terça-feira, 31 de março de 2015

ENTRE DOIS MUNDOS


Quando só fazia jornalismo, lutava para me libertar dos constrangimentos do tempo, da linguagem e da validação alheia. Quase 25 anos depois de ter ingressado numa profissão que já viveu os seus melhores dias, e a cujo declínio é impossível não associar uma perda simultânea dos valores da democracia e da cidadania, percebo que é difícil deixar de ser jornalista, ainda que de forma enviesada. Tanto o Irmão Lobo como o Amores de Família, que está prestes a sair pela Caminho, participam dessa vontade de ser imparcial, de mostrar a realidade sem julgamentos. Mesmo na ficção, é impossível ser livre, no sentido romântico do termo. A propósito do Dia Internacional do Livro Infantil, respondi a algumas questões da jornalista Cláudia Henriques para o Notícia BAD, o jornal em linha dos profissionais da informação e da documentação portugueses. «Quantos públicos cabem num livro infantil?» está aqui, para quem quiser ler.

quinta-feira, 26 de março de 2015

PROCURA-SE UM GATO EM AVEIRO


De saída para Aveiro, a tempo de chegar à primeira sessão do seminário The Child and the Book Conference: Children's Literature - Fractures and Disruptions, vai saber bem descansar os olhos num gato, depois de discutir tantos temas fortes e inquietantes, como se pode ver pelo programa. Gato Procura-se é o último picture book de Ana Saldanha e Yara Kono, editado pela Caminho. Até breve!

terça-feira, 24 de março de 2015

CAIU UMA ÁRVORE


Entretida a escrever o último post, não me apercebi de que tinha caído a árvore mais antiga deste jardim. Há trevas por todos os cantos. Herberto Helder (1930-2015).

ALGUMAS FANTASIAS MASCULINAS


Lançada em 2013, a colecção Imagens que Contam tem algumas regras sustentáveis para a liberdade dos autores: há 32 páginas para contar uma história (incluindo guardas); há uma e só uma palavra permitida (o título); há uma recriação do logotipo da editora a cada nova obra. Com esta colecção, a Pato Lógico de André Letria (... isto como quem diz «o Real Madrid de Cristiano Ronaldo» ou «o Chelsea de Mourinho») deu mais espaço à expressão de ilustradores/autores portugueses de primeira água, para quem a categoria «ilustração» é manifestamente exígua quando se trata de explorar o fôlego narrativo e a autonomia estética. Aos livros de Marta Monteiro (Sombras), André da Loba (Bestial), Afonso Cruz (Capital) e Catarina Sobral (Vazio), juntam-se agora dois novos títulos, seguindo a mesma lógica de publicação «aos pares». De Bernardo P. Carvalho, Verdade?! é a história de um pescador e do seu cão, unidos nas feições e nas emoções provocadas por uma monstruosa tempestade; uma história que não chega a ser «trágico-marítima» graças à aparição de um iate governado por duas hot bikini babes que os devolvem a bom porto (pelo menos é o que eles contam). Das voltas do mar para os nós que apertam os sapatos e a respectiva alma, Dança, de João Fazenda, encena um contraponto entre as rotinas mentais e a pulsão vitalista que anima o acto de dançar: o diálogo faz-se, sobretudo, pelo contraste de formas e pelo jogo de cores frias e quentes, resultando no enlace simbólico do casal de dançarinos apaixonados. Dito isto, deixamos entregue à curiosidade do leitor e ao sentido de humor dos dois autores, João Fazenda e Bernardo P. Carvalho, o resto da explicação para o título deste post. Navegar é preciso, fantasiar também.

segunda-feira, 23 de março de 2015

CADA CASA A SEU DONO


A poucos dias do início da 52ª Feira do Livro de Bolonha, lembramos uma obra distinguida com uma menção honrosa na edição do ano passado, recentemente traduzida por cá: Mâos à Obra: Cada Casa a Seu Dono, de Didier Cornille, autor do texto e da ilustração. O título em português reverte para uma ideia-mestra da arquitectura (as casas são pensadas para as pessoas); enquanto o original, em francês, acentua a preocupação do seu enquadramento no meio envolvente: Toutes les Maisons sont Dans la Nature. As duas interpretações completam-se. Ao todo, são onze casas revolucionárias da arquitectura do nosso tempo, desde a holandesa Casa Schroder, de Gerrit Rietveld (1929), até à londrina casa-ateliê dos arquitectos Sarah Wigglesworth e Jeremy Till (2002). Para a edição portuguesa da Orfeu Negro, Didier Cornille acrescentou um capítulo sobre Siza Vieira e a sua Casa Beires, na Póvoa de Varzim (1976), além de outros edifícios emblemáticos. Sem máculas no que toca à unidade conceptual e à intenção informativa, Mãos à Obra: Cada Casa a seu Dono torna-se um objecto comunicante graças aos indícios de humanidade deixados pelo autor, também ele formado em design e arquitectura, e à sua valorização do «porquê das casas». Uma maravilha.

