terça-feira, 23 de agosto de 2016

UMA ESPÉCIE DE PARAÍSO




-->A 3 de Julho de 1946, era inaugurada a primeira exposição internacional de livros para crianças, que estaria na base da construção de um projecto maior: a Biblioteca Internacional da Juventude, sediada em Munique. A ideia partiu de Jella Lepman, alemã de origem judia que fugiu ao regime hitleriano para se exilar voluntariamente em Londres. Terminada a guerra, regressou ao país a convite do exército dos Estados Unidos, uma das potências ocupantes. Na Blimunda de Agosto conto um pouco desta história que tem tanto de pessoal como de universal. Talvez por isso tenha funcionado tão bem. Um excerto do artigo:
 
«Talvez esse sentimento de não-pertença tenha contribuído para fazer emergir uma visão de futuro, assente num idealismo com os pés na terra. Podemos apenas especular. Porém, o desejo [de Jella Lepman] foi formulado sobre alicerces bem concretos: que a literatura infantojuvenil pudesse ser um território comum para todas essas crianças das ruínas, ávidas de comida e, nas suas próprias palavras, de «alimento espiritual». O alcance visionário desta ideia consistiu em imaginar que os livros pudessem chegar de todas as partes do mundo e ser uma ponte entre as muitas culturas da infância. Ainda hoje é assim.»

(A revista Blimunda, editada pela Fundação José Saramago, pode ser lida aqui, em versão online ou para download. «Biblioteca Internacional da Juventude - Uma espécie de Paraíso» começa na página 45.» Copyright das fotografias: Biblioteca Internacional da Juventude.)

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

UM MINUTO E MEIO





Sei que não é a melhor altura do ano para postar estes videos (camisola de gola alta... ai!), mas foram feitos há uns meses e só agora os vi. Um minuto e meio para falar do Irmão Lobo e do Amores de Família, com legendas em inglês. Uma produção da Bookoffice.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

IRMÃO LOBO A BANHOS


«Conhecemos nessa família uma miúda de oito anos (a mais nova de três irmãos) que, em processo de sobrevivência emocional face à inesperada situação, emana de si um esforço de compreensão e de maturidade alternados com uma doce ingenuidade criativa, num mundo quotidiano onde ela própria cria e constrói os seus cenários imaginários, nos quais dá outros nomes às personagens de quem depende e que giram à sua volta, entre elas, o seu cão-lobo, um husky. É um livro para todas as idades, uma história onde o final é, afinal, apenas um recomeço, um outro caminho, uma vida inteira pela frente.»

(Margarida Teodora Trindade, directora da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, em Torres Novas, escreveu uma bela crítica ao Irmão Lobo e recomenda-o no jornal Mediotejo.net, na rubrica «Passe pela biblioteca». O texto completo está aqui.) 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A SENHORA CLAP VAI AO BRASIL


A Senhora Clap é um livro que fica mesmo bem em palco. Não sei o que pensa a Marta Duque Vaz, autora deste originalíssimo texto ilustrado por Alexandre Esgaio e editado pela Planeta, mas não importa assim tanto (ou importa?) que a adaptação para a linguagem cénica se dê no Brasil e não em Portugal. Porque é que o público de Lisboa ou Porto ou Braga ou Viseu há de ser mais importante do que o do Rio de Janeiro? A arte é universal e o que importa é que o texto circule e seja reconhecido, penso eu de que. O Jardim Assombrado, que escreveu sobre o livro aqui, aplaude as afirmações Cadu Cinelli, director artístico da peça com estreia marcada para 3 de Setembro:

"São tempos estranhos que a gente vive", reconheceu, falando num "golpe da nova democracia" no Brasil e assumindo que o espetáculo "O tratado da Senhora Clap" é, de certa forma, uma reação ao "estado de política tão sombrio e temeroso" que hoje se vive no Brasil.
"Acho que a gente precisa se repensar enquanto artista, enquanto cidadão, enquanto ator político, e ver qual o nosso papel", sustentou.

Leiam o texto no Notícias ao Minuto

sexta-feira, 29 de julho de 2016

LEITORES EM FÉRIAS


Para as crianças, as leituras de férias devem estar associadas ao tempo livre, à partilha de experiências com a família e amigos, ao usufruir das coisas significativas da vida. Esqueça, por umas semanas, os programas e as metas escolares. A meta mais importante passa por se conhecerem, ter curiosidade por tudo e procurar ligações menos óbvias na diversidade do mundo. Os bons livros fazem parte do caminho. 

Ler as minhas «7 dicas para incentivar a leitura nas férias» no site da Porto Editora. Aqui.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

FESTIVAL WHITE RAVENS: DEPOIS DE MUNIQUE, 2


Porque «isto anda tudo ligado», a reportagem de Raquel Marinho que passou no Jornal da Noite do último domingo (SIC) transportou-me para a escola secundária E.T.A. Hoffmann, em Bamberg, na Baviera. As artes plásticas, a música e as línguas estão no centro dos interesses dos alunos que a frequentam. Por todo o lado, vêem-se pinturas e outros trabalhos artísticos feitos por eles. Lá fora, num dos relvados, há um espaço comum onde decorrem as «green classes», aulas dadas ao ar livre. A atmosfera é descontraída, os miúdos interessados, os professores também. É uma escola pública onde o estímulo à autodescoberta pela linguagem da arte (das várias artes) transparece imediatamente, o que só é possível quando se compreende que a arte e a cultura não são para uma elite endinheirada e/ou esclarecida. O sistema escolar actual, importado do século XIX e martirizado pela «papelada» e pelo vazio de ideias de longo prazo, vai continuar a alimentar escolas onde crianças e adolescentes não são convocados para algo que lhes diga respeito; algo que toque as suas vidas, a sua realidade, a sua urgência de expressão interior. É aí que os radicalismos começam a tomar forma, alimentados pela propaganda fácil via internet e pela ausência de uma rede que ampare o medo e a angústia.

