quarta-feira, 16 de Abril de 2014

A PRINCESA E A MANSARDA


Desde os nove ou dez anos, quando li pela primeira vez A Princesinha, de Frances Hodgson Burnett (n. Manchester, 1849), num velho exemplar da Colecção Azul que sobreviveu até hoje, a personagem de Sara Crewe converteu-se numa presença mais real e significativa do que muitas pessoas que conheci. Nunca mais esqueci a palavra «mansarda» nem o espírito pertinaz da menina que alguns vêem como a versão feminina de Oliver Twist. Resumi o caso neste post. Provavelmente há qualquer coisa de regressivo na experiência arquetípica dos heróis de infância, mas vivo bem com isso. Não escreveria sem isso, melhor dizendo. Em 2015 passam cem anos sobre a publicação do romance nos Estados Unidos da América, para onde a autora emigrou quando tinha 16 anos.

terça-feira, 15 de Abril de 2014

TÍTULOS A EVITAR



Pré-acordo ortográfico e pós-acordo ortográfico.

SAUDADES, MR. GOREY


Edward Gorey, um dos meus excêntricos heróis, morreu a 15 de Abril de 2000, na casa de Cape Cod, EUA. Ataque cardíaco. Estive lá em 2007: a reportagem publicada na Notícias Magazine continua a poder ser lida aqui. Como ilustrador, Gorey deixou uma colecção valiosa de capas de livros, sempre de autores de quem gostava (não era do tipo de aceitar encomendas), como esta e e outras que se podem ver aqui. Link enviado por cortesia de Isabel Minhós Martins.

segunda-feira, 14 de Abril de 2014

AS RAPARIGAS QUE SONHAVAM URSOS


Um trabalho extraordinário da fotógrafa russa Katerina Plotnikova, com recurso a animais treinados. Por princípio, sou contra este hábito milenar de supremacia; mas quando existe respeito e admiração, como parece ser o caso, o resultado põe em evidência o que nos aproxima uns dos outros. Muitas mais fotografias, de um lirismo inquietante, podem ser vistas aqui. O título do post foi roubado a um livro de Margo Lanagan editado entre nós pela Guerra & Paz.

quinta-feira, 10 de Abril de 2014

ENCONTROS À VOLTA DA LIJ



De saudar, eis o I Encontro de Literatura para a Infância da Escola Superior de Educação de Lisboa, marcado para 10 de Maio. Inclui um bom programa de comunicações, oficinas e, digamos, momentos mais lúdicos (podem consultar aqui). Uns dias antes, na Universidade de Aveiro, começa o III Ciclo de Conferências para a Infância e Juventude, que se estende ao longo do mês e cujo programa também pode ser visto aqui. Ambos são acessíveis e abertos ao público. Em tempos de abulia pessoal e colectiva, as universidades, graças ao empenho de professores que são mais do que professores («um médico que só é médico nem médico é», disse Abel Salazar), vão cumprindo o seu papel.

quarta-feira, 9 de Abril de 2014

NOVA COLECÇÃO DE BIOGRAFIAS


Tal como o David Machado tinha afirmado neste texto, que subscrevo, é estimulante assistir ao aparecimento de boas colecções destinadas ao público infanto-juvenil, vindas não estritamente do meio editorial. Basta ver os nomes acima para saber que desta parceria entre a editora Pato Lógico e a Imprensa-Nacional Casa da Moeda é lícito esperar o melhor. Grandes Vidas Portuguesas apresenta-se este sábado na Ler Devagar, com a presença do decano António Torrado. Mais pormenores sobre a colecção no site da Pato Lógico

ONDE ESTAVAS NO 25 DE ABRIL?


Crianças e adolescentes, os primeiros destinatários do Livro Livre, ainda não tinham nascido quando se deu a Revolução de Abril. Mas são convidados a ter o papel de co-autores nas actividades criativas propostas pelos três autores: Francisco Bairrão Ruivo (textos) e Danuta Wojciechowska e Joana Paz (ilustrações e design). Com edição da Lupa Design, já está à venda na FNAC. O lançamento acontece este sábado no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, pelas 15h30. Cliquem na imagem para ver os pormenores.

quarta-feira, 2 de Abril de 2014

DIA INTERNACIONAL DO LIVRO INFANTIL 2


«Cada leitor de uma história tem alguma coisa em comum com os outros leitores da mesma história. Separadamente, mas também em conjunto, eles recriam a história do escritor com a sua própria imaginação: um acto ao mesmo tempo privado e público, individual e coletivo, íntimo e internacional. Isto deve ser o que o ser humano faz melhor. Continuem a ler!»