terça-feira, 17 de março de 2015

AMORES DE FAMÍLIA A NORTE


É sempre bom quando as coisas surgem sem grande esforço, movidas por uma espécie de cálculo sem calculismo que as faz, simplesmente, acontecerem. Tudo se conjugou para que o lançamento do Amores de Família, meu novo livro e da ilustradora Marta Monteiro (aqui) ocorresse a Norte, mais precisamente no Porto, no Mercado do Bom Sucesso, mesmo a fechar a programação da Primavera de Livros (cliquem na imagem para ler melhor). Ora, sendo nós duas raparigas do Norte (Matosinhos e Penafiel, respectivamente) e sendo este livro sobre famílias, parece-me naturalíssimo que a estreia aconteça com a presença em peso das ditas e sob os auspícios do Bom Sucesso. Vai ser no dia 26 de Abril, às 18h00. Com edição da Caminho, o livro está quase pronto e em Abril sairá para as livrarias. É o sétimo da família (e não ponho aspas). Um nervoso miudinho percorre os dedos no teclado; é sempre assim, como se fosse a primeira vez.

domingo, 15 de março de 2015

OFICINA DE LEITURAS PARA CRESCER


Concluídas cinco edições, terminou o (mini) Curso de Livro Infantil que orientei em parceria e a convite da Booktailors, desde 2010. Faço um balanço muito positivo do que aconteceu (umas sessões mais inspiradas do que outras, como é normal) e estou grata a quem investiu o seu tempo e dinheiro, partilhando também com o grupo os seus conhecimentos, experiências e emoções irrepetíveis. Agora é tempo de experimentar outros modelos e assumir valores mais pessoais, acreditando que «quanto mais pessoal, mais universal». Com 12 horas, o início das Oficina de Leituras para Crescer está marcado para 14 de Abril e será o primeiro projecto de 2015; outros se seguirão. Mais informações e inscrições via Blogtailors, aqui. Em síntese, eis a ideia: 

Objetivos: Explorar uma parte da produção atual da literatura infanto-juvenil, tomando como critério os livros que promovem valores de autoconhecimento e de interação confiante com o mundo. Incidiremos no caso específico do picture book (ou álbum), um território cruzado de autonomia leitora e de partilha entre adultos e crianças. Serão mostrados e trazidos a debate dezenas de títulos, de ficção e não-ficção; portugueses, traduções e originais noutras línguas.

Público-alvo: Professores, educadores, bibliotecários, estudantes, livreiros, promotores da leitura e público em geral, incluindo pais que se preocupam em fazer escolhas acertadas para os seus filhos.

Programa:
1ª sessão: Escrever para crianças também é escrever para adultos. Como sobreviver ao fantasma do duplo destinatário e alimentar uma poética da imaginação.

2ª sessão: Regressar aos contos maravilhosos em tempo de crise de valores. O contador de histórias ferido e a recuperação do sentido e da vida interior.

3ª sessão: A extraordinária invenção do picture book (ou álbum) e o seu contributo para o sistema literário. Saber ler imagens é saber ler o mundo.

4ª sessão: Os livros de não-ficção também falam ao «ouvido emocional» do leitor. Critérios de orientação por idades, temas e personalidade do leitor.

terça-feira, 10 de março de 2015

LUÍSA DUCLA SOARES REEDITADA


São cerca de 130 livros publicados desde o início da década de 1970; e uma parte está a ser agora reeditada pela Porto Editora, com novo formato e novas ilustrações. Uns Óculos para a Rita foi o primeiro a chegar (ilustrações de Rita Duque), mas o Abecedário Maluco (ilustrações de Maria Neradova) e Uma História de Dedos (ilustrações de Catarina Correia Marques) também já andam por aí. Espero que nesta leva se inclua o maravilhoso Dr. Lauro e o Dinossauro, um «clássico» dos anos 80.

segunda-feira, 9 de março de 2015

UMA BIOGRAFIA PARA OS LEITORES MAIS JOVENS


«(...) quando as nossas professoras, como a professora Ulfat na escola primária, diziam "Excelente!" ou "Muito bom trabalho, os meus parabéns!", os nossos corações voavam. Os nossos corações voam porque, quando um professor nos elogia ou aprecia o nosso trabalho, pensamos Eu sou qualquer coisa! Numa sociedade que acredita que as raparigas são fracas e incapazes de fazer seja o que for além de cozinhar e limpar, o reconhecimento de um professor faz-nos pensar Eu tenho um talento. Quando um professor nos diz que todos os grandes líderes e grandes cientistas foram, a dada altura da sua vida, também eles crianças como nós, pensamos Talvez possamos ser os grandes de amanhã. Num país em que tanta gente considera um desperdício pôr raparigas na escola, os professores são aqueles que nos ajudam a acreditar ns nossos sonhos.»

