quarta-feira, 4 de maio de 2016

ESCRITA E VULNERABILIDADE, 2


A vulnerabilidade encontra-se no coração da escrita, no coração da vida (já escrevi sobre o tema neste post). Quem tem medo de se mostrar/ser vulnerável corre o risco de se tornar opaco e, aos poucos, ir perdendo a sensibilidade e a linguagem. Lendo o último livro de uma das minhas «gurus» feministas, a Dra. Christiane Northrup, autora de Corpo de Mulher, Sabedoria de Mulher (Sinais de Fogo, 2000), deparei com esta passagem que resume o que gostaria de ter dito: «(...) "Vulnerabilidade não é fraqueza e trata-se de um mito profundamente perigoso. A vulnerabilidade é onde nasce a inovação, a criatividade, a mudança". Vulnerabilidade vem de um étimo latino que quer dizer ferida*. Quando estamos vulneráveis, é mais fácil ferirem-nos, mas não significa que sejamos fracas. É preciso muita força para abrir o coração outra vez... (...).


*vulneratio, onis: ferida, lesão, golpe (Dicionário de Latim-Português, Porto Editora, s/data)

sexta-feira, 29 de abril de 2016

MAIO, MÊS DO TOURO


Publicado pela primeira vez em 1936, nos Estados Unidos, A História de Ferdinando é um manifesto pacifista contra uma das mais cruéis guerras civis da primeira metade do século XX. Mais do que a história de um touro que se recusa a lutar na arena, Ferdinando é um bom exemplo de literatura para crianças enquanto reflexo do devir histórico; mau grado todas as histórias da carochinha que negam o seu poder político e subversivo (para o melhor e para o pior). Se o texto de Munro Leaf é suficientemente poético para disfarçar a contestação aberta ao conflito que dividiu a Espanha, as ilustrações de Robert Lawson sugerem pistas difíceis de negar. Registamos duas: 12 de Julho, a data mencionada no cartaz tauromáquico, coincidente com o dia do assassinato do esquerdista José del Castillo; e a figura do matador vaidoso e irascível, de bigodinho ridículo e queixo duplo, uma caricatura evidente de Francisco Franco. A História de Ferdinando tem um final feliz, contrariamente à guerra que terminou com a vitória de Franco e subsequente ditadura. Banido em Espanha e na Alemanha de Hitler, o livro dos dois autores norte-americanos foi agora publicado pela Kalandraka, como clássico intemporal que é.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

DIA NORMAL DO LIVRO


No último sábado, 23 de Abril, passei por uma livraria de centro comercial e vi uma mãe a ler para o filho. Estava sentada num sofá e lia alto em voz baixa. O miúdo, que devia ter uns dez ou onze anos, apoiava-se num dos braços, numa daquelas posições aparentemente incómodas que os leitores cultivam. O miúdo debruçava-se sobre ela e sobre o livro, e os três compunham um agregado familiar que me deixou comovida e feliz, especialmente porque era Dia Mundial do Livro. Estava quase a encaminhar-me para a secção de Saúde e Bem-Estar, não sei porquê, mas voltei atrás. Pensei tirar-lhes uma fotografia com o telemóvel, à socapa, mas seria demasiado invasivo e, ao fim e ao cabo, não mostraria nada de essencial. Afastei-me, não sem antes ter fixado aquela imagem para sempre. O livro que a mãe lia era o último do Afonso Cruz, Vamos Comprar um Poeta (Caminho). Tinha-o em casa. Li-o nesse mesmo dia e acabei por fazer parte daquela família, fazer parte do dia, fazer parte de tudo. Vou ler-vos um bocadinho:

«O poeta dizia que os versos libertam as coisas. Que quando percebemos a poesia de uma pedra, libertamos a pedra da sua "pedridade". Salvamos tudo com a beleza. Salvamos tudo com poemas. Olhamos para um ramo morto e ele floresce. Estava apenas esquecido de quem era. Temos de libertar as coisas. Isso é um grande trabalho. Sei que muitas mudanças na minha vida aconteceram graças a ele.»

