quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

ATELIER DE ILUSTRAÇÃO NA FJS

 
«A Fundação José Saramago, com a colaboração do Instituto Cervantes, do Museu de História Natural da Universidade de Lisboa, da Faculdade de Belas Artes de Lisboa e da Oficina do Cego, organiza no mês de fevereiro um atelier de ilustração e edição, com a participação de Elena Odriozola, Prémio Nacional de Iustração de Espanha 2015, e de Alejandro García Schnetzer, editor e director de colecções na Libros del Zorro Rojo. O atelier decorrerá entre os dias 24 e 26 de fevereiro e é composto por três sessões, num total de dez horas.» 

O atelier custa 35 € e é limitado a 15 participantes. Todas as informações na página da Fundação José Saramago. Aqui.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

ENCONTROS COM A MINHA ALMA GÉMEA, 3


Ontem, Linha Verde do Metropolitano de Lisboa. Carruagens semi-vazias, o ar ainda leve da manhã. Há uma senhora com um cão enrolado aos pés, lugares a toda a volta. Sento-me à frente dela, abro a mala, abro o livro.
- Está a gostar?, pergunta-me.
- Muito.
- Eu já vou no quarto volume, mas o terceiro é diferente de todos.
- Porquê? (pergunto por amabilidade, no fundo não quero saber a resposta)
- Não sei, é diferente...
A senhora tem olhos claros, cabelo alourado, veste-se para não impressionar. Não parece portuguesa. Ao lado dela, senta-se agora uma mulher mais nova, dos seus trinta e poucos. Diz:
- Ah, é a Ferrante. Também ando a ler.
O cão, um épagneul breton ainda cachorro (percebo pelas orelhas, sou zero quanto a caninos), mexe-se irrequieto, pede festas, atenção, sente-se aconchegado. Parece um cão feliz. Chama-se Luca.
- Todos os meus outros cães tinham nomes de pintores, mas este não, diz a senhora. As minhas sobrinhas começaram a chamar-lhe "Luc, Luc..". E ficou Luca.
- E teve mais?, pergunto.
- Sempre. Quando morreu o último, um labrador, disse para o meu marido que não queria mais cães... Aquilo dói. Dali a um mês já tínhamos este.
- Fez bem, há cães como nós. E como se chamava o outro?
- Dali. Como o Salvador Dali.
Esquecemos a Ferrante, as famílias a ferro e fogo, a violência doméstica, a escrita que põe o leitor a correr por cima das linhas como se estas fossem cordas esticadas até ao limite do insuportável. Falamos antes de animais.
Chegamos à estação do Martim Moniz. Desejo um bom dia às minhas companheiras de viagem e despeço-me:
- Vou sair aqui.
Quando a porta do metro se abre, ainda ouço a senhora perguntar à mulher mais nova:
- E está a gostar da Ferrante?
Não ouço a resposta. Saio como se entrasse numa qualquer irmandade. Saio acompanhada. Pressinto que vai ser um bom dia. E foi.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

ENCONTROS COM A MINHA ALMA GÉMEA, 2


Hoje, ao final da tarde, na Linha Vermelha do Metropolitano de Lisboa. Um senhor bem vestido, mas com um aspecto muito cansado e, talvez por isso, parecendo mais velho do que na realidade seria, sentou-se no lugar vago ao meu lado:

- Saldanha?! Então, mas eu acabei de entrar no Saldanha!...
- Não se preocupe, é a voz que não está a bater certo com as estações, também já tinha reparado...
- Ah, pronto! Uma pessoa já lhe falha a memória, e eles ainda tornam isto pior. Olhe, minha senhora, não sei para que lemos tantos livros... Eu li tanta coisa e não me serve para nada.
- Oh... Então porque é que diz isso? Os livros...
- Porque, se calhar, o único objectivo disto tudo é segurar a bola...
- A bola?... Ah, quer dizer, a Terra.
- Pois, a Terra, o globo...
- Então, mas os livros fazem a civilização...
- Se calhar! Mas foram eles que nos puseram cá, para segurarmos a bola.
- Eles, quem?
- Os extraterrestres, os alienígenas...
- Ah... talvez...
- Isto é tudo muito cansativo. Uma pessoa nasce e morre, e depois acabou-se. Uns atrás dos outros. Para que servem os livros?
- Servem para as pessoas que ficam depois de nós...
- Essas depois também morrem. Se começamos a pensar nisso, ficamos doentes. Isto não faz sentido nenhum. Somos todos robots nas mãos deles, estamos aqui só para segurar a bola!
- Não diga isso.... Então e a arte? Para que serve a arte?
- Olhe, serve para provar que eles já cá estiveram. Deixaram desenhos nas grutas para provar que já cá estiveram. E um dia talvez voltem para salvar a bola, porque nós não conseguimos tomar conta dela.
- ..... (silêncio)
- Há cada vez mais máquinas e robots para nos substituir. Qualquer dia inventam robots para limpar a casa, já pensou?
- Eu acho que já inventaram robots para limpar a casa...
- Ai sim? Olhe, então talvez eu seja um robot e esteja a aqui a ser controlado por alguém. Quem me diz a mim que eu não sou um robot? Adeus, minha senhora, muito gosto em falar consigo. Feliz Natal!
- Para o senhor também, Feliz Natal!


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

ENCONTROS COM A MINHA ALMA GÉMEA, 1


À porta do Vasco da Gama, em Lisboa, dois jornalistas interpelam quem passa, armados de microfone e câmera. Param uma senhora dos seus 60 anos, mala de rodinhas e ar apressado. Fica uns segundos a falar com eles e segue adiante, resmungando.

- Que queriam saber? – pergunto-lhe, na passadeira.
- O que é que eu achava de não sei quem ter saído da quinta!
- Ah... aqueles programas tipo...
- Se me perguntassem o que é que eu acho dos atentados de Paris e das pessoas que trabalham, eu sabia o que dizer, agora a quinta! Quero lá saber da quinta! Francamente! Que nojo de país, este!