Na extraordinária reportagem de Raquel Marinho, «Quando estou a cantar não estou preso», percebemos como «a arte pode ser veículo de mudança, e de que mudança». Ao longo de três anos, sob a orientação do maestro Paulo Lameiro e de cantores profissionais, 23 reclusos do Estabelecimento Prisional de Leiria aprenderam a cantar a ópera Don Giovanni, de Mozart. «É um projecto apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, que faz parte do Programa Partis, cuja ideia é a integração através da arte», explica a Raquel na sua página do Facebook.

No início do projecto, foi o riso e a estranheza; depois, a entrega e uma mudança de olhar: quem dera que na rua tivessem aprendido a cantar. Para compreender, é preciso experimentar. A dado ponto, diz um deles: «É uma história da vida dos rapazes. Não é de todos os rapazes, mas é, basicamente, a nossa vida. É um bocado de... mulheres... e como ele [Don Giovanni] tem o seu empregado que tenta comer os restos.» E mais adiante: «Há muitos de nós que se dizem Don Juans, mas somos todos Leporellos.» É muito difícil conseguir um trabalho jornalístico tão equilibrado entre a emoção e a contenção. Parabéns à Raquel Marinho e a toda a equipa.

(A reportagem «Quando estou a cantar não estou preso» pode ser vista aqui. Na segunda-feira, foram tema dos Sinais, de Fernando Alves, na TSF.)

domingo, 24 de julho de 2016

FESTIVAL WHITE RAVENS: DEPOIS DE MUNIQUE, 1


Quando eles chegaram às portas da Biblioteca Internacional da Juventude, na manhã de quinta-feira, último dia do Festival White Ravens, houve quem pensasse: «Oxalá não sejam estes.» Mas eram. Miúdos de 13 anos vindos de uma das escolas problemáticas de Munique, situada na base da pirâmide do sistema escolar alemão. Alguns descendentes de emigrantes; refugiados, talvez, mas não tínhamos como confirmá-lo. Entraram na sala sem alegria nem espalhafato e sentaram-se nas cadeiras dispostas em círculo; rapazes de um lado, raparigas do outro. A professora deu-me um aperto de mão frouxo, sorriu ligeiramente e não disse nada. Começámos. Durante uma hora e meia, virei-me do avesso para lhes provocar um sorriso, um comentário, um olhar vivaz. Ao meu lado, o Jochen Weber fazia a tradução do inglês para alemão e a actriz Sandra Schwittau lia em voz alta os capítulos escolhidos do Bruder Wolf. Três ou quatro rapazes fizeram perguntas; as raparigas mantiveram-se em silêncio, fechadas naquela amálgama de timidez, enfado e desconfiança. Tentaram perceber o título do livro: Irmão Lobo. Um deles disse que o lobo era um animal forte e selvagem («e um irmão é alguém que nos protege», acrescentei). Também lhes fiz perguntas: quem eram os heróis deles, quem os inspirava, quem lhes dava forças? Um dos miúdos, a escorregar de sono na cadeira, falou em Cristiano Ronaldo. Contei-lhe tudo o que sabia sobre Cristiano Ronaldo e disse-lhes que para mim também ele era um herói (não menti). Outro miúdo disse que não tinha heróis, que não precisava, que se bastava a ele próprio. Perguntei-lhe se se sentia sozinho no mundo, mas não respondeu. Não quis ou não soube. Nós, os adultos da geração Christiane F. e do «nuclear, não obrigado», ficámos ali a digerir aquele vazio. No dia seguinte, pelas seis da tarde, no centro de Munique, um rapaz pouco mais velho matava nove pessoas, sete das quais adolescentes. Apesar das suspeitas iniciais de ligação a grupos terroristas, soube-se depois que também se bastou a ele próprio. «Um lobo solitário», chamaram-lhe.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

4º FESTIVAL WHITE RAVENS, 2


Amanhã vou estar aqui, em Munique, no Castelo de Blutenburg, onde desde 1983 se encontra a maior colecção de livros infantojuvenis dos últimos 400 anos... Na edição da Blimunda de Abril há um belo artigo de Andreia Brites sobre a biblioteca idealizada pela jornalista e escritora Jella Lepman, em 1945, durante o deserto emocional do pós-guerra, como tentativa de resposta a uma ferida indelével. São mais de 610 mil livros em 130 línguas, uma mistura de Babel e Alexandria, eu sei lá. Sinto-me como se estivesse a olhar para o céu, sem saber como vou conseguir contar as estrelas e por onde começar. Espero que não me dê um treco quando chegar, porque não é todos os dias que os sonhos se cumprem (a última foi há 13 anos, quando viajei sozinha pela Nova Zelândia). Já tinha dado muitas voltas à cabeça, a imaginar como é que raio eu ia conseguir entrar neste palácio encantado, de preferência sem me endividar, e eis que tudo acontece num ápice. A publicação do Irmão Lobo em alemão deu origem ao convite para estar na edição deste ano do Festival White Ravens, ao lado de mais 13 escritores e ilustradores de 11 países: Alemanha, Áustria, Arábia Saudita, Dinamarca, Estónia, Estados Unidos da América, França, Grã-Bretanha, Holanda, Portugal e Rússia. Vamos fazer centenas de quilómetros entre Munique e outras cidades da Baviera. Vai ser uma loucura. Vai ser uma canseira. Vai ser fantástico.

Porque os sonhos não se cumprem sozinhos, quero agradecer do coração à Isabel Minhós Martins e à equipa da Planeta Tangerina, que editou o Irmão Lobo; ao António Jorge Gonçalves, pelas suas preciosas ilustrações; à equipa da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, que tanto tem apoiado a edição e a ilustração portuguesa no estrangeiro; à Helga Preugschat, que se bateu pela edição alemã do Irmão Lobo na editora Fischer Sauerlander; à Claudia Stein, por todo o cuidado posto na tradução; ao Jochen Weber, da Biblioteca Internacional da Juventude, que tem sido impecável na organização; aos meus incansáveis agentes da Booktailors; ao José Oliveira, meu primeiro editor na Caminho e também a primeira pessoa a quem falei desta história; à minha família, aos meus amigos e a todos os que, de uma forma ou de outra, acreditam em mim e me incentivam, hélas, a continuar a escrever. E aqui, desculpem, mas já não escrevo nomes porque ficava aqui o resto da noite, e tenho ainda uma mala para fazer e a areia dos gatos para mudar.