(Excerto da biografia de Malala Yousafzai, Prémio Nobel da Paz 2014, numa edição para leitores mais jovens, agora publicada pela Presença. Para todas as professoras e professores Ulfats deste mundo.)

domingo, 8 de março de 2015

GRANDES MULHERES


Depois de terminado este ciclo de destruição, egoísmo e insanidade colectiva, virá o seu contraponto, em que pessoas como Malala Yousafzai serão imprescindíveis. Quem diria que uma adolescente, quase criança, se tornaria a pessoa mais jovem de sempre a receber o Prémio Nobel da Paz? No Paquistão pobre e esquecido, Malala lutou pelo direito à educação das raparigas sob o terror do regime talibã e quase perdeu a vida. Tinha apenas dez anos. Não me digam que já não há heróis nem nada em que acreditar.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

CASUAL FRIDAY


«O Pato Lógico e a Imprensa Nacional-Casa da Moeda convidam-no para a finissage da exposição sobre a colecção “Grandes Vidas Portuguesas”, dia 27 de Fevereiro, sexta-feira, pelas 18 horas, na loja-livraria da INCM, na Rua D. Filipa de Vilhena 12, em Lisboa.

Os títulos Fernando Pessoa, o Menino que era muitos Poetas, ilustrado por João Fazenda, Almada Negreiros, Viva o Almada, Pim!, por Tiago Albuquerque, Salgueiro Maia, o Homem do Tanque da Liberdade, por António Jorge Gonçalves, e Aníbal Milhais, o Herói chamado Milhões, por Nuno Saraiva, todos com textos de José Jorge Letria, estreiam a coleção que terá novos biografados brevemente.

O evento conta com a presença dos autores José Jorge Letria, Nuno Saraiva, Tiago Albuquerque e António Jorge Gonçalves, e encerra a exposição em Lisboa, patente desde finais de Dezembro, com a próxima paragem já marcada para o Porto.»

Fonte: Editora Pato Lógico.

(PS - Entre os «novos biografados» está Ana de Castro Osório, uma senhora que combateu em muitas frentes, também pela divulgação da literatura. É um dos próximos títulos desta coleção, com texto meu e ilustrações de Marta Monteiro, como contei aqui.)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

QUE LUZ ESTARIAS A LER?


Não foi propositado, mas o post de ontem tem tudo a ver com este livro que vai ser apresentado publicamente, em Lisboa: Que Luz Estarias a Ler?, de João Pedro Mésseder (texto) e Ana Biscaia (ilustração), é um testemunho e uma homenagem ao morticínio ocorrido na Faixa de Gaza, entre Julho e Agosto de 2014. As crianças mortas em cenários de guerra, transformadas em bombas suicidas e exploradas em todos os sentidos são o produto de uma psicopatia colectiva que todos os dias atinge novos limites, porque a maldade humana provém de um poço sem fundo. Ter consciência e presença é o mínimo que podemos fazer para não participar nesta barbárie. Para saber mais sobre o livro, eis aqui um bom artigo do Público e uma peça na RTP Notícias. A apresentação decorre mais logo, às 18h30, na Galeria Abysmo, com apresentação de Bruno Monteiro, investigador e ensaísta.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

THE CHILD AND THE BOOK EM AVEIRO


Para tomar nota: The Child and the Book Conference: Children's Literature - Fractures and Disruptions. De 26 a 28 de Março, a Universidade de Aveiro oferece uma excelente oportunidade de discutir questões fulcrais para a compreensão e evolução do livro para crianças, quer na perspectiva de quem o faz (escritores, ilustradores, tradutores, editores...) como de quem tem a responsabilidade de transmitir e produzir conhecimento científico sobre esta convulsiva matéria. Os temas em debate reflectem a época que atravessamos: violência, guerra, política, pobreza, desastres naturais, exílio, refugiados, racismo, religião, terrorismo, fluxos migratórios... Para quem pensa que os livros para crianças se ocupam de animais queriduchos e famílias felizes, pode parecer estranho, mas muitos livros estão aí para provar o contrário. Portugal não é um caso extremo de intolerância, mas nos Estados Unidos há largas centenas de livros proibidos em escolas e bibliotecas. Claro, é mais fácil enterrar a cabeça na areia e viver no «mundo la la la». Ana Saldanha, Richard Zimmler e Madalena Matoso (Planeta Tangerina) fazem parte do painel de comunicadores. E saúda-se o regresso a Portugal de Sandra Lee Beckett, que tivemos o gosto de ouvir na Gulbenkian, em 2009, a propósito da literatura crossover. Programa completo, biografias, inscrições e tudo o resto: aqui.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

ADEUS, PRINCESAS


Estão desde manhã a cortar os três choupos gigantes que havia na minha rua. Odeio o barulho das serras mecânicas. Odeio trabalhar em casa.

(Fotografia retirada daqui)

SEMINÁRIO SOBRE TERAPIA PELOS CONTOS


«Os contos são uma medicina», afirmou a escritora e psicanalista jungiana Clarissa Pinkola Estés, autora do best-seller Mulheres que Correm com os Lobos e presença constante no Jardim Assombrado (por exemplo, aqui, aqui e aqui). Que em Portugal alguém se tenha lembrado de a convidar para um seminário internacional parece-me um feito extraordinário; é mais ou menos como pedir à Rainha de Inglaterra que apareça para tomar um chá em nossa casa... Clarissa não virá, por razões de agenda, mas o seminário sobre o uso terapêutico dos contos, com contribuições vindas da literatura, da educação, da psicanálise, da arte-terapia e da narração oral, acontece já daqui a três semanas, em Sintra. O cenário não podia ser melhor. A organização é da Moonluza, com o apoio do IELT - Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, entre outras entidades. As inscrições para as conferências e/ou workshops podem ser feitas aqui, na modalidade de um dia (25 €) ou três dias (45 €). Como é óbvio, lá estarei!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

É ENTÃO ISTO UMA CRIANÇA?