Foi assim o encontro com a minha alma gémea de hoje. Amanhã há mais.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

ESCRITA E VULNERABILIDADE


O acto de escrever também reescreve o escritor e a sua vida. Numa palavra: transforma-o. A menos que a escrita seja coisa anódina, exercício de estilo ou construção artificial, é impossível escrever com sinceridade sem nos tornarmos cada vez mais vulneráveis. Não quero dizer «sensíveis», porque todos somos mais ou menos sensíveis. Mas nem todos temos a intenção de nos tornarmos vulneráveis, com tudo o que de assombroso e assustador implica esse estado de porosidade ao mundo. É muito difícil separar as águas e dizer «isto é a vida e isto é a literatura», porque a contaminação é inevitável, mesmo insidiosa. Escrever pode baixar tremendamente o sistema imunitário e, com isso, originar livros sublimes: livros belos, terríveis e profundos. Livros que nos atravessam como um nevoeiro e nos fazem chegar à última página com as mãos molhadas e um arrepio no corpo todo. Ler também pede que nos tornemos vulneráveis, mas podemos sair airosamente. A vulnerabilidade que a escrita exige não é algo a que se possa escapar com o mesmo grau de conforto e desprendimento. No entanto, é ao tornar-se vulnerável que o escritor pode chegar a curar pela palavra. Para mim, esse é que é o Graal.

(Na imagem: Flannery O'Connor. Retirada daqui.)

domingo, 31 de janeiro de 2016

FLORESTAS DE SÍMBOLOS


Também para mim foi surpreendente - e gratificante - encontrar «ecos» do Onde Moram as Casas (ed. Caminho) numa passagem de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Guiada pelo instinto único que existe em cada bicho-leitor, a Andreia Brites detectou-os e explicou porquê no seu blogue. Há pouco tempo, ao ler um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, o «eco» ressoou na direcção de um dos meus livros favoritos de Shaun Tan: A Árvore Vermelha (ed. Kalandraka). A ligação entre o universo opressivo e o alento providenciado por um elemento natural de cor vermelha também se pode ler no poema de Sophia:


Como uma flor vermelha

À sua passagem a noite é vermelha,
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.

(Poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen, ed. Assírio& Alvim, 2013)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

LIVROS PARA LER POR DENTRO, 2


«Sentimentos de tristeza podem ser dolorosos, e alguns doem tanto que são difíceis de suportar. Foi assim que a Madalena, uma amiga da Catarina, se sentiu quando os pais lhe disseram que já não podiam continuar a viver juntos. A Madalena precisava que as pessoas que lhe eram mais próximas percebessem o quanto estava magoada e que a amassem mesmo quando ela as afastava.»

A Catarina, o Simão, o Pai e a Mãe (e ainda o cão Feijão Peludo) são uma família funcional, na qual os sentimentos se manifestam com autenticidade, mesmo tratando-se de «uma sensação de rabiscos a enrolarem-se todos na barriga». Com um fio narrativo condutor, mostrando situações e contextos que fazem parte do quotidiano, este livro apresenta-se como «um lugar seguro onde [as crianças] podem pensar sobre os sentimentos, os seus e os das outras pessoas. Da nota autoral: «Algumas crianças podem querer falar sobre os seus sentimentos quando lerem este livro consigo. Outras talvez prefiram falar sobre os sentimentos das personagens - ou talvez pensem sem falar, pelo menos por agora.»

Um Livro de Sentimentos (ed. Livros Horizonte) é assinado por Amanda McCardie (texto) e Salvatore Rubinno (ilustrações). Neste último, é impossível não detectar a influência do «mestre» Quentin Blake. Demasiada influência, até.

(Ver mais «Livros para ler por dentro» aqui.)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A MALA DO ESCRITOR


Um escritor viaja sempre com os seus tesouros. Uma bússola, uma lupa antiga, uma fotografia em tons de sépia, umas lunetas, uma estatueta africana, um jogo de dominó de casas tradicionais, um livro de pensamentos de Ralph Waldo Emerson, um lobo, uma nota de 50 escudos... Eis algumas das preciosidades que transportei na malinha encarnada que a minha mãe me ofereceu, em Angola, quando teria uns dois anos (era quase do meu tamanho...). Partilhei-a nas 15 oficinas de escrita criativa que fiz a semana passada no município de Nelas, a convite da Fundação Lapa do Lobo, e incitei os miúdos (cerca de 250. ao todo) a fazerem o mesmo, para que um dia possam sentir o amor das coisas suas. A julgar pelo silêncio e pela atenção, creio que a malinha deu origem à maior surpresa e aos momentos mais mágicos. Fizemos também jogos de palavras, de atenção, de imaginação... e, claro, escrevemos pequenos contos. O tema era a família e todos tinham lido o Amores de Família nas semanas anteriores. Gostaram do tema e do livro, «porque era diferente», disseram-me. Surgiram textos com muita graça, outros ainda muito presos ao concreto e ao banal, mas todos participaram, sem quaisquer embirrações. É espantosa a diferença que fazem os professores: afectuosos e entusiastas, nos melhores casos; rígidos e desinteressados, nos piores. Encontrei crianças num estado de apatia total, como se tudo fosse uma grande maçada. Triste. Como alguém dizia, «alguns professores não se dão conta do poder que têm na formação da consciência e da autoestima das crianças». Totalmente de acordo.

domingo, 17 de janeiro de 2016

FAMÍLIAS, LOBOS, ALCATEIAS


Para onde quer que olhe, os lobos estão sempre lá. Durante a próxima semana, a convite da Fundação Lapa do Lobo, vou estar em várias escolas do concelho de Nelas para conduzir oficinas de escrita criativa e de microcontos, junto de mais de 260 crianças do 3º e 4º anos de escolaridade. Partiremos do Amores de Família, o livro que fiz com a ilustradora Marta Monteiro (ed. Caminho) e que está recomendado pelo PNL na área de Apoio a Projectos - Educação para a Cidadania (3º. 4º. 5º e 6º anos). Não sei que famílias vão surgir daqui, mas espero que sejam autênticas e amorosas, acima de tudo. Depois conto como foi.