É mesmo um belo livro.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

25 DE ABRIL x 25 ILUSTRAÇÕES, 5

Jorge Colombo
Henrique Cayatte

Anabela Dias

João Vaz de Carvalho
Cristina Sampaio

25 DE ABRIL x 25 ILUSTRAÇÕES, 4

André Carrilho

Inês do Carmo

Júlio Pomar

Paulo Scavullo

André Letria

25 DE ABRIL x 25 ILUSTRAÇÕES, 3

Pedro Proença
Tamara Alves

Luís Silva

Manuel San Payo

Pedro Vieira

25 DE ABRIL x 25 ILUSTRAÇÕES, 2

Maria Keil

Maria Helena Vieira da Silva

Marta Madureira

João Caetano
Rosa Feijão

25 DE ABRIL x 25 ILUSTRAÇÕES, 1

António Jorge Gonçalves


Alex Gozblau


Maria Bouza Pinto
João Fazenda
Ana Biscaia

domingo, 24 de abril de 2016

VIDA INTERIOR

“Yet it is in our idleness, in our dreams, that the submerged truth sometimes comes to the top.”(Virginia Woolf)

quarta-feira, 20 de abril de 2016

III ENCONTRO DE LITERATURA PARA A INFÂNCIA


«Com o terceiro encontro de literatura para a infância, subordinado ao tema A natureza dos/nos livros, pretende-se explorar uma dupla dimensão que aliará as características intrínsecas dos livros e da literatura às pontes que permitem que a educação ambiental e a criação literária se entrecruzem e se fortaleçam mutuamente. Deste modo, Literatura e Natureza abrem caminhos de fruição do objeto livro e de situações de leitura, de construção de conhecimento e de sensibilização ambiental.»

Programa e inscrições aqui. (Para ler na página, é só clicar na imagem)

(Fonte: Escola Superior de Educação de Lisboa.)

DIA MUNDIAL DO LIVRO JÁ COMEÇOU



«Está patente na sala de exposições da Torre do Tombo a exposição “Livros de Muitas Cores”, que pretende assinalar os vários dias mundiais ligados ao Livro.

Constituída por três núcleos (Poesia, Livro Infantil e Livro), esta exposição assinala a importância que os autores têm na cultura portuguesa, e como o livro é fundamental para a criação de mais e melhores leitores.

Encontram-se nela vários documentos à guarda da própria Torre do Tombo, com destaque para obras e documentação inédita sobre e de Camões, Vergílio Ferreira e Mário de Sá Carneiro, mas também um destaque para a obra de Matilde Rosa Araújo, para o Prémio Nacional de Ilustração e um cantinho dedicado à hora do conto para os mais novos.

Grande parte da exposição é dedicada às fotografias de escritores portugueses realizadas pela fotógrafa Luísa Ferreira em 1997 e 2000, aquando da presença de Portugal como país-tema na feira do Livro de Frankfurt e no Salão do Livro de Paris.»

(Fonte: DGLAB - Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas)

domingo, 17 de abril de 2016

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 23


«Ele acordou bem-disposto. Não havia razão para acordar de outra maneira.
Era apenas uma criança. Tinha vinte anos. Tinha mais de um metro e oitenta e pesava noventa quilos e nunca estivera doente na vida. Era o número dois da equipa de ténis e, em casa, no escritório do pai, existia uma prateleira cheia de taças que havia ganho em torneios desde os onze anos. Tinha o rosto esguio, de traços rudes, cabelo negro liso que usava um pouco comprido, o que evitava que ele parecesse um atleta. Uma vez, uma rapariga tinha-lhe dito que ele se parecia com Shelley, outra achava-o parecido com Lawrence Olivier e ele sorriu, discordando de ambas.»

Irwin Shaw, Onde Todas as Coisas Sábias e Belas Descem, in Estórias da Playboy - O Melhor de Quarenta Anos de Ficção, ed. Círculo de Leitores, 1995, tradução de Teresa Bernardes e Carlota Pracana. Originalmente publicado em 1995. 

sábado, 16 de abril de 2016

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 22


«Embora o seu pai tivesse imaginado para ele um brilhante futuro no exército, Hervé Joncour acabara por ganhar a vida com um ofício insólito, ao qual não era estranho, por singular ironia, um jeito tão amável ao ponto de revelar uma vaga entoação feminina.
Para viver, Hervé Joncour comprava e vendia bichos-da-seda.
Corria o ano de 1861. Flaubert escrevia Salammbô, a iluminação eléctrica ainda não passava de uma hipótese, e Abraham Lincoln, do outro lado do oceano, combatia uma guerra da qual nunca chegaria a ver o fim.
Hervé Joncour tinha 32 anos.
Comprava e vendia.
Bichos-da-seda.»