Mensagem para o Dia Internacional do Livro Infantil escrita por de Siobhán Parkinson, autora, editor e tradutora irlandesa. Ler o texto completo no site da DGLAB.


terça-feira, 1 de Abril de 2014

DIA INTERNACIONAL DO LIVRO INFANTIL


É amanhã. A convite da DGLAB - Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e da Biblioteca, o cartaz deste ano foi desenhado por Ana Biscaia, vencedora do último Prémio Nacional de Ilustração.

[Ontem, no programa Praça da Alegria, estive com a Ana Biscaia a falar sobre o livro para crianças. É logo no início do programa, cerca de dez minutos de conversa: http://www.rtp.pt/play/p1057/e149375/praca-da-alegria-ii. O link foi enviado por cortesia de Ana Evaristo.]

OBVIAMENTE, DISCORDO



Tropecei há pouco neste texto do Fábulas de Leitura e fiquei abismada. Não sei se se trata de um assumido guilty pleasure ou se a autora do blogue, nascida em 1981, faz questão de ignorar qualquer interpretação histórica e ideológica da obra de Odette Saint-Maurice. Chamar-lhe «um tesouro nacional desconhecido das gerações mais novas» seria apenas anedótico, se não fosse um insulto à inteligência e à memória de um país que passou por 48 anos de ditadura (e ainda não recuperou). Andei à procura da crónica que publiquei na LER de Setembro de 2011, aquando da inexplicável reedição desta obra serôdia e inane, mas não a encontrei. Deixo um excerto de um artigo mais recente, publicado no Le Monde Diplomatique, onde cito precisamente a figura e o livro em causa. E não, isto não é uma questão de opinião. É mais sério do que isso.

(...)

O paternalismo (ou maternalismo) do adulto que quer partilhar a sua «criança interior» foi, noutra época, o do «adulto exterior», mais preocupado com o amor à Pátria do que com o amor-próprio. Falamos da época «da mocidade que se dirigia valorosa e radiante para o dia de amanhã», quando as «pessoas da melhor sociedade» se cruzavam com outras, «acanhadas, mas com um ar feliz que nada igualava»; e o mundo se dividia entre «os que estavam muitíssimo bem vestidos e os que apenas vinham decentes e asseados»

Não são páginas da revista O Mundo Ilustrado, por onde alegremente se passeava o jet-set dos anos 1950, mas de Um Rapaz às Direitas, de Odette de Saint-Maurice (1918-1993), recentemente reeditado. A fechar o livro, uma nota biográfica: «À literatura juvenil, de que foi uma das mais notáveis cultoras, dedicou o melhor do seu trabalho, que um critério elevado e uma feição sadia definem e impõem.» Enigmático.


O tema da distinção de classes, com o seu séquito de virtudes bem constituído – o dever, a caridade, a docilidade, o patriotismo... –, marcou profundamente a produção literária para a infância e juventude em Portugal, em particular no género da novela de costumes, de que Odette de Saint-Maurice foi, sem dúvida, «uma das mais notáveis cultoras». Porque legitimado pela função educativa desde a sua génese, o livro para crianças sempre foi permeável à moral e às ideologias políticas vigentes, tornando-se facilmente um veículo de instrumentalização.

(...)

segunda-feira, 31 de Março de 2014

ARTE VS. PUBLICIDADE


Nunca me esquecerei dos dias em que o Irmão Lobo contactou com a civilização e lhes mostrou como o efémero pode ser útil e cheio de beleza. «Desenhos de Cordel - exposição de António Jorge Gonçalves» nos cais do Metropolitano de Lisboa. Estação final: Alameda. Termina hoje. Ah, poder limpar brevemente os olhos num mundo sem publicidade...