Se o tempo e as condições tecnológicas o permitirem, vou relatando o que se passa no Festival White Ravens na minha página do Facebook e no Jardim Assombrado. Até já! Wish me luck!

Todos os autores participantes no Festival White Ravens aqui.

4º FESTIVAL WHITE RAVENS, 1


Começa amanhã! A quarta edição do Festival White Ravens, nome inspirado no catálogo anual dos melhores livros publicados em todo o mundo, é um grande acontecimento em Munique e em dezenas de cidades da Baviera. Este ano, os 14 escritores e ilustradores convidados desdobram-se em workshpos e encontros com leitores de todas as idades, num total de 90 eventos agendados em escolas, bibliotecas, teatros e outros lugares públicos, incluindo o belíssimo Castelo de Blutenburg, sede da Biblioteca Internacional da Juventude, em Munique. Países representados nesta quarta edição: Alemanha, Áustria, Arábia Saudita, Dinamarca, Estónia, Estados Unidos da América, França, Grã-Bretanha, Holanda, Portugal e Rússia. Se querem conhecer os autores e saber quem vai representar o nosso «petit pays» cliquem aqui. ;-)

quinta-feira, 14 de julho de 2016

ELENA FERRANTE PARA CRIANÇAS?


Depois de ler A Praia de Noite, um texto de Elena Ferrante com ilustrações de Mara Cerri, fiquei com muitíssimas dúvidas sobre a sua adequação ao destinatário infantil. Não tenho como tirar a prova, mas não creio que este imaginário mórbido, grotesco e escatológico seja atraente para uma criança. A história da boneca esquecida na praia, pejada de tópicos emocionais ferrantianos (abandono, medo, prepotência, solidão, maldade, desajuste...) provocou-me uma «inquietação incómoda» a partir do momento em que me imaginei a lê-lo para uma criança ou a lê-lo enquanto eu-criança. Sem pôr em causa a qualidade literária, evidentemente (ferrantiana me confessei neste post do Jardim Assombrado), o problema é que vamos encontrar A Praia de Noite na secção infantojuvenil das livrarias... e enquanto não se assumir a viabilidade de um escaparate denominado «livros ilustrados para adultos», ou algo parecido, estamos expostos a este tipo de equívocos. Aliás, muito comuns.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

PRÉMIO NACIONAL DE ILUSTRAÇÃO: JOÃO FAZENDA


A vigésima edição do Prémio Nacional de Ilustração foi arrebatada (é o termo) por um livro sem texto: Dança, de João Fazenda, com edição da Pato Lógico. As duas menções especiais foram para Verdade?!, de Bernardo P. Carvalho (da mesma colecção da Pato Lógico) e Gato Procura-se, ilustrado por Yara Kono, com texto de Ana Saldanha. As restantes menções e a composição do júri estão referidas na notícia da DGLAB. Este ano, concorreram ao prémio 98 livros (publicados em 2015) e 67 ilustradores. Parabéns a todos e especialmente aos vencedores!

Sobre Dança e Verdade?! escrevemos aqui.

sábado, 9 de julho de 2016

JÁ OUVIRAM A RADIOTECA?


Penalizo-me por nunca ter ouvido a Radioteca, um programa da RUC - Rádio Universidade de Coimbra conduzido por Inês Nascimento Rodrigues. Nesta edição, inteiramente dedicada à literatura infantojuvenil, Miguel Gouveia, editor da Bruaá e uma das vozes mais esclarecidas e independentes do «meio», dá uma entrevista imperdível em que se fala de quase tudo: a ditadura da novidade; plano de negócios vs. paixão pelos livros; os tiros no escuro e os tiros ao lado da edição; os equívocos dos famosos; o trabalho de arqueólogo do editor; os editores que abriram caminho na LIJ; o catálogo sui generis da Bruaá e as vendas de direitos para o estrangeiro... etc, etc. E ainda o anúncio, em primeira mão, o próximo título da Bruaá, com assinatura de Walter Benjamin! 

Muito gentilmente, a Inês convidou-me a falar dos livros da minha vida, o que me «obrigou» a traçar um percurso sinuoso que começa no Atlas do Nosso Tempo, das Selecções do Reader's Digest, e no Cândido, de Voltaire, e segue por ali fora até acabar nas Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés. Pelo meio, Gilles Lapouge (Os Piratas), Michel Onfray (Teoria da Viagem), Marguerite Duras (O Amante), Patti Smith (Apenas Miúdos), Bachelard (Poética do Devaneio) e muitos outros que fazem parte da minha deriva leitora.

Link para a emissão completa em podcast.

Link para "Os Livros da minha Vida".

sexta-feira, 8 de julho de 2016

LEITURAS DE FÉRIAS, 9: OS BEBÉS DA ÁGUA


Publicada em 1863, numa crítica implícita à Revolução Industrial, a obra maior de Charles Kingsley faz parte do cânone da literatura para crianças. Um «conto de fadas para um bebé terreno», chamou-lhe o autor, apresentando o seu herói na primeira frase: «Era uma vez um pequeno limpa-chaminés que se chamava Tom.» O que começa por soar como uma intriga dickensiana (as aventuras de Oliver Twist tinham surgido três décadas antes), reveste-se de contornos mágicos quando aparece uma certa figura feminina: a mulher irlandesa que se revelará como «a rainha de todas as fadas, e talvez do que está para além delas». Ao imprimir a sua subjetividade e expor uma visão do mundo em que se cruzam as ideias do Socialismo Cristão, do misticismo das folktales e da fé nas conquistas da ciência, Kingsley produziu uma obra tão excêntrica como ele: um homem capaz de acreditar, simultaneamente, nas teorias revolucionárias de Darwin, de quem era amigo, e ser capelão da devota Rainha Victoria. Sem reprimir um exorbitante e arrevesado simbolismo, bem como comentários críticos aos seus contemporâneos e muitas deambulações filosóficas, Os Bebés da Água leva-nos por caminhos intrigantes, em que as notas do tradutor Júlio Henriques fornecem pistas valiosas. Uma edição da Tinta-da-China.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