Alessandro Baricco, Seda, ed. Dom Quixote, 2008, tradução de Simonetta Neto. Originalmente publicado em 1996.

terça-feira, 12 de abril de 2016

FESTIVAL LITERÁRIO DA MADEIRA


«Todas as crianças do mundo devem ser concebidas como seres para ler.» É esta frase de Lídia Jorge, escritora homenageada na 6ª edição do Festival Literário da Madeira, que dá o mote para a primeira conversa de hoje. Lá estarei. Até breve! Programa completo e participantes aqui.

domingo, 10 de abril de 2016

UM AMIGO É O IRMÃO QUE ESCOLHEMOS

 
«Um amigo é como aquela árvore: vive da sua inutilidade. A nossa espiritualidade tem também de ser inútil, para ser mais do que um momento, mais do que uma necessidade, para persistir, para acolher a dança do eterno. Não é raro que a necessidade envenene a nossa relação com Deus. Ora, o amigo não é o necessário: é o eleito, o gratuito. Com razão dizemos: "Um amigo é o irmão que escolhemos." Eu escolho, eu sinto-me escolhido: trânsito do gratuito sem porquês.»

(José Tolentino Mendonça, Nenhum Caminho será Longo - Para uma teologia da amizade, ed. Paulinas, 2012.)

sexta-feira, 8 de abril de 2016

III ENCONTRO DE LITERATURA PARA A INFÂNCIA


«Com o terceiro encontro de literatura para a infância, subordinado ao tema A natureza dos/nos livros, pretende-se explorar uma dupla dimensão que aliará as características intrínsecas dos livros e da literatura às pontes que permitem que a educação ambiental e a criação literária se entrecruzem e se fortaleçam mutuamente. Deste modo, Literatura e Natureza abrem caminhos de fruição do objeto livro e de situações de leitura, de construção de conhecimento e de sensibilização ambiental.»

(Programa, cartaz, inscrições e tudo o que é preciso saber aqui.)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

MAUVAIS SANG


Prisioneiros do risco e da tragédia, os piratas cultivam uma exuberância festiva, que no caso de James Gancho se associa ao porte de grand seigneur. Filho indesejado, cativo de um passado misterioso, «revelar quem ele era de facto poria ainda hoje o país a ferro e fogo», insinua J.M. Barrie no texto original de Peter Pan. Essa identidade reprimida mostra-se nos «olhos cor de miosótis e de uma profunda melancolia», um dos seus estados de alma constantes. O próprio autor diz que «o homem não era totalmente mau», embora procedesse como um canalha a maior parte das vezes. Prepotente com a tripulação do Jolly Roger, sádico com as vítimas, capaz de mentir e enganar sem escrúpulos, Gancho é um caso evidente de personalidade anti-social. A educação no colégio interno de Eton não lhe terá feito muito bem. Afinal, talvez seja o mais perdido dos lost boys, fugindo do tic-tac do crocodilo até à hora fatal. Não choremos por ele, já que morreu como um pirata: a rir-se dos seus tormentos.

terça-feira, 29 de março de 2016

HÁ LOBOS EM NELAS


«Quando li o livro senti revolta: no momento em que a família começa a desmoronar-se senti-me revoltada pelo facto de correr tudo mal à Bolota e à sua família.» (Joana Sobral, 9º C)

«Irmão Lobo é um livro que tanto nos transmite felicidade como tristeza. É um livro "delicioso", principalmente pela maneira como a personagem principal, Bolota, e o seu pai, Alce Negro, falam entre si e vivem no seu mundo imaginário e de fantasia.» (Francisca Oliveira, 9º C)

«O pai, Alce Negro, vivia no mundo da fantasia e "ensinava" a filha a fazer o mesmo. Esta atitude fez-me reflectir, pois não sei até que ponto é correcto mostrar aos filhos que a vida é "um mar de rosas".» (Alícia Santos, 9º C)