Algumas proposições com crianças

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz

Ruy Belo, in 'Homem de Palavra[s]'

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

SAIR DA SOMBRA



Quando falei (aqui e aqui) da Marta Monteiro e deste picture book sem texto («álbum puro», se quiserem) editado em 2013 pela Pato Lógico, Sombras, estava longe de imaginar que iria fazer um livro com ela. Mas a admiração e a empatia, ultrapassando a mera avaliação estética, para a qual não tenho unhas suficientes, foram imediatas. E reincidentes. Não a conhecia pessoalmente, mas soube desde logo que haveria de fazer um livro com ela; ou, pelo menos, fazer tudo o que pudesse para que isso acontecesse. Qual é a alternativa? Pouco depois, surgiu a oportunidade de colaborarmos na biografia de Ana de Castro Osório para a colecção da Pato Lógico, que também deverá sair em breve. Logo a seguir, pus as botas à estrada e rumei ao Porto, para a convencer a ilustrar um novo picture book para a Caminho (o quinto, três anos depois do Onde Moram as Casas). Sabia que precisava de um olhar poético e delicado, mas não atmosférico nem abstracto. Queria mostrar o texto, como num filme, como numa fotografia de família. Juntas, trabalhámos (quer dizer: a Marta trabalhou, eu dei algumas ideias) na construção de cenários que ilustram - no verdadeiro sentido do termo - o quotidiano de várias famílias contemporâneas à volta do mundo; famílias muito diferentes, cujo ponto em comum será, entre outros, a valorização do amor e da ética do cuidar. Cada vez mais, temos de encontrar modelos «fora do modelo» que amparem a nossa fome de sentido, de apoio e de respeito mútuo. Porque acredito que um escritor de livros «para» crianças deve estar em sintonia com o seu tempo, também acredito muito neste livro, justamente chamado Amores de Família. Daqui a umas semanas já o poderão ver e folhear. 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

UM LIVRO NOVO A CAMINHO


Com ilustrações da maravilhosa (pessoa e ilustradora) Marta Monteiro e a chancela da Editorial Caminho, este é um livro sobre.................................................. (e mais não digo). Quase a entrar para a gráfica. Muito feliz. Stop.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

EU ESPERO... DAVIDE CALI


Cabe-lhes a palavra na conferência de abertura do colóquio É Então isto Para Crianças - Criações para a infância e a juventude, que acontece segunda e terça na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Davide Cali e Serge Bloch são os autores do indispensável Eu Espero..., o segundo livro publicado pela Bruaá no já longínquo ano de 2008 (como toda a gente é capaz de notar, o tempo acelerou-se desde então... ou fomos nós que atrasámos o passo). Não sei se David Cali se considera «um escritor que também ilustra», tal como Edward Gorey - com quem partilha a excentricidade e o bigode - mas essa é uma das perguntas que lhe quero fazer, na mesa que me cabe moderar logo a seguir. Até porque mestre Gorey, autor muito estimado neste jardim, como alguns saberão, partilha do humor nonsense e um nadinha perverso que atravessa Não Fiz os Trabalhos de Casa Porque..., acabado de publicar pela Orfeu Negro, com ilustrações de Bensamin Chaud (o mesmo de A Cantiga do Urso). É um novo título de Davide Cali a juntar-se aos que já saíram noutras editoras: Livros Horizonte, Gato na Lua, Planeta Tangerina e Bruaá. Ainda faltam umas dezenas, mas esperemos que cá cheguem. Entretanto, vale a pena ler a entrevista ao escritor e ilustrador, realizada por Pedro Miguel Silva para o Deus Me Livro.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

DESDE HOJE NAS LIVRARIAS


Um Homem e o Seu Cão é a comovente história da relação de Thomas Mann com o seu perdigueiro alemão. Desde o primeiro encontro, numa quinta, Mann conta como gradualmente começa a amar este animal inteligente, leal e cheio de energia. Durante os seus passeios diários, Mann começa a compreender e apreciar Bauschan enquanto ser vivo, testemunha o seu prazer em caçar lebres e esquilos e as suas meticulosas inspeções a pedras, galhos e folhas húmidas. Mann reflete sobre a vida interior do animal e maravilha-se com a facilidade com que ele confia totalmente em si, pondo a sua vida nas mãos do dono.

Os dois desenvolvem uma compreensão mútua com o passar do tempo, mas Mann ganha também consciência de uma divisão intransponível que os separa. E, como em todas as relações, existem momentos de tensão, frustração ou desilusão, mas que são sempre superados por uma ligação íntima, profunda e de grande amizade entre os dois.




