parece mais suave e perfeito num dos casos. Com ou sem os óculos? Não o vamos revelar aqui. O livro chega depois de amanhã às livrarias e será facilmente reconhecido pelas ilustrações de Jean-Jacques Sempé (esse mesmo, o do Menino Nicolau).

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O DUENDE IMAGINÁRIO


Desde os 13 ou 14 anos, idade em que comecei a poder comprar livros, mantive o bom hábito de rubricá-los e acrescentar a data e o local, no ensejo adolescente de afirmar uma identidade fortuita. Pergunto-me, agora, ao reencontrar essas folhas de rosto calcinadas pelo tempo: Onde estava? Com quem estava? Que emoções me acompanhavam? Que queriam dizer de mim aqueles sublinhados trémulos? Experimento uma hipótese de itinerário, de pertença, de memória pessoal, de constelações de interesses e de afinidades. Salvo-me do desaparecimento, da invisibilidade, da aterradora fragmentação do ser. Um dia, deixei de assinar os livros, acreditando que, mais tarde ou mais cedo, iria mudar de país; e talvez a minha modestíssima biblioteca fosse mais fácil de vender sem o meu nome aposto. Oh, estupidez das coisas começadas e interrompidas em nome de outras coisas que nunca acontecem! Afinal, continuo aqui. Os livros comigo, sempre fiéis, à espera. Entre nós perfilam-se anos perdidos em que não tive a coragem de os chamar meus nem de os libertar para outras mãos e outros nomes.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A EDUCAÇÃO QUE NÃO INTERESSA AOS MINISTÉRIOS


«A criança que cresce em ambientes emocionalmente inseguros, ameaçadores ou negligentes, sente uma ansiedade constante e perturbadora. Com o passar do tempo, a ansiedade adquire um caráter persecutório e a criança procura ativamente proteger-se da ameaça. Depois, consoante a idade, o temperamento e o nível de resiliência, irá fechar-se sobre si mesma ou exteriorizar essa ansiedade, que se transformará em negativismo e em perturbações comportamentais.

Os ambientes emocionalmente seguros não só constituem a base do equilíbrio emocional, como também são a força geradora do intelecto e da criatividade do ser humano, pelo que deveriam ser o primeiro e o mais importante direito fundamental da criança.»

(Educar as Emoções, de Amanda Céspedes, Editorial Presença)

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

PATOS AO MAR



Aproxima-se um fim-de-semana diluviano em Lisboa (e não é por causa destas chuvas torrenciais que nos deixam loucos), diz-nos a meteorologia da editora Pato Lógico. Sábado é dia do lançamento do livro a solo de António Jorge Gonçalves (Prémio Nacional de Ilustração 2014), Barriga da Baleia; domingo de manhã são os autores do livro de actividades Mar, Ricardo Henriques e André Letria, que convidam os mais pequenos para uma oficina de pirataria na nova loja da Orfeu Mini. Horas, locais, dress code, está tudo muito bem explicado no site do Pato, aqui e aqui

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

PRÓXIMAS FORMAÇÕES



«Seleção do Livro Infantil», já no próximo sábado, 22 de Novembro, na Biblioteca Municipal de Algés (ver aqui) e «Playoga - Livros & Histórias», no sábado seguinte, 29 de Novembro, em Sintra, no âmbito do 12º Encontro Eterna Biblioteca (aqui). Mais pormenores em breve...