PRÓXIMA FORMAÇÃO


No próximo dia 13 de Fevereiro, a convite da Biblioteca Municipal Manuel de Boaventura, em Esposende, farei uma formação de 6 horas especialmente dirigida a professores, bibliotecários, educadores e outros mediadores de leitura. A inscrição é gratuita.

sábado, 16 de janeiro de 2016

ONDE MORAM AS IDEIAS


Quando disse neste post que as ideias surgiam daquilo que acontece na minha vida interior, queria dizer precisamente isto. O corpo como uma casa em permanente (des)arrumação.

(cortesia Filipa Teles Carvalho)

LIVROS PARA LER POR DENTRO, 1


«Todas as actividades que tenham, como objectivo, trazer a calma e a tranquilidade para dentro de nós, são importantíssimas e, a meu ver, imprescindíveis nos dias de hoje, em que a satisfação é imediata, a resiliência decresce, e em que se ignoram os valores que nos permitem viver melhor neste mundo partilhado com outros. O impacto que têm os exercícios de atenção, de relaxamento e de mudança de estado emocional, é de tal forma grande que não pode ser descurado. E as histórias são uma ferramenta fundamental e muito simples de aplicar. Ora, tudo isto se encontra neste livro: explicações, exercícios e várias histórias metafóricas.»

[Com este livro de Margarida Fonseca Santos (texto) e de Joana Jesus (ilustrações), concebido com a qualidade habitual da Edicare, inaugura-se no Jardim Assombrado uma nova etiqueta: «Livros para ler por dentro». Não é grande literatura nem pequena literatura. É outra coisa. Livros bem feitos, sérios, honestos, informados, cuja principal motivação é o desenvolvimento integrado da identidade e da consciência. Livros para uma nova política da educação, talvez. Livros para um novo mundo... Chegaremos lá? Acreditar é preciso.]

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

LET'S GET LOST


Tenho a certeza de que haverá livrarias especializadas em livros para crianças muito mais bonitas do que estas, mas vale a pena ver a amostra. Aqui.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

PROFESSOR ASTROGATO


Depois de trabalhar anos numa livraria, e farto de ver álbuns sobre o espaço com as mesmas fotografias e as mesmas legendas de sempre, Ben Newman, ilustrador inglês, decidiu desenhar um universo à sua medida. Convidou Dominic Walliman, cientista doutorado em física quântica e autor de livros para crianças nas horas vagas, e o resultado foi surpreendente: um álbum esteticamente cuidado e pleno de charme retro, com uma linguagem transversal para crianças e adultos, factual e afectivo ao mesmo tempo. Uma edição da Orfeu Negro.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

HISTÓRIA DA LEBRE DE CHUMBO


«Onde vai buscar as ideias para os seus livros?» Apesar de mil vezes repetida, esta pergunta contém uma curiosidade genuína, porque participa do mesmo mistério: o leitor questiona o escritor para que o escritor se questione. Já lhe respondi de várias maneiras, consoante as idades a que me dirijo, mas creio que a resposta mais simples e mais verdadeira será: vou buscar as ideias àquilo que me acontece. Ou, para ser exacta: vou buscar as ideias àquilo que acontece na minha vida interior; sempre nas entrelinhas das circunstâncias, dos eventos, dos factos, dos enunciados externos. Se não preservar a possibilidade desse espaço aberto e ilimitado, posso dar a volta ao mundo e regressar sem nada para contar. Consigo localizar de forma bastante precisa as ideias prévias a cada livro, a memória sensorial que as acompanha (onde estava, com quem estava, o que fazia...), mas ter um objecto na mão e poder partilhá-lo com os leitores é algo especial.

A Lebre de Chumbo, o conto de fadas que escrevi para a colecção da APCC (Associação para a Promoção Cultural da Criança) começou com a réplica homónima que se pode ver nesta imagem: uma pequenina lebre de chumbo encontrada numa loja de velharias de Lisboa, na zona do Rato. Nunca lá tinha entrado. Foi o único objecto que me chamou a atenção e, mal olhei para ela, exposta dentro de uma cristaleira, soube imediatamente que era para mim. Custou-me dez euros.

A lebre, animal associado à lua e ao feminino, simboliza em vários contos o valor do sacrifício, no sentido de «sacro ofício»: acto sagrado para a pessoa que o realiza em nome de algo ou de alguém. Há quem goste muito desse conto, há quem não goste e há quem não o entenda. Está tudo certo. Escrever para agradar ao leitor é a morte do artista.

E, por falar nisso, eis como a lebre de chumbo foi vista pelo Alex Gozblau:


sábado, 9 de janeiro de 2016

NOVIDADES DA ORFEU MINI


Vêm aí coisas muito boas com a chancela da Orfeu Mini, colecção da Orfeu Negro que abarca a produção literária para os mais novos. Ainda sem capa em português, destacamos, para Fevereiro, O Sr. Tigre Torna-se Selvagem (Mr. Tiger Goes Wild), de Peter Brown, autor do divertidíssimo A Minha Professora é um Monstro! (Não Sou, Não) e de O Jardim Curioso (ed. Caminho). Também em Fevereiro, chega O Que Aconteceu à Minha Irmã?, um novo álbum de Simona Ciraolo, de quem já conhecemos (e adorámos) o anterior Quero um Abraço. Janeiro marca a estreia de um novo autor, Benji Davies, ilustrador britânico que recebeu o prémio Oscar (a pensar nas crianças do pré-escolar) com The Storm Whale (A Baleia, em português), história de um menino que encontra uma baleia encalhada na praia e a tenta salvar. Há mais novidades anunciadas para 2016, mas, para começar, estas já nos fazem crescer água na boca.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