Thomas Mann é um dos maiores romancistas do século XX. Nasceu na Alemanha, em 1875, e recebeu o Prémio Nobel em 1929. Deixou a Alemanha quando Hitler subiu ao poder, primeiro para viver na Suíça e depois nos Estados Unidos, tendo-se tornado cidadão americano em 1936. É autor de obras-primas como A Montanha Mágica, A Morte em Veneza, Os Buddenbrook e Doutor Fausto. Morreu em Zurique em 1955, aos oitenta anos.

Fonte: Bertrand

AS VOZES DELAS E DELES



Amanhã, na Fundação Calouste Gulbenkian, escolhem-se os vencedores do concurso Dá Voz à Letra, que pôs centenas de adolescentes a ler para outros ouvirem. E como é curioso constatar as diferenças entre cada um dos dez finalistas, uns mais dramáticos (elas), outros mais contidos, mas todos capazes de atingir uma fluência notável. Sei que não vou influenciar o júri, por isso deixo aqui o video da minha «favorita», Maria Matilde Anjos, de 15 anos, leitora do poema Nem Tudo é Fácil, de Cecília Meireles. A empatia com o texto é notória.

sábado, 31 de janeiro de 2015

TRÊS MINUTOS DE SABEDORIA



«Não quero exagerar, mas há uma grande diferença entre todo esse mundo de prémios, entrevistas e leituras públicas, e o mundo privado das portas fechadas, do rumor do silêncio, do "cá estamos nós outra vez", "como é que vais conseguir fazer sair essas letras?" Não se pode estar tranquilo, não se pode ter a certeza de que o vais conseguir outra vez.»

(Ian McEwan, a escrever contos e romances geniais há quatro décadas. Desculpem não traduzir o resto.)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

É ENTÃO ISTO UM LIVRO?, 1


Os livros

É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo 'eu' entre nós e nós?

Manuel António Pina, in Todas as Palavras, Assírio & Alvim, 2012

(Não me lembro do ano, mas foi no auditório da Fundação Calouste Gulbenkian que ouvi Manuel António Pina dizer que «a literatura para crianças está cheia de pessoas que não percebem nada de literatura e não percebem nada de crianças». E outra coisa que me acompanhará para o resto da vida: «Sou um homem religioso, mas não professo nenhuma religião». Dia 9 de Fevereiro, no primeiro debate que me cabe moderar (ver aqui), sei que ele estará presente - de alguma forma, na ausência de forma - quando todos tentarmos responder à pergunta 'é então isto um livro?'.)

É ENTÃO ISTO PARA CRIANÇAS?


Já falei aqui do colóquio que acontecerá na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, dias 9 e 10 de Fevereiro, comissariado pela jornalista Inês Fonseca Santos e denominado É então isto para crianças? - Criações para a Infância e a Juventude. A ideia é excelente, o programa idem. Cliquem na imagem para ler melhor (também no site da fundação e no blogue Pim!). 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

1º ENCONTRO DE LITERATURA INFANTO-JUVENIL DA LUSOFONIA


De 2 a 7 de Fevereiro, escritores, ilustradores, animadores, contadores de histórias e especialistas em literatura infantil vão trocar ideias e livros num encontro comissariado pelo escritor José Fanha e acolhido pela Fundação O Século, instituição bem conhecida por quem passa pela Av. Marginal, entre Lisboa e Cascais. A lista de participantes é grande (também lá estamos) e há que salientar a visita da escritora Ana Maria Machado, antiga presidente da Academia Brasileira de Letras e autora da citação acima reproduzida. O programa completo, ainda passível de alterações, pode ser consultado aqui. Inscrevam-se!

domingo, 25 de janeiro de 2015

O ARTISTA: UMA DEFINIÇÃO


«Encontrava-se exactamente onde tinha iniciado a viagem. E aqui ocorreu-lhe, não tendo herdeiros, ou amados, que estava sozinho. E que tinha de ser o seu próprio filho e o seu próprio pai e o seu próprio companheiro. Amar e elevar-se a si próprio como um deus se imprime contra o azul e se forma a partir do fogo.»

(Patti Smith sobre Robert Mapplethorpe, in O Mar de Coral, (não) edições. Momento de leituras de um não-lançamento, ontem, na Igreja Anglicana de Lisboa. Fotografia de Tânia Raposo)

sábado, 24 de janeiro de 2015

THE COAL BLACK SEA WAITS FOREVER



Well the coal black sea waits for me me me
The coal black sea waits forever
The waves hit the shore
Crying more more more
But the coal black sea waits forever

The tornados come up the coast they run
Hurricanes rip the sky forever
Through the weathers change
the sea remains the same
The coal black sea waits forever

There are ashes split through collective guilt
People rest at sea forever
Since they burnt you up
Collect you in a cup
For you the coal black sea has no terror

Will your ashes float like some foreign boat
or will they sink absorbed forever
Will the Atlantic Coast
have its final boast
Nothing else contained you ever

Now the coal black sea waits for me me me
The coal black sea waits forever
When I leave this joint
at some further point
The same coal black sea will it be waiting

(Lou Reed, «Cremation», do álbum Magic and Loss, 1992) 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