LEITURAS DE FÉRIAS, 8: A ILHA DO TESOURO



Se há razões que explicam a qualidade perene e universal de um romance de aventuras publicado em 1883, A Ilha do Tesouro (Civilização Editora), uma delas prende-se à pulsão lúdica própria do ser humano, ao seu desejo de ensaiar e repetir o jogo, instituído como um fim em si mesmo e, por isso, livre de regras e de retórica. No fundo, a pirataria. Sobre um género em voga no seu tempo, Robert Louis Stevenson aplicou o estilo de narrar enérgico e expressivo, sempre comprometido com a ação, sem maneirismos e moralismos de época. Ao mesmo tempo, divertia-se (é lícito pensá-lo) a construir personagens dotadas de tal graça e manha que não desdenharíamos conhecê-las. É reconfortante saber que boa parte delas foram inspiradas em amigos e conhecidos do autor... Obedecendo à sua moral peculiar, Stevenson, um cavalheiro escocês que sempre gostou das más companhias, fará os possíveis para nos confundir, juntando no mesmo barco aparentes virtuosos como doutor Livesey e requintados sacanas como Long John Silver. Chegaremos a decifrá-los? Ganharemos a compreensão profunda destes personagens, das suas motivações e comportamentos? Todo o romance é um jogo de escondidas; e o pacto estabelecido com o leitor não ficará completo sem que este se atreva a perder, porque saber perder também é uma das finalidades do jogo. Nada de grave: os derrotados dão boas histórias.

terça-feira, 5 de julho de 2016

LEITURAS DE FÉRIAS, 7: MOMO


Publicado originalmente em 1973, quando nascia a última geração autorizada a brincar na rua, Momo é um romance portador dessa qualidade premonitória que a boa literatura tem o dom (ou a maldição) de revelar. Escreveu-o Michael Ende (1929-1995), para no ano seguinte ganhar o prestigiado Prémio de Literatura Juvenil Alemã pela segunda vez. Em Portugal, conheceu a sua primeira edição em 1984, ano orwelliano. Não podia ter calhado melhor: Momo é uma distopia do tempo em que as distopias juvenis não estavam na moda: cidades onde as crianças não podem brincar, adultos consumidos pelo tédio e pelo trabalho repetitivo, o mundo dividido em párias e seres produtivos, celebridades espremidas até ao tutano, bairros tristes e montanhas de lixo nos arrabaldes. Um livro bem pensado e bem escrito, sem peripécias em exagero a intoxicar o leitor incauto e com cuidadas passagens descritivas que deixam muito lugar à imaginação. Momo é o nome da heroína da história, uma menina capaz de entender o que é o tempo. Só ela poderá interromper o plano inexorável dos «senhores cinzentos», para quem tempo é dinheiro. Ao que parece, alguns foram esquecidos e ficaram para semente. Momo é uma reedição da Presença, com tradução de Maria Margarida Morgado.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

VISTAS MUITO ALEGRES


A partir de hoje, o Museu da Vista Alegre, em Ílhavo, recebe a exposição da Ilustrarte 2016, que se prolonga até 1 de Outubro. E ainda Serge Bloch e os fantásticos cartoons de António, em duas exposições temporárias. Há oficinas para crianças, inseridas no serviço educativo, e conversas com escritores e ilustradores. Hoje, às 21h00, com Valter Hugo Mãe. Amanhã, às 18h00, com João Vaz de Carvalho, Marta Madureira e moi-même. Tema: «Outros modo de ler - texto e imagem na edição para a infância». A moderação é de Adélia Carvalho e Nuno Barra. A entrada é livre. Apareçam, que o programa é mesmo bom! Está tudo aqui.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

BLIMUNDA: 4 ANOS DE CLARIVIDÊNCIA


Nascida na Fundação José Saramago, em Lisboa, a Blimunda fez quatro anos este mês. Para quem não sabe, é uma revista digital, gratuita, mensal (inclusive em Agosto) e dedicada à cultura na sua vasta expressão, com destaque para a literatura de todos os géneros, mas também à «música, futebol, dança, fotografia, artes plásticas, exposições, viagens, cinema», como recorda o editorial. Face ao esboroamento do jornalismo cultural tal como o conhecíamos antes da internet e das fusões empresariais, é preciso lembrar que há quem insista em dar o seu melhor. E isso consegue-se trabalhando muitas horas, escrevendo e reescrevendo, procurando ângulos, pessoas e temas fora do mainstream, aplicando o conhecimento adquirido sem perder de vista o essencial: comunicar. Aqui tenho de falar da minha dama: a literatura infantojuvenil e a ilustração têm sido muito bem tratadas pela Blimunda. Quem quer estar informado sobre esta área não pode deixar de ler os textos da Andreia Brites e da Sara Figueiredo Costa. O design gráfico do Jorge Silva explora o melhor uso do suporte digital, deixando sem argumentos até aqueles que continuam, hélas, a preferir ler em papel. Mas fora da caverna há mais luz. A entrevista de Pilar del Rio a José Saramago fala-nos disso mesmo. Um excerto:

Pilar del Rio: As personagens de A Caverna rebelam-se. É necessária rebeldia para sair da caverna?
José Saramago: A Caverna é uma história de perdedores cuja única vitória consiste em que não se entregam ao triunfador. É a rebelião possível mas sem ela não poderá haver outra. A derrota definitiva seria a submissão, e ainda assim não devemos esquecer que as gerações se sucedem, mas não se repetem. Assim como de insubmissos podem nascer submissos, também dos que se submeteram poderão nascer os que se revelarão.