sexta-feira, 28 de Março de 2014

THE KIDS ARE ALRIGHT: THE HOUSE THAT JACK BUILT



The House That Jack Built ou This is the House That Jack Built é uma das mais conhecidas nursery rhymes inglesas, remontando a meados do século XVIII. Um clássico das rimas de estrutura cumulativa, em que a primeira frase é o pretexto para o desencadear sucessivo de interligações nem sempre lógicas (por exemplo: «Minha mãe teve dez filhos,/ Todos dez dentro de um pote;/ Deu-lhe o tangro-mangro neles,/ Não ficaram senão nove.», etc., etc.), The House That Jack Built tem sido reformulada ao sabor das épocas e tendências, sendo provavelmente um dos títulos mais parodiados de sempre. Os australianos The Go-Betweens revestiram-na de melancolia ácida em The House That Jack Kerouac Built, mas a versão que fica para a história será a dos Metallica. É o terceiro tema do álbum Load, dos idos de 1996. Um prodígio.

quinta-feira, 27 de Março de 2014

CATARINA, A GRANDE


Tanta coisa para fazer que O Jardim Assombrado arrisca-se a mudar o nome para O Jardim Assoberbado. Mas eis que uma grande notícia revolve os canteiros e faz estremecer as árvores de contentamento: Catarina Sobral, única representante de Portugal na exposição internacional da Feira do Livro Infantil de Bolonha, que termina hoje, foi considerada a melhor entre 41 ilustradores, com o livro O Meu Avô (Orfeu Negro). O Blogtailors fez um apanhado das notícias e o Hipopótamos na Lua mostra como é o livro por dentro. Foi destaque na LER de Fevereiro e o texto pode ser lido aqui. Parabéns, Catarina!

sábado, 22 de Março de 2014

THE KIDS ARE ALRIGHT: O GRUFALÃO



Seguindo uma ideia do A Origem das Espécies, que coligiu há tempos uma série de videoclips juntando música (rock, essencialmente) e literatura, quero esticar um pouco mais a corda e fazer o mesmo com a literatura infanto-juvenil, começando com este tema do compositor e multi-instrumentista René Aubry (França, 1956) para a banda sonora do filme O Grufalão (sobre o livro, ler aqui). Vamos ver. Pode ser que isto dê mau resultado. Mas não haverá música para martelinhos Disney, isso garanto.

sexta-feira, 21 de Março de 2014

NOVO LIVRO DE DAVID MACHADO


Desviei do Facebook este texto do David Machado, subscrevendo o segundo parágrafo e aplaudindo o resto:

«O conto infantil que escrevi para a colecção da APCC chegou esta semana. As ilustrações do Gonçalo Viana são mesmo bonitas e fico muito feliz por fazer parte deste projecto.
 

A APCC está a conseguir fazer uma coisa que muitas editoras portuguesas não conseguem nem estão interessadas em fazer: uma colecção original e eclética, com livros infantis escritos e ilustrados apenas por autores portugueses e um cuidado enorme com a qualidade (do texto, da ilustração, da paginação, do papel). É uma pena que só esteja à venda em duas livrarias do país (FNACs, uma Lisboa, outra no Porto).
 

Para além deste livro, será publicado ao mesmo tempo o livro que o Afonso Cruz escreveu e ilustrou para esta colecção, que, por uma enorme coincidência, também é sobre pássaros - juro que não combinámos. Haverá um lançamento para os dois livros, ainda não sei onde nem quando.»

quinta-feira, 20 de Março de 2014

BLIMUNDA DA PRIMAVERA


Às vezes, uma pessoa tem de rir para não chorar. Com a recente passagem da revista LER a trimestral, a Blimunda passa a ser, creio, a única revista cultural e literária onde todos os meses a ilustração e a literatura infanto-juvenil são tratadas com bom gosto, paixão e conhecimento de causa. Não digo os nomes dos culpados; basta ver a ficha técnica. Sim, é uma revista que só se lê no ecrã - e esse é o seu único defeito, aos meus olhos... com 13 dioptrias. Sim, seria incomportável fazê-la em papel nestes tempos miseráveis, portanto celebremos o que temos e que não é nada pouco. O número de Março chega com a Primavera e traz como temas as Correntes D'Escritas, Valter Hugo Mãe, censura no cinema, Catarina Sobral, Maurice Sendak e as habituais secções. Na página 61, dou uma entrevista a Andreia Brites sobre esse privilégio insano que é estar a traduzir para português uma boa parte da obra de Maurice Sendak, um dos meus heróis literários. A Blimunda, revista da Fundação José Saramago, pode ser lida aqui ou aqui.

terça-feira, 18 de Março de 2014

NA IDADE DOS PORQUÊS

 
Entrei numa retrosaria antiga, aqui na minha aldeia, à procura de um botão extraordinário. Queria um botão dourado, em forma de pássaro. Não encontrei, claro.... Mas quando ia a sair da loja, um bracinho puxou por mim e disse: 

«Não se lembra de mim?»