O GRITO DO TROVÃO


Retrato agridoce da sociedade em convulsão na América dos anos 30, Trovão, Ouve o Meu Grito foi publicado há 40 anos, sendo agora pretexto para uma nova e melhorada edição. Seria óptimo se alguma editora portuguesa arriscasse o mesmo, já que a primeira tradução, editada na colecção Caminho Jovens, em 1986, já é muito difícil de encontrar (ver aqui). O romance de Mildred D. Taylor, recorde-se, foi distinguido em 1977 com o Prémio Newberry, o mais importante galardão da literatura infantojuvenil dos Estados Unidos, cujo júri é constituído por membros de bibliotecas públicas e escolares. Continua actualíssimo.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

MATERNIDADE


Há pouco tempo, tive uma visão do mal. Foi num desses parques comerciais dos arredores de Lisboa onde as famílias vão passear aos fins-de-semana, andando de loja em loja enquanto chamam alto pelo nome dos filhos. Justamente: era uma criança, um miúdo aí dos seus seis anos, e não parecia pobre nem rico. Aqui já estou a mentir: era pobre, sim, de uma pobreza angustiante, ali exposta no meio da multidão, reflectida nos vidros das montras; uma coisa gigantesca, um monstro disforme de pobreza moral. Ia agora dizer que o miúdo seguia acompanhado pela mãe, mas estaria a mentir outra vez. Não é preciso ter lido Elisabeth Badinter para desconstruir o mito do «instinto maternal». Conheço mulheres que não são mães e que são mais mães do que aquela criatura, cuja indiferença pelo filho era de uma evidência ofensiva. Percebi que o miúdo não estava a ter uma birra ocasional. Aquilo era ele, a vida dele, um dia como os outros. O miúdo gritava, atirava-se ao chão, rebolava-se como um cabrito, fazia caretas, puxava pelas roupas da mulher, e a única reacção que conseguia obter era a mais total e abjecta indiferença. Segui-os durante algum tempo, para ver até onde iria aquele teatro da crueldade, e só parei quando entraram numa loja cara. Fiquei do lado de fora, ainda a observá-los, vendo a mulher a mexer nas malas e nas carteiras com uma atenção dedicada, enquanto o miúdo vagueava pelo meio dos escaparates, atirado ao seu íntimo naufrágio. Apeteceu-me ir ter com a mulher, bater-lhe, esmurrar-lhe a cara contra uma parede. Sei que isto não é bonito nem cristão, mas foi exactamente o que senti. Depois desviei o olhar e segui em frente, em direcção ao presépio de cartão e lantejoulas.

Imagem: Our Lady of Czestochowa (The Black Madonna).

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

FAMÍLIAS FORA DA CAIXA



(...) No Dicionário de Lugares Imaginários, Alberto Manguel nota que «a organização social dos Mumins centra-se em torno da família e não existem instituições governamentais formais.» Perturbada pela Segunda Guerra Mundial, em que a Finlândia tomou parte ativa, acabando do lado dos perdedores, Tove Jansson inspirou-se na sua própria família e no círculo de amigos, refletindo valores pessoais e também identitários da sociedade finlandesa. Tolerância, respeito pelo indivíduo, união familiar e cortesia enformam todas as histórias dos Mumins, editadas entre 1945 e 1970 e traduzidas em mais de 30 línguas. Em 1966, Jansson recebeu o Prémio Hans Christian Andersen pelo conjunto da sua obra literária, também extensiva ao público adulto. 

Publicados pela Caminho no início da década de 1990, com tradução de Mafalda Eliseu (agora revista), os dois volumes reeditados pela Relógio d’Água há muito que faziam falta nas livrarias. Por ordem cronológica, A Família dos Mumins é o terceiro título da série, originalmente publicado em 1948 (O Cometa na Terra dos Mumins é de 1946). A opção explica-se facilmente: foi o primeiro a ser traduzido para inglês, com grande êxito, trazendo visibilidade a uma obra demasiado universal para ficar restringida às fronteiras nórdicas. 

(in LER nº 140, secção «Leituras Miúdas»)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

ESTE MÊS, NA LER


Já saiu a LER deste Inverno. É um trimestre em que há sempre demasiados livros para três páginas, em contraste com a escassez dos primeiros meses do ano, mas são os ossos do ofício. Nas «Leituras Miúdas» desta edição, destacam-se as reedições dos clássicos livros dos Mumins, da finlandesa Tove Jansson (Relógio d'Água); o magnífico livro de contos de David Almond (Uma Criatura Feita de Mar, Presença); e um livro informativo feito com rigor e muito charme retro (O Professor Astrogato nas Fronteiras do Espaço, Orfeu Negro). Os irmãos Hansel e Gretel foram ao divã de psicanálise das personagens, e Ana Margarida de Carvalho responde às três questões do Scrapbook sobre o seu primeiro álbum «para crianças e para adultos muito infantis» (A Arca do É, Teorema}. Ainda uma mão-cheia de sugestões na secção «Livros ao Microscópio»... e pronto, para o ano há mais.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

IRMÃO LOBO EM FÁTIMA


Ontem à tarde estive no Centro de Estudos de Fátima para falar com alunos do 8º e 9º ano sobre o Irmão Lobo, livro seleccionado pela escola para o Concurso Nacional de Leitura (será esta a designação correcta?). Os adolescentes são sempre um público tramado, mas com sinceridade e as unhas do lobo não é impossível agarrá-los. Gostei muito! Grata a todos os alunos que lá estiveram - mais de 150 - e também à Livraria Arquivo (Leiria) e às professoras Marlene Frazão e Cristina Carvalho, pelo caloroso acolhimento num dia de muito frio e muita chuva, como se pode notar pelo figurino.