PdR: Neste romance introduzem-se dois elementos novos na sua obra: a família e a ternura. Crê que estes conceitos são importantes para que algo se modifique para melhor?
JS: Não tenho ilusões sobre a família como instituição. A família é lugar de crimes, traições e vilanias, tanto como qualquer outro grupo humano. Mas continuo a acreditar no poder regenerador da bondade pessoal e da ternura. A casualidade quis que em A Caverna se reunissem quatro pessoas boas e um cão não menos bom, ainda que a realidade, sabemo-lo por experiência, demasiadas vezes seja diferente.

PdR: Há uns meses em Santander disse que «quanto mais velho mais sábio, quanto mais sábio, mais radical». Não foi só uma frase de efeito
JS: Não me lembro se a frase dita em Santander era exactamente assim. Seja como for, parece-me que fica mais clara a ideia se digo que quanto mais velho me vejo, mais livre me sinto e mais radicalmente me expresso. Não se trata de uma frase de efeito, é uma verificação de todos os dias. As palavras que com mais frequência me digo são estas: «Não te permitas nunca seres menos do que és».

quarta-feira, 29 de junho de 2016

LEITURAS DE FÉRIAS, 6: A MINHA CIDADE


Com o turismo de massas a tornar as cidades irreconhecíveis, surgem ideias em contracorrente. Embora algo inclassificável, A Minha Cidade é um projeto coerente com a linha editorial da Pato Lógico de André Letria (isto como quem diz «o Real Madrid de Cristiano Ronaldo»). Desde o início, a aposta passou por autonomizar o trabalho dos ilustradores e desafiá-los a serem contadores de histórias. Explorar as dinâmicas narrativas sem o suporte do texto de um escritor começou com a coleção Desconcertinas, do próprio André Letria, e ampliou-se com a coleção Imagens que Contam, à qual se juntou o álbum de Teresa Cortez, Balbúrdia. Desta vez, estamos perante um «objecto-livro-mapa» concebido para usufruto em dois tempos: primeiro, na leitura imediata das imagens e textos que compõem o itinerário urbano traçado pelo ilustrador; segundo, na vivência empírica que o leitor poderá seguir, in loco, de cada um dos doze sítios selecionados para o formato desdobrável. Os dois primeiros títulos, dedicados a Beja e a Edimburgo, são assinados, respectivamente, por Susa Monteiro e Marcus Oakley. Madrid e Huesca, ilustrados por Manuel Marsol e Isidro Ferrer, deverão sair em 2017. «Cidades do mundo para desdobrar e descobrir pelos olhos, mãos e pés dos ilustradores que as habitam.» Boas viagens!

terça-feira, 28 de junho de 2016

LEITURAS DE FÉRIAS, 5: FINALMENTE O VERÃO


Finalmente o Verão, de Mariko Tamaki (texto) e Jillian Tamaki (ilustração), duas primas de ascendência japonesa nascidas no Canadá, é o quarto título publicado na colecção Dois Passos e um Salto, «para adolescentes e outros leitores mais crescidos», como desde o início foi apresentada pela editora Planeta Tangerina. Nada de equívocos, portanto. A linguagem explícita que aqui aparece é até bastante soft, se comparada com alguns «diálogos» avulsos que captamos na rua ou perto de qualquer escola secundária. Se há pais, professores, livreiros e adultos em geral que preferem olhar para os adolescentes como se os pudessem conservar num frasco de formol delicodoce, talvez seja porque se esqueceram dessa época bruta, incerta, confusa e sempre angustiante que se sucede à relativa previsibilidade da infância. Finalmente o Verão tem tudo a ver com isso e muito mais.

A maternidade é um dos temas que atravessam o livro de uma ponta à outra - e esta noção de «travessia» é, em si mesma, estruturante do ponto de vista narrativo. Primeiro, a travessia da família Wallace para a zona dos grandes lagos, um lugar idílico chamado Awago Beach onde desde há muitos anos passam as férias de Verão. Rose Wallace, adolescente magra e aérea como um galho, reencontra ali a amiga de infância, Windy, cujo corpo redondo contrasta com o seu e oferece já outra visão do feminino, menos agreste e mais maternal. Mas perceberemos rapidamente algumas das razões da crispação de Rose: um aborto espontâneo da mãe às seis semanas, ainda por curar, transporta o mal-estar e as discussões do casal Wallace para o desejado retiro no seu éden privado.

Interligando-se com o cenário familiar, o quotidiano rude dos adolescentes e jovens adultos da localidade de Awago Beach - e o impacto de uma gravidez não desejada entre duas personagens - adensam o clima sufocante da teia de relações humanas. Surgem alguns presságios: as referências aos feiticeiros da tribo Huron, ancestrais habitantes daquela região do Canadá, agora convertidos em atracção turística; ou a fantasmática figura do homem que aparece a Rose quando ela foge para o lago, avisando-a do perigo dos relâmpagos. No entanto, nada nos prepara a iminência da tragédia nem para o final redentor do livro. E essa surpresa é um dos deslumbramentos desta novela gráfica em tons de azul, por isso não a estraguemos aqui.

Mas esta é, esssencialmente, uma travessia dos lugares cristalizados da infância, ainda com cheiro a gomas e refrigerantes e festas de pijama, para outros lugares insondáveis onde se fala (muito) de sexo, rapazes, casamento, filhos... Personagens que são, sobretudo, seres em transição: raparigas que gostariam de ser mulheres para serem desejadas; mulheres que gostariam de voltar a ser crianças só «para poder gritar e espernear», mulheres que não querem ter filhos porque elas próprias se sentem ainda crianças. A maternidade, fortemente simbolizada nas águas uterinas do lago, recorda que «a mãe natureza nem sempre é a pessoa mais simpática do mundo». Por vezes, navegamos em águas turvas ou desconhecidas. Há perdas de sangue e de filhos; há conversas cortadas a meio e mensagens não respondidas no telemóvel. Há a eterna incomunicabilidade das coisas brutais, e também o esforço que fazemos para lhes dar um nome. Onde faltam as palavras, exorbitam as onomatopeias, traduzindo emoções, cheiros, sabores, sensações, gestos, movimentos, sons. Do muito grande ao muito pequeno, o espaço de página faz convergir espaços antagónicos e tempos paralelos com absoluta mestria.