Era uma criatura de metro e dez, metro e vinte. Loura, de olhos muito cálidos. Reconheci os olhos imediatamente, mas o resto não encaixava. Tinha crescido. «Sou o João Paulo, andava na escola X» (a 100 km de distância). «Claro que me lembro de ti, meu aluninho!» E abracei-o imediatamente. É preciso dizer que o João Paulo era um daqueles miúdos que me martirizava a cabeça (ao ponto de tu acreditares que um tabefe bem dado naquele rabo era paliativo santo) em troca dos meus trezentos e cinquenta euros por mês como professora AEC.

«Então e o teu amigo, o Cabaceira, que é feito dele?» «Está para fora, os pais foram presos» («Ainda bem» - pensei para mim - «Assim ao menos terá uma chance».) «Estás mais gordinho, João Paulo». Ele encolheu os ombros e não disse nada. Foi um daqueles momentos em que acreditei nas ondas telepáticas, já que me pareceu ouvir exactamente na minha cabeça a voz dele: «Pudera... é que agora como.» 
 
O João Paulo não podia ter nota cinco; teve sempre quatros, porque o comportamento deixava mesmo muito a desejar. Sei que aquela nota foi uma revolução na vida dele, subindo inusitadamente a sua autoestima. O João Paulo era um miúdo que dançava maravilhosamente e de uma forma (como dizer?) intrínseca. Dançava assim, com a cabeça cheiinha de cicatrizes que se viam através do cabelo rapado. Era a mãe que lhas dava e pai não havia. Uma vez dei-lhe o meu lanche. Outra vez, foi uma professora que lhe trouxe um casaco no Inverno. Nós, no Facebook, nem sempre imaginamos uma realidade assim.

«Então, que fazes por aqui?» «Estou na obra na Nossa Senhora das Candeias». «Que bom! Assim posso ter-te debaixo de olho.» Fui embora e disse à educadora que o acompanhava: «Este menino é um artista». E ela, incrédula, a olhar para mim. O meu João Paulo a dançar, com a cabeça cheia de cicatrizes a verem-se através do cabelo rapado.

Foi assim que encontrei o meu botão extraordinário, em forma de pássaro dourado, numa retrosaria antiga, aqui na minha pequena aldeia.


[Este texto foi escrito pela minha irmã mais nova, Micaela Maia de Almeida, e publicado na sua página do Facebook. Pedi-lhe para o reproduzir aqui, a pensar em todos os professores e educadores que visitam o Jardim Assombrado, desejando que também eles tenham também o seu «botão extraordinário, em forma de pássaro dourado». Ou, melhor ainda, um bolso cheio deles.]

segunda-feira, 17 de Março de 2014

CONTOS CLÁSSICOS


Não é arty nem nada que se pareça, mas pode ser o livro certo para quem procura no mesmo volume os mais conhecidos contos de Perrault, Andersen e Grimm, e ainda adaptações de Alice no País das Maravilhas, Pinóquio ou Aladino. Texto e ilustração em doses equilibradas (na terminologia, é um bom exemplo de livro «profusamente ilustrado»), numa edição exclusiva do Círculo de Leitores.

sexta-feira, 14 de Março de 2014

PATAS NEGRAS


Caçadores da abundante rataria medieval, os gatos também deixaram marcas indesejadas nos manuscritos da época. Ver aqui.

[cortesia Alexandre Esgaio.]

ALEMANHA ASSOMBRADA


Os cenários dos contos dos Irmãos Grimm actualizados pela objectiva de um fotógrafo que tem a particularidade de ser daltónico. Ver mais imagens aqui.

[cortesia Angelina Pereira.]

quinta-feira, 13 de Março de 2014

OS AMANTES


(...) Os Amantes poderiam, se o compreendessem, dizer coisas estranhas
no ar da noite. Olha, as árvores são; as casas,
que habitamos, existem ainda. Só nós
passamos por tudo como uma troca aérea.
E tudo está combinado para nos calar, meio talvez
como vergonha e meio como esperança indizível. (...)