«A meu ver, este é um livro que consegue, através de uma simplicidade e de uma inocência tremendas, fazer pensar nos problemas da vida. Gostei muito de o ler.» (Raul Sofia, 9º D)

«Senti-me cativada pela personagem Bolota, a narradora que me "obrigou" a mergulhar, do ponto de vista de uma criança, no bulício emocional da crise em que vivemos.» (Filomena Oliveira, 9º D)

«Não tenho palavras para descrever o meu sentimento ao ler este livro... Simplesmente fabuloso! Um livro que provoca, realmente, um pouco de ansiedade, esperança, alegria e até tristeza.» (Isabela Neves, 9º D)

«A meu ver, é daquelas obras que ficam para a vida. É daquelas obras que nos dá uma lição, uma lição para não imitar nem repetir.» (Raquel Costa, 9º C)

«Altamente recomendável para jovens e adultos!» (Professora Irene Santos)



(Excertos de algumas leituras interpretativas dos alunos da Escola Secundária de Nelas, que, em conjunto com os professores, desenvolveram um trabalho notável à volta do Irmão Lobo. Fiquei muito comovida por saber que o meu livro tocou tanta gente. Obrigada!)

A reportagem fotográfica da visita à escola pode ser vista aqui. As fotos são de Bruno Cardina, que também assinou o making of e alguns momentos do Concurso de Oratória - Texto puxa Palavra, realizado a 26 de Fevereiro, na Fundação Lapa do Lobo. Aqui.

sábado, 26 de março de 2016

DE PROFUNDIS


No conjunto da obra de David Almond que tem sido vertida para português, Uma Criatura Feita de Mar está mais tematicamente próximo de Que Monstros Fabricamos? (Livros Horizonte) do que O Rapaz que Nadava com as Piranhas (Presença), mas destaca-se por dois motivos: é um livro de contos, género no qual se estreou, em 1985, dirigindo-se ao público adulto; cada conto é antecedido por um texto evocativo das experiências de infância que estão subjacentes à ficção. Para os leitores habituais de Almond, algumas coisas ficarão explicadas; para quem nunca o leu, poderá ser o princípio de uma surpreendente dependência. 

Dizer que Almond escreve como ninguém é uma banalidade (mal estamos quando as imitações são evidentes), tratando-se de um autor que acumulou prémios e louvores da crítica até chegar, em 2010, ao ambicionado Prémio Hans Christian Andersen, o «Nobel da escrita para os mais novos». Contrariaram-se as vozes de Cassandra que, um dia, o advertiram: «Mas tu não passas de um miúdo vulgar. E vens da pequena e vulgar cidade de Felling. Sobre que raio irás tu escrever?» 

Precisamente: escrever sobre a pequena e vulgar cidade de Felling, no norte de Inglaterra; sobre as suas casas de tijolo vulgares, os seus habitantes vulgares, os seus dramas vulgares. No primeiro conto, «O pai do Slog», há um miúdo que vê o pai morto num visitante ocasional, um provável sem-abrigo. «A May Malone», de quem se dizia ter um filho-monstro escondido, explora o tema do preconceito e do medo das diferenças, abrindo «as portas da percepção» ao protagonista (as alusões a William Blake são assumidas). «O poltergeist do Joe Quinn» trava-se no encontro de uma mãe hippie com um padre pouco convencido do etéreo. Nunca temos a certeza do verdadeiro e do falso.

O que faz de David Almond um autor genial não é só a elegância da linguagem, profunda e fluída como um rio subterrâneo, mas a demonstração implacável de uma certa verdade que só existe na literatura: «É o que tem de estranho esta coisa de escrever histórias – inclui-se algo imaginário para tornar a coisa mais real.»   