Muito mais poderia ser dito sobre Finalmente o Verão, livro que mereceu, com bastante polémica (ver aqui), o prestigiado Caldecott Honour, atribuído pela American Library Association, em 2015. É um daqueles livros que não hesitamos em classificar como obra-prima, por muito batida que esteja a palavra. E ainda bem que agora se escrevem tantas obras-primas na literatura infanto-juvenil. Mas nada de equívocos, novamente: este é um livro «para adolescentes e outros leitores mais crescidos», que muitos adultos deviam ler pelo menos duas vezes. Terminamos com a fala do homem do lago, que com o seu cão magro aparece junto de Rose, deixando-lhe um sábio conselho: «Algumas lições só se aprendem a doer, miúda. Não precisas armar ao pingarelho.»

sexta-feira, 24 de junho de 2016

LEITURAS DE FÉRIAS, 4: MARY POPPINS


Em 1924, Pamela Lyndon Travers, aliás Helen Lyndon Goff, chegou a Londres disposta a reinventar tudo, a começar pelo nome que lhe foi dado na Austrália, onde nasceu a 9 de Agosto de 1899. A sua biografia é aventurosa e cheia de incógnitas e bizarrias; como o facto de ter separado e adoptado um de dois irmãos gémeos bebés – decisão salomónica eticamente questionável. No documentário que circula no You Tube, o filho adoptivo, Camillus Travers, fala da mãe com uma fleuma bem cultivada, descrevendo Mary Poppins nesta frase lapidar: «Ela é bastante parecida com a minha mãe.» Tal como a mulher que lhe deu origem, ninguém sabe quem é nem de onde vem Mary Poppins, quando num dia de vento aterra na Rua das Cerejeiras, disposta a cuidar das quatro crianças da casa. Ela é «a sua própria obra», para usar a máxima de Madame de Stael («Je suis mon ouvrage.») Ele é única, incomparável, narcisista, excêntrica, misteriosa, ríspida, presumida e insolente. «Ela é diferente. É a Grande Exceção», diz o Estorninho. «Quanto aos sentimentos de Mary Poppins», escreve também P.L. Travers, «ninguém sabia nada, porque ela nunca falava deles». Está tudo dito. Nada está dito (e é melhor assim). O livro foi originalmente publicado em 1934 e está editado na colecção de clássicos da Relógio d’Água, com ilustrações de Susana Oliveira.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

LEITURAS DE FÉRIAS, 3: PIPPI DAS MEIAS ALTAS


«A sós com um livro, uma criança cria as suas próprias imagens, nos espaços secretos da sua alma. Essas imagens estão acima de tudo. São necessárias às pessoas. No dia em que a imaginação das crianças já não for capaz de criá-las, a humanidade ficará empobrecida.» Astrid Lindgren (1907-2002) proferiu estas palavras ao receber o prestigiado Prémio Hans Christian Andersen, em 1958, mas a sua criação mais famosa, Pippi das Meias Altas, seria bem capaz de faltar à cerimónia ou de interromper o discurso com uma das suas delirantes partidas. Pippi tem nove anos, é órfã e vive com dois animais de estimação, um macaco e um cavalo. Recusa-se a ir à escola, ganhou experiência de vida como «embarcada» e define-se como «encontradora de coisas». Alexandre Pastor, que traduziu diretamente do sueco, lembra, no texto introdutório da edição da Relógio d’Água: «Quando Pippi das Meias Altas foi publicado em 1945, conheceu um êxito imediato, apesar do alvoroço que criou entre os pais e os professores que viam em Pippi um perigo para a educação tradicional.» Visto que o modelo educativo não se alterou substancialmente desde então, não é de admirar que a leitura destes capítulos continue a provocar alguns arrepios. Entre as personagens femininas subversivas da literatura infanto-juvenil, de Alice às princesas mal comportadas dos álbuns de Babette Cole, é difícil encontrar quem manifeste tanta indiferença pelas instituições sociais, a par um sentido elementar de justiça e de liberdade individual. Uma espécie de anarquista, portanto.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

LEITURAS DE FÉRIAS, 2: PROFESSOR ASTROGATO

 
Imaginemos que o Sistema Solar cabia entre as duas mãos. Se a Terra fosse um tomate-cereja, Júpiter seria uma melancia e Mercúrio não mais do que um grão de pimenta. É isto um facto? Uma curiosidade? Sim e sim. Também é um bom exemplo das possibilidades criativas de uma categoria habitualmente menos privilegiada do que a ficção: os livros informativos. Depois de trabalhar anos numa livraria, e farto de ver álbuns sobre o espaço com as mesmas fotografias e as mesmas legendas de sempre, Ben Newman decidiu desenhar um universo à sua medida. Convidou Dominic Walliman (também inglês, como ele), cientista doutorado em física quântica e autor de livros para crianças nas horas vagas, e o resultado foi surpreendente: um álbum esteticamente cuidado e pleno de charme retro, com uma linguagem transversal para crianças e adultos, factual e afectivo ao mesmo tempo. Se a combinação de formas e cores faz lembrar os álbuns dos anos 1960 e 70, a informação tem a garantia científica de um perito – e é nítido que os autores se divertiram durante o processo. Desde a primeira edição no Reino Unido (Flying Eye Books), em 2013, O Professor Astrogato nas Fronteiras do Espaço já foi traduzido para várias línguas. Incluindo, é claro, a língua de gato. Em português, saiu na Orfeu Negro.