SETE PALMOS DE MAR


Depois do velhinho Witt (1973), publicado pela Assírio & Alvim na Colecção Rei Lagarto, eis que chega um novo livro de poesia de Patti Smith, O Mar de Coral, dedicado ao companheiro e amigo Robert Mapplethorpe, falecido em Março de 1989 (saber mais aqui). O lançamento é amanhã e o local não podia ser mais digno: a Igreja Anglicana de St. George, em Lisboa. Uma edição da (não) edições. Sim, isso mesmo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O QUE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA TEM EM COMUM COM PATTI SMITH, 2


Patti Smith explica o Cântico dos Cânticos

Deitamo-nos juntos na noite ilegal
trespassados por faíscas de prata

Talvez fôssemos sem saber nessa hora
a senha aguardada por mundos futuros
Talvez desvendássemos um centro para as rosas
e agora é de lá que partem os comboios
a decidir o curso dos impérios

Pouco importa que tenha chegado a aurora
aos bares que cumprem o horário nocturno
e o cheiro dos desinfectantes mostre
como se apagam
os vestígios do amor


José Tolentino Mendonça, in Estação Central

O QUE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA TEM EM COMUM COM PATTI SMITH, 1


«O trabalho de um artista é sempre um trabalho espiritual porque remete para a procura da verdade. A arte e a fé são matérias comuns, remetem para a procura, a interrogação e para a abertura radical ao outro. O próprio sentido de transcendência, mesmo que não explicitado, está sempre presente no trabalho do artista. Essa espécie de estaleiro da transcendência, de grande atelier da transcendência, é uma coisa que faz existir uma proximidade muito grande entre a fé e a arte.»

Conferir no post «Goddess Patti». A entrevista completa a Catarina Carvalho, publicada no Diário de Notícias, pode ser lida aqui. Fotografia de Paulo Spranger.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

ANIMAIS BESTIAIS


Com uma nova tradução do grande Tomi Ungerer em mãos, sinto-me grata por contribuir para a reabilitação de espécies animais pouco populares nos livros para crianças. A seu tempo, o polvo Emílio irá juntar-se à jibóia Crictor e ao canguru fêmea Adelaide, todos protegidos pela chancela da Kalandraka. Capas e minibiografia de Tomi Ungerer (França, 1931), um dos últimos dos moicanos, aqui mesmo

domingo, 18 de janeiro de 2015

DESMENTIDO


Entre as dezenas de livros que costumo levar para as formações está Samuel e Saltitão (Caminho), de Margaret Wild e Freya Blackwood, vencedor do prémio Kate Greenaway 2010. Ninguém lhe fica indiferente. Trata da perda e do luto de um animal de estimação, tema tanto mais difícil de partilhar quanto mais se esconde na noite de seda que envolve o nosso coração. De vez em quando surgem livros assim, capazes de cerzir as partes inconjuntas de que é feito o nosso corpo emocional. Andamos sempre à procura da linguagem que nos permita comunicar o incomunicável; e é também para isso que temos a arte e a literatura. Por isso, o que escrevi aqui, questionando a «plausível inutilidade da arte e da literatura em geral», não é só uma mentira. É uma mentira perigosa, estéril e inútil; e parte do nosso desamparo individual e colectivo advém do facto de nos tentarem convencer disso, constantemente.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

MORTALIDADE, MORALIDADE


Tenho três gatos. Já aqui escrevi sobre eles, várias vezes, e sobre animais em geral. Gosto de animais porque gosto da Natureza; não gosto de todas as pessoas, nem todas as pessoas gostam de mim, porque há demasiadas comparações e juízos nesse conjunto de forças individuais e sociais a que se chama Cultura. Refiro-me à dicotomia antropológica Natureza e Cultura, evidentemente. Mas não interessa, para o caso. Tenho três gatos (ou «eles é que me têm a mim», como dizia Agostinho da Silva) e em breve vou ter apenas dois; e quando digo «em breve» quero mesmo dizer dentro de dias ou de horas. Depende de uma decisão que parte da minhas emoções e termina na moralidade, no meu sistema de valores. É sempre assim. Todas as formas de sofrimento, físico ou psicológico (para o cérebro, a leitura é semelhante, explicam as neurociências), acabam por interrogar a nossa humanidade, a nossa consciência. Isto, se não formos uns brutos ou psicopatas. Devo prolongar a vida dele por mais alguns dias, correndo o risco de repetir o sofrimento intenso e repentino pelo qual passou? Devo partilhar a dor da perda iminente com mais alguém, sabendo que nenhum dos meus amigos tem, neste momento, uma vida fácil? Como enfrentar a provação que será devolver o seu corpo à terra e à Natureza? São questões que merecem tempo, sabendo de antemão que o «dever», o «sentir» e o «reflectir» nem sempre estão de acordo quando se trata de chegar ao inevitável: decidir.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

ALL THE CREATURES GREAT AND SMALL


«Há nos humanos um desequilíbrio congénito que se exprime numa insatisfação que não é constante mas é frequente.
Ora, não sucede isto com os animais. Se os alimentarmos, se lhes dermos abrigo, espaço e companhia, se lhes cuidarmos da saúde, se os amarmos, eles são felizes, esfusiantemente felizes, sempre. A infelicidade é a excepção na vida dos animais amados, e não, como no caso dos humanos, a regra. Isto quer dizer que nós, que partilhamos a experiência irreversível do gosto pelos animais, conseguimos por vezes trazer a felicidade absoluta a algumas criaturas deste planeta.»