Uma Criatura Feita de Mar
David Almond
Presença

quarta-feira, 23 de março de 2016

DEUSES E DEUSAS EM VALE DE CAMBRA


Nas últimas semanas, O Jardim Assombrado tem sofrido interrupções súbitas, algumas mais prolongadas do que outras. Que me desculpem os passeantes habituais e ocasionais, mas tenho sucumbido ao excesso de trabalho, por um lado; e aproveitado todas as oportunidades para sair de Lisboa, por outro... Foi uma maravilha a ida à Biblioteca do Centro Escolar do Búzio, em Vale de Cambra, uma pequena cidade entre Porto e Aveiro. Durante dois dias, pude conhecer dezenas das mais de 700 crianças do agrupamento (do 3º, 4º e 5º ano), que, em conjunto com os professores, desenvolveram um trabalho excelente à volta dos meus cinco livros para a Caminho, com momentos de dramatização, música, dança, cantigas, leitura, escrita, desenhos e tantas coisas que mostraram muita criatividade, originalidade e sensibilidade. Fiquei especialmente contente por  terem escolhido o Amores de Família e vestido a pele dos deuses e deusas do Olimpo, como se pode ver pelas fotos. Há mais aqui, no blogue Biblio Búzio, e também nesta reportagem fotográfica completíssima. Obrigada a todos, foi mesmo fantástico!

segunda-feira, 21 de março de 2016

OS QUATRO ELEMENTOS



Desde a publicação de O Gato de Uppsala (Sextante, 2009), Cristina Carvalho construiu um percurso literário pouco conforme às fronteiras etárias; ao mesmo tempo que conseguiu, por portas travessas, alcançar um público adolescente difícil de determinar e ainda mais de manter. Dizemos «por portas travessas» porque esse percurso se nos afigura livre de intenções e fórmulas já testadas, o que faz com que cada livro seu seja diferente dos anteriores, embora bebendo da mesma fonte. Emotiva, sinestésica, cantante, a escrita de Cristina Carvalho ganha quando sustentada por uma estrutura e coesão narrativas que dão forma a essa predisposição lírica imanente à sua originalidade enquanto autora.

Noblesse oblige, o tema da coincidência dos opostos, tão caro a Hans Christian Andersen e aos escritores românticos, sempre rondando este imaginário, manifesta-se uma vez mais em Quatro Cantos do Mundo. Se o anterior Lusco-Fusco (Porto Editora, 2011) se concentrava no mundo invisível dos seres elementais, agora o olhar surge ampliado à escala dos continentes e oceanos, tendo como protagonistas quatro verdadeiros heróis: Roald Amundsen, o conquistador dos Polos; David Livingstone, explorador da África central e austral; David Attenborough, o homem que tão bem nos comunicou a Natureza; e Jacques-Yves Cousteau, o descobridor das inquietantes paisagens submersas.

Assumindo em nota prévia a homenagem aos seus heróis, Cristina Carvalho inventou quatro contos que guardam em comum o sentido do transcendente, a exaltação da natureza, a demanda da sobrevivência e a partilha familiar e comunitária. «Vidas brancas», o primeiro, tem como personagem principal um pequeno esquimó, comedor de carne crua, que salva uma cria de foca durante a caçada. Do deserto de gelo para o sol incandescente, «A noite é o lugar mais tranquilo do mundo» é um conto enigmático e introspectivo, à semelhança do beduíno de vestes negras que o atravessa. Num registo mais documental do que os anteriores, «Casa verde» narra a vida na selva, escolhendo uma menina como protagonista. «Viajando sob o azul intenso das águas» regressa ao tom efabulatório inicial e ao diálogo entre as espécies, desta vez com um golfinho, símbolo da ligação do homem com o divino. Com as últimas palavras do conto, fecha-se o círculo da quadratura: «Agora eu estava, realmente, acordado.»

Quatro Cantos do Mundo
Cristina Carvalho
Ilustrações de Manuel San Payo
Planeta

quinta-feira, 10 de março de 2016

PRINCESAS



Toda a árvore é um microcosmos singular debruçado sobre o mundo. Dos capilares subterrâneos até ao ramo mais alto, formas transitórias de vida passam por ela buscando abrigo e alimento. Os coalas adoram eucaliptos, embora os eucaliptos não gostem de outras árvores à volta. O carvalho-comum, mais generoso, cresce rodeado pelos seus parentes próximos: o carvalho-negral, a azinheira e o sobreiro, espécies abundantes na Península Ibérica. O espírito da floresta manifesta-se também nas comunidades de sequóias, árvores que assistiram à aventura humana dos últimos três mil anos, tal como as oliveiras, os embondeiros e os cedros-do-líbano.