terça-feira, 21 de junho de 2016

LEITURAS DE FÉRIAS, 1: OS LIVROS DA SELVA


Mogli, o filhote de homem cujas origens não ficam totalmente esclarecidas, é criado com o Povo Livre, os lobos, e recebe os ensinamentos da Lei da Selva sob a orientação de dois animais-mestres: Balu, o urso-pardo, e Baguera, a pantera negra. Mas nem estes nem o seu pai-lobo e velho líder da alcateia conseguem salvá-lo de ser rejeitado pelo Conselho dos Animais. O menino-lobo regressa à aldeia, onde é tratado por «fedelho mendigo» e obrigado a aprender usos e costumes que lhe parecem «inúteis e aborrecidos», sem fazer «a menor ideia das diferenças que as castas estabelecem entre os homens». Contrariando a moral repressiva do sécculo XIX, Kipling adopta claramente o ponto vista da criança perdida entre as leis dos adultos, o que é louvável. Condenado a viver a sua dualidade animal e humana, Mogli canta: «Ambas estas coisas dentro de mim combatem, como as cobras lutam na primavera. Corre-me água dos olhos, embora, ao mesmo tempo, eu ria. Porquê?» Elaborada mas fluente, viva nos diálogos, sempre reflectida, nesta prosa se refletem muitas das questões ecológicas, políticas e filosóficas que estão na ordem do dia. O Livro da Selva e O Segundo Livro da Selva foram publicados, respectivamente, em 1894 e 1895. A reedição é da Relógio d'Água.

sábado, 18 de junho de 2016

HOJE, NA PAPA-LIVROS



Hoje é sábado, o dia da semana mais animado na Rua Miguel Bombarda - e não só pelas inaugurações nas galerias de arte. Na livraria Papa-Livros revela-se O Homem da Mala, recente edição da La Fragatina com texto de Adélia Carvalho e ilustrações de João Vaz de Carvalho. Ainda não sabemos o que está lá dentro. Às 16h30.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

TERTÚLIA: CORAÇÃO, CABEÇA E MÃOS


Um bom livro para crianças é também um bom livro para adultos. Não é preciso que tenha muitas palavras, importa que essas palavras tenham significado. Que façam diferença, mas para melhor.

Um bom livro para crianças contém valores humanistas, universais e intemporais. Fala dos «temas difíceis». Está em sintonia com o seu tempo. É progressista, muitas vezes. Revela a marca do autor ou dos autores. É por isso que um bom livro tem uma linguagem verbal cuidada, abrindo para o literário, com várias possibilidades de interpretação. Tem ritmo e musicalidade na leitura em voz alta. Tem ilustrações criativas e adequadas ao texto, acrescentando-lhe algo mais. Põe cuidado no design gráfico, formato e edição.

Essencialmente, um bom livro para crianças tem pensamento e tem alma. É um livro que questiona. Que permite refletir, rir e chorar. É um livro com coração, cabeça e mãos. Tudo o que é preciso.

Os livros para crianças vão ser o tema da próxima tertúlia do espaço Anagrama. Pais, professores, educadores e todos os que se interessam estão convidados a aparecer e a trazer dúvidas, ideias e inquietações para a conversa. Lá estarei para moderar (na medida do possível...). Das 18h00 às 20h00, na próxima quinta-feira, 23 de Junho.

Morada: Av. de Berlim, 35, Loja C. Tel. 211 966 088.   

quarta-feira, 15 de junho de 2016

IRMÃO LOBO NO KING'S COLLEGE


O Irmão Lobo esteve na exposição do King's College, em Londres. Parabéns, António Jorge Gonçalves!


«Aqui ficam algumas imagens da exposição Playground for Words, que esteve patente no Kings College, University of London, entre 5 e 6 de Maio de 2016. Com a colaboração da Embaixada Portuguesa e do Departamento de estudos de português e Espanhol, Humanidades, Kings College. Com a participação de Bernardo Carvalho, Afonso Cruz, João Fazenda, António Jorge Gonçalves, Yara Kono, Madalena Matoso, Madalena Moniz, Marta Madureira, e Catarina Sobral. Com o apoio das editoras: Editorial Acaminho, Orfeu Negro, Pato Lógico, Planeta Tangerina, e Tcharan.» 

(Informação retirada do blogue da livraria Miúda - Children's Books in Portuguese. Cortesia de Gabriela Ruivo Trindade.)

quinta-feira, 9 de junho de 2016

PARA O ANO HÁ MAIS

 
«Onde moram as casas? Moram em vilas? Em cidades? Perguntou a Laura. Perguntou à mãe e ao pai mas ninguém lhe soube responder. Foi pesquisar em livros e na internet e continuava sem encontrar uma resposta, custava acreditar, ninguém sabia a resposta. Então resolveu perguntar ao professor que lhe disse que as casas moravam no mundo inteiro.» (Sara, 3º- C, EB Agualva 2, Cacém)

Com o programa «Os escritores vão às escolas», organizado pela Divisão de Educação da Câmara Municipal de Sintra em articulação com a APE - Associação Portuguesa de Escritores, terminaram as visitas neste ano lectivo que chega ao fim. Para quem passa o dia fechado em casa, a ler e a escrever, fazer novos leitores é tão vital como respirar. Foi um ano cheio de partilhas bonitas e gratificantes, sem exceção. Muito obrigada aos professores e alunos das escolas que tão bem me acolheram: 