(foto: cortesia Fernando Pinho)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O IRMÃO ALEMÃO


Bruder Wolf, título da edição alemã do Irmão Lobo, com tradução de Claudia Stein e chancela da editora Fischer Verlage. Ver aqui

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

CINCO PAIS NATAIS E TUDO O MAIS


Um primeiro livro é sempre um acontecimento e, no caso da Maria Bouza, creio que ilustrar Cinco Pais Natais e tudo o mais (ed. Máquina de Voar) não terá sido obra única. No próximo domingo, ela contará (ou não). Manuela Castro Neves, com livros publicados na Caminho e na Planeta Tangerina, tem um talento nato para orquestrar as palavras e produzir textos de grande qualidade literária e musical. Depois vou explicar melhor o que quero dizer com isto. A apresentação acontece na Livraria Pó dos Livros, domingo, às 16h00. Apareçam!

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

HÁBITOS PECULIARES



Ransom Riggs, autor da trilogia iniciada com O Lar da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares (ver post anterior) fala do seu hobby: coleccionar fotografias antigas de desconhecidos. Algumas entram nos livros, deixando-nos com aquilo a que se costuma chamar «uma inquietante estranheza». Mais sobre Ransom Riggs e outros videos aqui.

CIDADE SEM ALMA


Exemplo perfeito de literatura crossover, O Lar da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares foi um dos livros que mais gostei de ler este ano. Cidade sem Alma, a sequela, também não desmerece. O último volume da trilogia saiu em Setembro passado. Aguardamos tradução. Agora que o próximo número da LER está a chegar, deixo aqui o texto que escrevi para a edição nº 140:

Uma rapariga que faz fogo com as mãos. Outra, capaz de erguer um rochedo bíblico com o braço. Outra que faz crescer flores e trepadeiras em poucos segundos. E também um rapaz invisível; e ainda outro rapaz que abriga milhões de abelhas dentro de si, prontas a atuar como arma mortífera. Há mais para esta amostra de freak show, mas fiquemo-nos por uma sucinta apresentação dos personagens conhecidos de O Lar da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares (Contraponto), já adaptado ao cinema por Tim Burton e aguardado para 2016.


O segundo volume da trilogia de Ransom Riggs, que do anonimato passou a best-seller do New York Times, começa com a fuga do grupo de «peculiares» para um lugar incerto: «Éramos dez crianças e um pássaro em três pequenos e instáveis barcos, remando com uma intensidade silenciosa rumo ao mar...». Possível evocação do tema da nave dos loucos, um método barbaramente ancestral de as populações se livrarem dos seus elementos dissonantes, a deriva marítima separa o grupo da ilha galesa onde a casa da Senhora Peregrine lhes serviu de abrigo e de consolação trágica. Numa manhã de Junho de 1940, os esquadrões da Luftwaffe arrasam o lar clandestino dos órfãos de guerra, que a esta condição somam poderes sobrenaturais. E passam a existir num tempo paralelo, graças a um vórtice aberto para outra dimensão da realidade.


Ser «peculiar» sempre foi um dom e uma maldição, em todas as épocas. Além do monstro nazi, reaparecem no encalço das crianças (alguns, já adolescentes) outros seres monstruosos, híbridos das experiências dos homens quando brincam a Deus: os «sem-alma» e os «errantes». Não haverá piedade para quem se atravesse ao caminho. «Somos todos excluídos e deambulantes», dirá o líder dos ciganos ao bando de crianças peculiares, passada a desconfiança.


Além de uma imaginação invejável, das descrições vívidas e de um sentido de ritmo narrativo sem distrações, o livro tem a particularidade de integrar no enredo uma série de fotografias reais, a preto e branco, que aumentam a surpresa da história e da própria percepção leitora. Perante estas imagens, vindas dos arquivos do autor e de outras coleções pessoais, fica a pergunta: para que precisamos de viagens no tempo, se este nosso tempo já é estranho q.b.? 

Cidade sem Alma
Ransom Riggs
Contraponto

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

LAURIE LOVES LOU



What do you call love
Well I don't call it family and I don't call it lust
And as we all know marriage isn't a must
And I suppose in the end, it's a matter of trust

If I had to I'd call love time
She says, what do you call love
Can't you be more specific
What do you call love

Is it more than the heart's hieroglyphic
Well for me time has no meaning, no future, no past
And when you're in love, you don't have to ask
There's never enough time to hold love in your grasp

Turning time around
Turning time around
That is what love is

(Turning Time Around, Lou Reed)

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

TÍTULOS LARGOS COMO AS ASAS DO CONDOR







Se «o começo de um livro é precioso» (Maria Gabriela Llansol), há títulos que iluminam a noite escura das páginas por abrir. Títulos longos, títulos que são frases, títulos que escondem perguntas, dúvidas anti-metódicas e as convicções de quem escreve por dentro das palavras, na lura do animal-escrevedor. Títulos que abarcam as coisas grandes do mundo e também os seus mais ínfimos recônditos. Títulos que se estendem como as asas do condor, deixando-nos em suspenso sob a extensão das suas inquietantes afirmações.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

LAURIE


Fui ver o documentário da Laurie Anderson ao CCB, «Heart of a Dog». Minutos antes da sessão, vi-a passear nos corredores, absorta no seu mundo, com aquele ar de duende maroto, sem peso nem idade. Pensei falar-lhe, mas senti-me tímida e fui por outro lado. Depois esbarrei com ela, assim mesmo, voici, voilà, como na canção da serpente com pernas que vivia numa ilha («Yes. That’s true. A snake with legs.»). Olhámo-nos, sorrimos. Disse-lhe «I love you» e dei-lhe um beijo. Ela retribuiu. «That's so nice to hear that.» Seguiu adiante e eu fui à procura do meu lugar na plateia. Durante o filme, fiz festas à serpente que se enrolou aos meus pés, como um gato pequeno, e no regresso a casa avistei a ilha no meio do rio Tejo, pairando sob as luzes da ponte. Voici, voilà. «Voici le langage de l'amour.»

domingo, 22 de novembro de 2015

BOM DIA, FRANCISCO



Gostava mesmo de saber como é ter apenas meio dia de vida. Como é que olhas para este mundo onde acabaste de aterrar? O que vês? O que sentes? De que te lembras? Que tens para nos contar? Estou muito, muito curiosa para saber de ti. Estava a ver que não ficava para tia. 