Nenhum de nós se lembra, mas houve um tempo em que as florestas cobriam cerca de metade da superfície da Terra, fervilhantes de vida. Chegámos ao século XXI com apenas um quinto desse património agora irrecuperável. A profecia de Macbeth cumpriu-se, mas ao contrário. Preso à obsessão de se tornar rei, Macbeth repudiou os avisos das três feiticeiras e duvidou de que algum dia a floresta de Birnan pudesse avançar sobre o castelo. Mas o inimigo camuflou-se com ramagens e escalou a colina, pondo fim à ambição. A diferença fundamental é que os soldados de outrora são coisa pouca se comparados com os atuais exércitos de serras e escavadoras mecânicas. É por isso que a flor-do-paraíso, originária de Madagáscar, vê as suas flores rubras extinguirem-se num confronto desigual, como se a própria ideia de paraíso já não fosse possível entre os homens.

Este livro é belo porque é importante – e é importante porque é belo. Significa um passeio imóvel por entre 57 árvores e arbustos de todo o mundo; uma caminhada que se faz admirando as ilustrações naturalistas de Emanuelle Tchoukriel, traçadas a rotring e aguarelas, detalhando texturas, cores e escalas. O texto de Virginie Aladjidi convoca o leitor para as múltiplas dimensões da árvore, um arquétipo de autonomia que não encontra paralelo no Mundo Animal: nasce, cresce e reproduz-se sem se mexer do seu lugar. Quando morre, é como se adormecesse em casa. Essa dignidade solitária que é comum a todas as árvores explica o conhecido aforismo: «as árvores morrem de pé». Isto, claro, se as deixarmos viver. Comecemos por tratá-las pelo nome próprio.  

Inventário das Árvores
Virginie Aladjidi
Emanuelle Tchoukriel (ilustr.)
Kalandraka

quarta-feira, 9 de março de 2016

AUGÚRIOS


«Jacinto era um bom contador de histórias. A sua voz equilibrava-se entre a serenidade e a fúria.» As primeiras três linhas de O Último Conto fazem jus a um dos títulos de Maria Gabriela Llansol, segundo a qual «o começo de um livro é precioso». Assim é também para o contador de histórias, cuja voz ressoa nas paredes míticas da casa do mundo. O seu trabalho consiste em amalgamar memórias, explicações, augúrios, sonhos e rituais. É um nómada da palavra dita. Onde quer que pare, a viagem começa.

No caso, Jacinto «gostava de contar histórias debaixo de uma árvore, apoiando a perna sobre um caixote». Os habitantes do bairro convergiam para aquele lugar, as casas inclinavam-se para o ouvir melhor. «Não conseguíamos resistir à tentação de viver, por alguns minutos, o tempo infinito da fantasia.» Ninguém acreditava que o encantamento se quebrasse, mas chegou um dia em que a voz de Jacinto deixou de se ouvir. Tinha desaparecido no olhar de alguém que escutava, e todos o viram «dar um passo em direção àquele mistério». O ar encheu-se de presságios perante o que estava para acontecer. «Permanecemos em silêncio até que o estrondo de um avião nos dispersou.»

Lançado em edição simultânea no México, Brasil e Portugal, O Último Conto é o segundo livro de Rodolfo Castro (Argentina, 1963) publicado na Gatafunho, depois de A Intenção Leitora, a Intenção Narrativa, sobre a sua experiência de contador de histórias, a viver há três anos e meio em Portugal. É um picture book com marcas de novela gráfica, em que o trabalho do ilustrador Enrique Torralba (México, 1969), com nítidas influências de Shaun Tan, nos remete para um universo onírico mas inquietantemente próximo. Um pequeno tesouro.

O Último Conto
Rodolfo Castro
Enrique Torralba (ilustr.)
Gatafunho

domingo, 6 de março de 2016

THE WOMAN WHO LOVED THINGS


A woman finally learned how to love things, so things learned
how to love her too as she pressed herself to their shining sides,
their porous surfaces. She smoothed along walls until walls
smoothed along her too, a joy, a climax, this flesh
against plaster, the sweet suck of consenting molecules.

Sensitive men and women became followers, wrapping themselves
in violet, pasting her image over their fast hearts,
pressing against walls until walls came to appreciate
differences in molecules. This became a worship.
They became a love. A church. A cult. A way of being.