("in" Ouro e Cinza, Paulo Varela Gomes, ed. Tinta-da-China)

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

SINÓNIMOS PARA A 'CRIANÇA INTERIOR'


Estamos em contagem decrescente para o colóquio que acontecerá na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, dias 9 e 10 de Fevereiro, comissariado pela jornalista Inês Fonseca Santos e denominado É então isto para crianças? - Criações para a Infância e a Juventude

Desde o colóquio Formar Leitores para Ler o Mundo, também na Gulbenkian, em 2009, não surgia nada tão estimulante. A aproximação a um tema tão vasto parte de um ângulo menos óbvio e com uma forte tónica subjectiva, posto que a questão se coloca do lado de quem pensa e faz o objecto criativo: escritores, ilustradores, músicos, coreógrafos, realizadores, editores e outros agentes, em alguns casos «agentes duplos» ou mesmo «triplos» (Afonso Cruz, João Paulo Cotrim, Regina Pessoa...). E eis então a pergunta que importa interrogar: «o que é afinal uma criação para a infância? Cria-se para ou será que o que é criado encontra naturalmente, na sua fase final e última, aquele a quem se destina?» 

Como moderadora do primeiro debate, «É então isto um livro?», onde vão estar Catarina Sobral, João Fazenda, Francisco Vaz da Silva e Davide Cali, interessa-me muito reflectir sobre os mecanismos conscientes e insconscientes que ligam o criador à coisa criada, partindo desse lugar de potencialidade pura em que tudo é possível: a infância. Tudo é possível porque tudo está no princípio, longe da morte. Atravessar esse estado de máxima confiança e máxima vulnerabilidade não é tarefa fácil; muitos sucumbem pelo caminho, construindo egos postiços que lhes hão de servir pela vida fora, no trabalho, nos casamentos, em frente ao espelho.

Leio Bachelard, Jung, Joseph Campbell, Marie-Louise von Franz, Ursula K. Le Guin, Alice Miller, Erik Erikson e outros pensadores que estudaram a «criança interior», um conceito psicológico não erudito, infelizmente degradado pela força do uso e abuso na praça pública, mas que me parece indissociável deste debate. Ando à procura de sinónimos para falar na tal «criança interior» sem arrepelar os neurónios do público nem fazer de conta que se ouvem sininhos no palco do auditório da Gulbenkian. Não é fácil, mas lá chegarei.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O AMOR SEM DONO



O mapa

aprendido num salmo sufi

Para os teus discípulos não há heresia
nem ortodoxia
Todos podem contemplar sem véus
a verdade que vem de ti

Insista o herético na sua heresia
e o ortodoxo na sua ortodoxia

O teu fiel é mercador de perfumes
em busca de essência de rosas
do amor divino
eu deambulo


José Tolentino Mendonça, in Estação Central
Fotografia de Nacho Doce (1998)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

ADEUS, DODÓ


Querido 2014: começaste mal, continuaste pior, mas acabas bem (embora todos os noticiários o desmintam). É isso que te safa. Isso e os «momentos especiais» do ano que o Facebook seleccionou aleatoriamente, admito que com extremo bom gosto. E houve mais, muitos mais, mas tu não ficaste a saber. Dos outros, nem falar. Pira-te depressinha e, já agora, põe o lixo lá fora. Não te esqueças de fechar bem o saco. Many thanks.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

DEAR PATTI


Patti Smith faz hoje 68 anos. Há um certo conforto em envelhecer com os nossos heróis, aqueles que tiveram a arte de roubar o fogo aos deuses sem se autoimolarem no altar das oferendas (Ian Curtis, Janis Joplin, Kurt Cobain, Amy Winehouse). Contrariando o aforismo grego, «morrem cedo aqueles que os deuses amam», Patti foi sempre fiel à vida e atravessou os seus tumultosos abismos com uma dignidade de princesa. Estas fotografias ilustram-no: de donzela dos infernos a velha sábia, reconhece-se aqui a inteireza de um espírito clarividente e perene, enraizado na força do rock'n'roll. Nas entranhas do dragão esconde-se uma pérola, rezam os mitos. Ela regressou para contar como foi.

Mais sobre Patti Smith n'O Jardim Assombrado: May Your Path Be Your Own, Rock'n'Roll Nigger, Goddess Patti.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

«NÃO PODE SER SÓ ISTO»


É uma pena que a entrevista ao padre e poeta José Tolentino Mendonça, conduzida pela jornalista Anabela Mota Ribeiro e publicada no Jornal de Negócios de 24 de Dezembro, não possa ser lida na íntegra urbi et orbi. Foi uma óptima companhia na viagem de comboio Lisboa-Porto e continuará depois disso. Partilho aqui alguns sublinhados:


«As nossas sociedades são extenuantes nos ritmos que pedem. É sempre para lá das margens. Perdemos o sentido dos limites. Não é só em termos do espaço, com a disseminação dos "open spaces". Também com os telemóveis, e as comunicações, estamos sempre ligados.»