Nasceste em Coimbra, à meia-noite e um minuto, um Escorpião a caminhar para Sagitário, o que promete qualquer coisa. Não sei bem o quê, mas será com certeza qualquer coisa intensa, autêntica, aventureira e um bocado cabeçuda (não te preocupes, vem de família). De qualquer modo, não estás aqui para agradar aos outros, se isso significar seres desonesto contigo. «Don’t be a people pleaser», dizem os ingleses, que também inventaram o «fair-play». Isso é importante. Aceitas um chá? Daqui a uns anos, quero dizer.


Olha, nem sempre precisamos de tomar partido. Podes ser religioso sem professar uma religião; podes ter fortes convicções políticas e ideológicas, sendo apartidário; podes praticar yoga e cometer uns exageros (já sabes que o corpo é que paga, mas pronto). Acima de tudo, não deixes de viver, caramba. Usa a cabeça e o coração para perceber qual é a acção mais correcta para determinada circunstância. Sê um diplomata, mas dá um estalo se for preciso, desde que o outro lado também se possa defender (não vale bater em crianças nem em animais). Quando fizeres asneira, pede desculpa. Diz sempre «obrigado» e «bom dia»; duas vezes, até, porque algumas pessoas são meio surdas, coitadas. Pratica um desporto de que gostes, futebol ou tiro com arco, ou outros, consoante te sintas mais sociável ou mais introspectivo. 


Não deixes que ninguém te rebaixe, te humilhe, te despreze, te trate com indiferença. Não tenhas medo de ninguém. Olha para os dois lados quando atravessares a rua. Acredita que o melhor investimento é sempre em ti, e isso não é egoísmo: se souberes multiplicar, vais ter mais para dividir. Qualquer forma de arte é boa para isso. Como os teus pais são artistas, muitos tesouros vão passar à tua frente e vais morder o mundo com os seis sentidos (o sexto é a intuição). Também podes ter de aprender a viver na corda-bamba, independentemente do talento que possas ter. Mas nunca estarás sozinho. Nunca.


Vais querer sempre fazer as coisas à tua maneira, por isso não vale a pena convencer-te de nada. Muito rapidamente, mais rapidamente do que outras pessoas, vais perceber que todos os gurus têm pés de barro e que os espíritos-livres não te vão querer vender teorias nem receitas. Vais ouvir muitas mentiras: por exemplo, que «o mundo é uma selva», que «as mulheres são chatas», que «os homens são todos iguais», que «quem vai ao mar perde o lugar» e outras coisas bem piores e mais destrutivas. Espero que estejas sempre do lado dos que lutam e não se rendem à ignorância e à maldade. É a única coisa que te peço. Também ficava contente se gostasses dos meus livros, mas isso logo se vê.


Um beijo, 
C.

sábado, 21 de novembro de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 21



«Em primeiro lugar, há o problema do começo; principalmente, o de sabermos como é que passamos de onde estamos, o que, por enquanto, é em sítio nenhum, para o outro lado. É, pura e simplesmente, um problema de ponte, um problema de se improvisar uma ponte. As pessoas resolvem estes problemas todos os dias. Resolvem-nos e, uma vez resolvidos, avançam.»

J.M. Coetzee, Elisabeth Costello, ed. Dom Quixote, 2004, tradução de Maria João Delgado. Originalmente publicado em 2003.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

TRÊS DIAS A NÃO PERDER


Começam hoje, em Lisboa, os encontros O Que Um Livro Pode, já referidos neste post. Três dias para conhecer e pensar a edição para a infância, «um território que nos últimos anos tem mostrado uma capacidade extraordinária de reinvenção e diversidade, graças sobretudo aos esforços dos próprios ilustradores e novos editores com uma nova cultura visual e maior capacidade de risco editorial». Nem mais. A exposição de ilustração é a pièce de résistance, à qual se junta um programa atractivo de ateliers para crianças, apresentações de livros e projectos, conversas e, claro, uma feira do livro onde estarão presentes as editoras mais «alternativas», por assim dizer. Está tudo aqui muito bem explicado. E onde é? No Espaço 'Rua das Gaivotas', ao Largo do Conde Barão. Então até logo!

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

LUTO COM AS ARMAS QUE TENHO


DD: Curiosamente, a amizade que muitos acreditam que poderá ficar para segundo plano num futuro não muito longe devido a utilização das novas tecnologias, que cada vez mais isolam os mais novos aos ecrãs do seu telemóvel. Como acha que devemos recuperar a “amizade do contato”?

MFS: Como deve imaginar, acredito que o podemos fazer todos os dias, cada um no seu plano. O meu é o dos livros. Tenho recusado, por exemplo, escrever romances juvenis que se baseiam nas redes sociais, em trocas de mensagens. Para mim, esta é uma preocupação gigantesca. No outro dia, parando para dar passagem a estudantes numa passadeira, reparei que nenhum conversava, iam todos agarrados aos ecrãs. Por isso, no que depender da minha escrita e do meu trabalho no treino da mente, estarei sempre a alertar para o perigo de se perderem as ferramentas sociais e de relacionamento (linguagem não-verbal, comunicação eficaz, avaliação de estados emocionais, e por aí adiante), de nos isolarmos uns dos outros e dos custos que isso traz no futuro. Não é também de relegar o impacto que isto tem na capacidade de atenção e memorização, e já estamos a sentir os efeitos disto. Luto com as armas que tenho, neste caso, através do que escrevo, polvilhando os textos com esses pequenos detalhes emocionais, fugindo de adjetivar, mas dando pistas de como se comportam as personagens e obrigando o leitor a perceber qual a emoção que está por trás disso.