But, of course, it had to be: the woman's love kept growing
until she was loved by trees and appliances, from toasters
to natural obstacles, until her ceiling shook loose to send kisses,
sheets wound tight betwixt her legs, and floorboards broke free
of their nails, straining their lengths over her sleeping.

She awoke and drove out of town alone. In love, rocks flew
through her car windows, then whole hillsides slid, loosening
with desire. Her car shatttered its shaft to embrace her,
but she ran from the wreckage, calling all the sweet things
as she waited in a field of strangely complacent daisies.

She spoke of love until losing her breath, and the things
trilled to feel that loss too, at last, sighing in thingness.
She fell down, and the things fell down around her. She cried,
«Christ!» and the things cried «Christ!» in their things-hearts
until everything living and unliving wonderfully collided.


«The woman who loved things», de Cathleen Calbert, in The Best American Poetry - 1995 

sexta-feira, 4 de março de 2016

NÁUFRAGOS


There was a king who commanded his subjects
to rebel against him,
upon penalty of death whether they obey or refused.

(Excerto do poema The Interior Prisoner, de Geoffrey O'Brien, nascido em 1948, New York. Pintura a óleo de Howard Pyle, nascido em 1856, em Wilmington, Delaware, EUA. Representa uma prática muito comum na navegação: o abandono de marinheiros amotinados em ilhas ou  bancos de areia, tendo como recursos apenas algumas provisões, um cantil de água e uma pistola carregada de pólvora para facilitar o suicídio rápido. Esta punição implacável foi designada por «marooning» . Ben Gunn, o marinheiro enlouquecido de A Ilha do Tesouro, é um dos raros casos de sobrevivência, ainda que ficcional. Actualmente, o «marooning» subsiste de formas mais subtis mas não menos insidiosas, como a privação da esperança nas gerações mais jovens ou a crença na condenação a uma vida árida e solitária.)

quinta-feira, 3 de março de 2016

NOSTALGIA



A história de O Regresso começou por um pequeno filme animado de Natalia Chernysheva, autora russa que se estreia na Bruaá em resposta ao desafio de passar as imagens para o papel. Não é primeira nem a segunda vez que a editora de Miguel Gouveia convida escritores e/ou ilustradores estrangeiros a produzirem trabalhos originais para o seu catálogo: aconteceu com Lara Hawthorne (Herberto) e Davide Cali (Arturo, A Rainha das Rãs Não Pode Molhar os Pés), por exemplo. Outras vezes, tratou-se de recuperar textos esquecidos e marginais, para depois os reinventar pela mão de ilustradores portugueses: casos de André da Loba (O Arenque Fumado) ou Gonçalo Viana (Esqueci-me Como se Chama).

Esta opção editorial não contradiz a presença de autores consagrados (Shel Silverstein, Bruno Munari, Wolf Erlbruch), nem tão pouco transformou o catálogo da Bruaá numa manta de retalhos, desde a sua promissora estreia em 2008. É antes uma declaração de princípios – de qualidade e de originalidade – que faz jus ao estatuto de «editora independente» e que valoriza a obra do autor (o autor e não o seu invólucro), independentemente da sua nacionalidade e outras baias. É por isso que uma boa parte dos livros da Bruaá revertem para a categoria do «destinatário incerto», arriscando a comunicação possível entre adultos e crianças no território das emoções e razões partilhadas.

O Regresso inscreve-se coerentemente nesta linha e explora um dos temas mais incomunicáveis: a nostalgia da infância. É um longo travelling que parte do espaço caótico da cidade em direção ao campo e ao lugar da casa mítica, a datcha onde a avó espera a neta, ao lado de uma árvore carregada maçãs vermelhas. Explorando a alteração de formas e perspectivas, planos picados e contra-picados, pormenores sinestésicos de cor aplicados na depuração das linhas a preto e branco, a autora coloca-nos diante da inequívoca felicidade do reencontro. O Regresso conduz-nos a casa, a essa mesma «casinfância» do poema de Herberto Helder: «Eu metia as mãos na água: adormecia, relembrava.» É isso mesmo.

O Regresso
Natalia Chernysheva
Bruaá