- EB1 de Sabugo e Vale de Lobos (concelho de Sintra)
- EB1/JI de S. Marcos nº 1 (concelho de Sintra)
- EB Agualva 2 (concelho de Sintra)
- EB 2,3 de Aranguez (Setúbal)
- EB nº2 da Feira (Santa Maria da Feira)
- Agrupamento de Escolas do Búzio (Vale de Cambra)
- EB 2/3 Carolina Beatriz Ângelo (Guarda)
- ES/3 da Sé (Guarda)
- EB 2/3 São Miguel (Guarda)
- Agrupamentos de Nelas, Canas de Senhorim e Carregal do Sal
- Centro de Estudos de Fátima
- Grande Colégio Universal (Porto)

quarta-feira, 8 de junho de 2016

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, 2



«Quais são as vantagens e desvantagens de trabalhar num grande grupo editorial [Leya]? Imagino que haja constrangimentos. 
Sim, eu tinha trabalhado vários anos numa editora e até aí não tinha de apresentar objetivos, fazer planos: se ganhasse mais ali, podia ganhar um prémio.
Isso hoje é…
É básico, pois é. Mas na altura foi uma dificuldade porque não estava habituada a dizer quanto é que vou vender este ano e se não vender o que é que me acontece. Eu não sabia nada disto e tive de aprender, como é óbvio. Mas também acho que faz falta uma certa coordenação. Não se podem lançar livros sem pensar. É preciso perceber se há público, ver as tiragens, não se pode fazer as coisas de qualquer maneira. Tive de me habituar a isso. Também tive de me habituar a outra coisa, essa bem mais difícil, que é a de ter acima de nós pessoas que não gostam de ler, pessoas que não percebem o que é um livro. Isso é dramático.
Essa era uma das coisas que lhe queria perguntar: se alguma vez sentiu que as suas decisões dependem de pessoas sem qualquer sensibilidade literária. 
Sim, sim, muitas vezes. E não é só sensibilidade literária. Falo por exemplo de pessoas formatadas politicamente. Imaginemos: uma pessoa que é de direita e que diz que não se publica nada que seja de esquerda. Aconteceu-me eu falar de alhos e a pessoa responder de bugalhos. Aconteceu-me mostrar uma capa, a pessoa perguntar-me de onde é que era a fotografia, eu dizer que era do Arquivo da Biblioteca do Congresso e a pessoa perguntar: «Congresso de quê?» Ao longo do tempo aconteceram-me as coisas mais irreais com pessoas que supostamente são as que mandam em nós. Mas também percebi que nós temos de ser os primeiros a conseguir vender o livro. Se eu conseguir explicar a uma pessoa, mesmo que não seja leitora, a importância daquele livro, porque é que deve ser publicado, acho que chegamos lá.
Aconteceu-lhe querer publicar determinado livro e ele não ter sido publicado por causa dessas questões, de alguém decidir que não publica porque o livro não vai vender?
Não quero dizer que sou melhor do que outras pessoas, mas isso nunca me aconteceu porque acho que sou boa vendedora. Pode acontecer é eu própria já não ter uma confiança por aí além naquele livro e então nem sequer o apresentar. Agora se eu achar que o livro tem condições para ter boas críticas, mesmo que não tenha vendas muito altas, e para fazer daquele autor alguém no futuro, eu vou e bato-me por aquilo.»

[Maria do Rosário Pedreira, in LER nº 142. Entrevista conduzida por Bruno Vieira Amaral, com fotografia de Pedro Loureiro. A imagem deste post foi retirada do Citador, onde se encontram quatro poemas de MRP.]

terça-feira, 7 de junho de 2016

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, 1


«Ter usado a poesia como uma forma de terapia nesses momentos negros quer dizer que o sofrimento é um bom combustível para a criação?
Para mim é. Tenho poemas que não são absolutamente negativos, mas num momento de exaltação da minha vida estou sempre mais preocupada em viver do que em escrever. No momento de tristeza ou de luto escrevo muito mais. Por isso é que escrevo às revoadas. Escrevo um livro e depois posso estar seis anos sem escrever porque se estivesse sempre a escrever isso significaria que a minha vida era terrível. Quando vêm aqueles leitores que me dizem que não escrevo nada há muito tempo eu penso: "Ainda bem que não escrevo." É bom sinal para a minha vida.»

[Maria do Rosário Pedreira, in LER nº 142. Entrevista conduzida por Bruno Vieira Amaral. Fotografias de Pedro Loureiro.]

quinta-feira, 2 de junho de 2016

O DICIONÁRIO DO MENINO ANDERSEN


«O menino Andersen era um grande inventor e não andava nada satisfeito com as definições de palavras que lia no dicionário. Por isso decidiu começar a escrever um dicionário novo, um dicionário que entusiasmasse os seus amigos.» Ao contrário do senhor Andersen, nascido há 210 anos na Dinamarca, o menino Andersen não sofre de melancolia nem parece preocupado com a saúde. Por isso, é natural que tenha escolhido palavras que o entusiasmem, palavras que façam lembrar jogo, movimento e tudo o que sirva para brincar. Por exemplo, a cadeira: «É o sítio onde as crianças descansam depois de desarrumar a casa toda. A cadeira também pode ser o sítio onde as crianças ganham forças para, a seguir, desarrumar a casa toda.»

Há uma coisa que o menino Andersen tem em comum com o senhor Andersen: a capacidade de se espantar com os objetos e de observá-los como se fossem gente. Se a toalha é «um objecto que tem sede» (atenção, o menino Andersen ignora o Novo Acordo Ortográfico), a banheira é «uma piscina egoísta porque só dá para uma ou duas crianças». No seu tempo, o senhor Andersen escreveu diálogos incríveis entre uma pena e um tinteiro, os vários dias da semana ou as cinco ervilhas de uma vagem, o que causou algum espanto. Pensava-se então que só os piratas, reis e princesas é que tinham direito à vida, e nem sequer a uma especial vida interior.

Apesar de tímido, o senhor Andersen foi um viajante: só na Europa, fez perto de trinta viagens, incluindo a Portugal. O menino Andersen também é um grande viajante, mas não precisa de sair do sítio: basta mudar de perspectiva ou tentar ver as coisas do avesso. Evita o comando da televisão: «É uma máquina que impede que te levantes», explica ele. «Quando carregas nos botões, ficas imobilizado.» O senhor Andersen não tinha esse problema da televisão, mas era um adulto muito estranho. Talvez o menino Andersen lhe quisesse contar a sua definição de rir: «Rir é dizer muito rápido algumas palavras. Rir é uma língua como o português, o espanhol ou o chinês.» Como seria rir em dinamarquês do século XIX?

O Dicionário do Menino Andersen
Gonçalo M. Tavares
Madalena Matoso (ilust.)
Planeta Tangerina

(Texto publicado na revista LER nº 141)