(Margarida Fonseca Santos em entrevista ao Diário Digital, a propósito do seu mais recente livro, Bicicleta à Chuva. Vale a pena ler tudo, aqui.)

terça-feira, 17 de novembro de 2015

BARAFUNDA


Ari: E não é uma grande confusão? Uma grande barafunda?
Nave: É, mas muito organizada.
Ari: Então está tudo arrumado, não está?
Nave: Sim e não.
Ari: Então? Sim e não? Que confusão!
Nave: As coisas nunca estão todas arrumadas nem todas desarrumadas. Elas vão dançando e mexendo-se e nós, ao olharmos para elas com atenção, e dançando com elas, ajudamo-las a encontrar o lugar de que elas gostam mais.
Ari: As coisas dançam e nós dançamos com elas? Nem que seja a vê-las dançar? Dançamos com os olhos? Que coisa tão difícil!
Nave: Não é difícil. É tão simples como ver as estrelas e dar-lhes um nome. Acredita.

(in Barafunda, um livro com texto de Afonso Cruz e Marta Bernardes, editado pela Caminho, com ilustração de José Cardoso. Um livro para crianças? Sim e não. Um livro, diz o posfácio, «para compreender, de forma poética e lúdica, uma série de processos filosóficos e organizacionais, tanto do mundo como da mente humana, que são fundamentais na formação de um pensamento emancipado e crítico.» Nas escolas de um futuro melhor, os manuais serão substituídos por livros como este.)

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O GATO DA MATILDE


A Livros Horizonte publicou uma nova obra de Emily Gravett, escritora e ilustradora inglesa muito amada no Jardim Assombrado (provas dadas aqui, aqui e aqui). Originalmente publicado em 2012, O Gato da Matilde desenvolve um jogo irónico e contraditório entre texto e imagem, num «quem é quem» muito cómico e extensivo às habituais marcas autoparódicas da autora: por exemplo, algumas palavras surgem riscadas e Gravett faz-se representar por um livro seu... que não existe. Remetendo para possíveis intertextualidades, talvez esta menina vestida de gato cor de laranja tenha algo da Matilde de Roald Dahl, bem como de Max (e seu pijama de lobo), de Maurice Sendak. Todas são  personagens insubmissas da literatura para crianças. «Aprovado», diz o Radar.

sábado, 14 de novembro de 2015

E AÍ, MEU IRMÃO, CADÊ VOCÊ?


Ainda não tenho em mãos a edição brasileira do Irmão Lobo, recém-publicado pela Editora Rovelle (Rio de Janeiro), mas pude acompanhar parte do processo. O texto «sofreu» uma adaptação ao português do Brasil, com alterações morfosintáticas e mudanças de vocabulário que dão outro ritmo e outra graça à leitura. Tudo feito com o maior cuidado pela equipa da Rovelle, em colaboração com o Planeta Tangerina e moi-même. Não foi só a substituição óbvia do «tu» por «você» ou o «pai» que passou a «papai». Houve que suprimir, por exemplo, a referência ao menu Família Feliz, que não existe nos restaurantes chineses do Brasil; por outro lado, em vez de dizer «aquela coisa que parecia areia e entrava nos dentes», só foi preciso escrever uma palavra familiar a qualquer brasileiro: «farofa». Mudámos expressões como «pior do que estragado», «patos-bravos» e «homem-mocho» - respectivamente, para «puto da vida», «vândalos» e «homem-urubu». Aprendi expressões muito curiosas: «morcegando» é sinónimo de «andar a pastar» (na cena da mudança de casa) e «estamos ferrados!» quer dizer «estamos tramados!» (quando Bolota e Alce Negro são roubados). Não sei como se diz por lá, mas acho que está uma edição com muita pinta! 

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

CONTOS COM LUÍS CARMELO


Quem é que não gosta de ouvir Luís Carmelo, sempre bem acompanhado pela melancólica concertina? Dia 20 de Novembro, às 21h30, a Biblioteca Municipal de Oeiras recebe o autor das Contatinas, um projecto estreado nas Palavras Andarilhas de 2012 e mais tarde registado em cd pelas edições BOCA. Onde se conta, entre outros enredos, como o amor de Horácio e Clarita sobreviveu à luta de classes e como Esteves e Joaquim transformaram a rivalidade que os desunia em algo maior. Jovens e adultos são o público-alvo da noite. «Que histórias? Contos do arco-da-velha, fábulas do tempo em que os animais falavam, mas também lendas de terras distantes e próximas, mitos antigos do Norte e do Sul, histórias de amor, de ódio, de sonhos e desencontros.» Adenda: entrada livre.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

terça-feira, 10 de novembro de 2015

LUTEMOS CONTRA A BARBÁRIE


Após dez anos de actuação, o Plano Nacional de Leitura chegou ao fim. Era sabido. Na conferência realizada na Gulbenkian não se falou da continuidade de um projecto fundamental para uma geração de leitores, que deixou marcas nos sistemas educativo e editorial - particularmente nestes dois. O que vai acontecer depois? Não sabemos. O país está em stand-by. Andreia Brites, mediadora que desenvolve um trabalho sistemático com leitores, professores, bibliotecas e outras instituições, conhecendo bem os vários nós do problema, reflecte sobre o assunto com a acutilância analítica que lhe é habitual. Esperando que me perdoe a barbaridade, confesso já que lhe roubei o título do post.