«Deixámos de ter tempo para nós próprios, para a gratuitidade dos gestos. Deixámos de ter tempo para uma conversa. Em vez de ouvirmos palavras, ou frases, apenas ouvimos sílabas, rumores, que já não são nada. Isso implica uma diminuição da nossa qualidade de vida.»

«Cada vez mais um de nós tem de levantar a mão, e tem de esbracejar. Temos de ouvir os poetas quando dizem:"Não pode ser só isto". Um grande manifesto político seria dizer: "Não pode ser só isto."»

«A questão é se estamos a pensar na sobrevivência ou se estamos entretidos com a sobrevivência. Sobrevivemos para alguma coisa. A sobrevivência não é a finalidade da própria vida, é um meio para a construção de outra coisa. Vivemos para quê? É esse tipo de abertura que é necessário rasgar.»

«Também digo que o corpo é a língua materna de Deus.»

«Os distúrbios permitem-nos tomar consciência do sítio onde estamos. As crises são máquinas de consciência, de intensificar a nossa atenção aos próprios processos, àquilo que estamos a viver. Senão, caímos num automatismo muito grande.»

«Muitas vezes, o que a nossa casa precisa é que abramos a janela, em vez de estarmos exasperadamente a introduzir um novo purificador do ar. Precisamos de uma boa corrente de ar. E isso é uma metáfora para a própria vida.»

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

ESPÍRITO & REVOLUÇÃO


Duas sugestões de última hora n'O Jardim Assombrado, antes da pausa para recolhimento festivo, passe a contradição. Dois livros, duas gerações, duas autoras admiráveis: Sophia de Mello Breyner Andresen e Isabel Minhós Martins (A Fada Oriana está para Quando Eu Nasci como a minha infância está para um propósito de vida; a ambas infinitamente grata me confesso). Se A Noite de Natal (Porto Editora) significa reencontrar a protecção da Consoada e a «casa pintada de amarelo com um jardim à volta», na edição especial agora ilustrada por Jorge Nesbitt, Daqui Ninguém Passa! (Planeta Tangerina) incita-nos a avançar sem medo para 2015, depois de cingir os rins e enxugar os fígados. O trabalho de ilustração de Bernardo P. Carvalho é excepcional: Daqui Ninguém Passa! é mesmo a grande surpresa do final deste ano tramado, disseram-no mais cedo os blogues Cadeirão Voltaire, O Bicho dos Livros e Hipopótamos na Lua. «Espírito da revolução» ou «revolução do espírito», preparem-se para o melhor; nada menos do que isso. E Boas Festas (sempre)!

domingo, 21 de dezembro de 2014

SOLSTÍCIO DE INVERNO


Vieste vagante através da visão e da dor,
vieste dos meus mais escuros dias
e construíste até mim uma ponte
por sobre a culpa e a neve.

Sorridente e brandamente tu me guias,
e, sobre teu cabelo em coroa de ouro,
levas breves, leves, plumosos flocos
a morrer alegremente em primavera.


Rainer Maria Rilke, Primeiros Poemas - Advento (1898). Prefácio, selecção e tradução de Paulo Quintela, Atlântida Editora, Coimbra, 1967.

A MAIS SOLITÁRIA DAS LUTAS


«Quando se escreve temos de nos isolar dos outros, não podemos lembrar-nos de que eles existem, do que vão pensar do nosso trabalho, do que poderão dizer. Temos de ser completamente livres. Escrever tem de ser muitas vezes um acto imoral. Para o fazer é preciso ser independente e livre, e isso obriga a que de vez em quando se tenha de ir contra o social, que é o lugar da moral.»

Karl Ove Knausgard, autor de A Morte do Pai (Relógio d'Água), em entrevista a José Riço Direitinho no Ípsilon de sexta-feira.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

TRILOGIA DO INVISÍVEL


Tempus fugit. Não vou conseguir deixar um best of de 2014, mas antes de fazer as malas há que lembrar alguns (bons) livros que chegaram nas últimas semanas. Da Orfeu Negro veio O Escuro, com texto de Lemony Snicket (o mesmo de Uma Série de Desgraças) e ilustrações de Jon Klassen, admirável na sua arte de brincar com um dos nossos medos imortais. Da Kalandraka, chegou o vencedor do recente VII Prémio Internacional de Compostela para Álbuns Ilustrados, Ícaro, de Federico Delicado, narrativa de traço hiperrealista que mergulha no oniríco e na metaficção, com ecos de Franz Kafka e de Edward Hopper pairando sobre uma família-pássaro. Também próximo da temática familiar, O Regresso, da Bruaá, um álbum sem texto em que a autora, Natalia Chernysheva, evoca o sentimento nostálgico da infância recorrendo apenas à exploração das perspectivas, formas, cores e indícios olfactivos. Três livros unidos pela mesma capacidade de evocar, questionar e sugerir, como é próprio da literatura, e que por isso se recomendam a todas as idades.