«O PNL, seja qual for o balanço que dele se venha a fazer, foi esvaziado com alterações sucessivas das políticas culturais e de educação. Não adianta agora falar de factores externos. Por um lado, o abandono de uma política de promoção da leitura que se desenvolvia em estreita relação com as bibliotecas públicas, por outro as dificuldades burocráticas crescentes impostas aos professores nas hipotéticas saídas da escola, manietaram as bibliotecas públicas, dificultando o seu trabalho junto do público escolar a partir do 5º ano. Ao nível da educação, a queda do PNEP que visava um trabalho mais continuado em sala de aula da leitura recreativa, e a implementação das metas, nomeadamente as que consigo trouxeram um cânone obrigatório, mataram a influência da lista de livros recomendados anualmente pelo PNL.»

Ler o texto completo no blogue O Bicho dos Livros.

O GÉNERO INFORMATIVO


Não sabia o que era escrever um conto longo até ter escrito O gato e a Rainha Só. Não sabia o que era imaginar e escrever um picture book até ter feito o Não Quero Usar Óculos. Não sabia o que era escrever um romance para adolescentes e adultos até ter acabado o Irmão Lobo. Não sabia o que era escrever uma biografia até ter pesquisado para Ana de Castro Osório - A mulher que votou na literatura. E até agora também não sabia o que era escrever um livro informativo; ou melhor, dois. Com ilustrações de João Fazenda e edição conjunta da Pato Lógico e Ordem dos Farmacêuticos, A Ilha dos Diabretes (este, em co-autoria) e Atento ao Medicamento são dois novos livros da Geração Saudável, um projecto para a promoção da saúde nas escolas e para a adoção de estilos de vida saudáveis. A diabetes e o uso adequado dos medicamentos explicados aos mais novos, ora aí está.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

QUANDO HITLER ROUBOU O COELHO COR-DE-ROSA


(...)

Podemos pôr poucas coisas numa mala de viagem, e foi assim que o coelho cor-de-rosa se perdeu para sempre, tal como se perdeu a vida feliz e tranquila de Anna em Berlim. Isto sucedeu pouco antes de Hitler chegar ao poder, mas foi mesmo a tempo. Anna e a família – os pais e um irmão mais velho – conseguiram salvar-se e tudo fizeram para se manterem unidos. Da Alemanha para a Suíça, da Suíça para a França, da França para a Inglaterra, Anna conta como passou por experiências e emoções muito fortes, que fizeram crescer nela a vontade de escrever ficção. (Sim, esta é uma história semiautobiográfica...)
Neste livro há muita coragem, afecto e sentido de humor, como vais ver. A parte que achei mais interessante foi quando a família está quase a separar-se, e Anna se zanga com os pais. Porque, se ficar sozinha, tem medo de se sentir mesmo como uma refugiada, diz ela. É como se, até ali, a família fosse ainda o seu país... Um país que nunca se pode abandonar. Fiquei a pensar nisto durante muito tempo. Quando estiveres sozinho a ler este livro tão bonito, tão sensível e tão humano, talvez te sintas também assim, e então poderemos conversar sem que ninguém nos ouça.»

[Do prefácio a Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa, um romance indispensável da literatura infantojuvenil, escrito e ilustrado por Judith Kerr - hoje com 92 anos - e publicado na colecção Caminho Jovens em 1992, com tradução de António Pescada. Há muito tempo que andava ausente dos escaparates e foi um privilégio traduzi-lo para a nova edição da Booksmile. Como a literatura tem o dom de se antecipar à dita «realidade», o acaso e as circunstâncias providenciaram para que reaparecesse no ano em que a Europa enfrenta a maior vaga de refugiados desde o tempo da Segunda Guerra Mundial. Chega hoje à livrarias.]

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

COISAS BOAS QUE AÍ VÊM, 2


Também nas mesmas datas, entre 20 e 22 de Novembro, realiza-se a 5ª edição dos encontros O Que Um Livro Pode, este ano dedicados à edição de livros de autores portugueses para a infância... e mais do que isso. «Os Livros Não Têm Idade - um passeio ilustrado pela infância» foi a designação (bem) achada para explorar, nas palavras da organização, «um território que nos últimos anos tem mostrado uma capacidade extraordinária de reinvenção e diversidade, graças a uma nova cultura visual e maior capacidade de risco editorial». O sublinhado é meu. Uma exposição de ilustração, uma feira de livros infantis, apresentações de livros, ateliês para crianças, conversas e o que mais se verá num fim-de-semana com tudo para mostrar o talento dos autores e o empenho de quem aposta em concretizar projectos «fora da caixa». Os encontros acontecem no Espaço Rua das Gaivotas, 6 (ao Largo do Conde Barão, Lisboa). O Jardim Assombrado vai ficar atento.

COISAS BOAS QUE AÍ VÊM, 1


Que bonito está o cartaz de Pierre Pratt para o próximo encontro ETerna Biblioteca! Faltam só duas semanas e o programa deste ano inclui, além dos habituais ateliês de sábado (21 de Novembro), uma série de conferências que saem um pouco fora dos temas habituais. Por exemplo: «A síndrome de Alice no País das Maravilhas - uma leitura neurológica», pelo neurocirurgião Joaquim Ferreira Monteiro, ou «A matéria da ficção: ciência e literatura», pelo escritor Nuno Camarneiro, formado em Física. Mais conferências sobre as bibliotecas Maria Helena Vieira da Silva e Manuel António Pina; leituras e música; o lançamento de um novo livro de Rita Taborda Duarte (texto) e André da Loba (ilustração); um debate e uma exposição de Pierre Pratt fazem parte das actividades seleccionadas. As inscrições para os ateliês podem ser feitas aqui. Não deixem para a última hora.