Rainer Maria Rilke, in A Segunda Elegia, tradução de Paulo Quintela. ed. O Oiro do Dia. Pintura de Marc Chagall, Over the Town, 1918.

IRMÃOS SENDAKIANOS


Uma das recompensas de traduzir Maurice Sendak é seguir as pistas para a interpretação da sua obra. Se a cultura pop norte-americana e a banda desenhada de Winsor McCay são a rede gráfica e imagética que sustém a aventura onírica de In the Night Kitchen, onze anos depois o interesse de Sendak pelo Romantismo alemão plasmava-se em Outside Over There, originando um livro completamente diferente, denso e abrupto como as paisagens de Caspar David Friedrich. Na imagem, vemos Die Hulsenbeckschen Kinder (1805-1806), um quadro de Philipp Otto Runge, outro pintor da época que o influenciou muito na concepção de Outside Over There (basta ver a capa para detectar semelhanças). Adrian Ludwig Richte e os seus cenários grimmianos também andam por esta história de irmãos desavindos e pais ausentes; ou não fosse a protagonista, Ida, inspirada na irmã de Maurice Sendak. Que, por sua vez, admitiu que aquele bebé trocado por duendes (um changelling, palavra intraduzível) era ele próprio... Mas essa pista merece um outro post.

sábado, 8 de Março de 2014

AS MULHERES DE SARAMAGO


«As minhas personagens verdadeiramente fortes, verdadeiramente sólidas são sempre figuras femininas. Não é porque eu tenha decidido, é porque sai-me assim. Não há nada de premeditado. Provavelmente isso resulta de que parte da humanidade em que eu ainda tenho esperança é a mulher. E estou à espera, já há demasiado tempo, que a mulher se decida a tomar no mundo o papel que não seja o de uma mera competidora do homem. Se é só para ocupar o lugar que o homem tem desempenhado ao longo da História, não vale a pena. O que a humanidade necessita é qualquer coisa de novo, que eu não sei definir, mas ainda tenho a convicção que pode vir da mulher.»

José Saramago, entrevista à Folha de S.Paulo, São Paulo, 18 de outubro de 1995, in Saramago nas suas palavras. [Durante este mês, a página da internet da Fundação José Saramago publica textos do escritor sobre as mulheres, o que inclui as suas personagens literárias. Para seguir aqui.]

sexta-feira, 7 de Março de 2014

MAURICE SENDAK: DA VIDA E DA MORTE



Estes cinco minutos dão para pensar uma vida inteira. No que perdemos sem querer, no que perdemos porque a estupidez humana nos impede de fazer melhor, no que recuperamos quando nos entregamos ao amor, à amizade ou à arte (sempre a mesma vontade de nos transcendermos, sempre), no que vale a companhia de um cão numa estrada secundária, no que resta quando percebemos que não valemos nada e valemos tudo ao mesmo tempo (seríamos deuses se antecipássemos o valor do tempo); e quando à vista uma furtiva pegada na neve tudo parece incomensurável, perfeito e inacabado. E depois destes cinco minutos, o que dizer? Absolutamente nada.

quinta-feira, 6 de Março de 2014

NO REGRESSO DO ALTO MAR


Maurice Sendak descreveu Outside Over There (Harper Collins, 1981) como a sua obra «mais pessoal». Não só as personagens se reportam directamente à sua biografia (o rapto do bebé Lindbergh, que o traumatizou), como todo o processo de trabalho o deixou exausto e deprimido, não obstante este ser também reclamado como o «favorito» entre os seus livros. E compreende-se. Numa leitura rápida, Outside Over There consegue ser quase impenetrável. Apesar da aparente simplicidade do texto, a sintaxe é muito mais complexa (ou inventiva) do que no caso de Onde Vivem os Monstros e Na Cozinha da Noite, conservando ecos de arcaísmos e da cadência das nursery rhymes. A história é furtiva e enigmática. As ilustrações, de tendência hiper-realista, guardam numerosas referências sociais, culturais e artísticas; esclarecendo o texto, umas vezes, e confundindo-o, outras. Traduzi-lo foi um prazer e uma dor de cabeça. Acabei ontem. Mas, na verdade, parece-me impossível de acabar. Querem saber como traduzi o título? Não digo.

quarta-feira, 5 de Março de 2014

ERROS QUE DÃO CERTO



Mais vezes do que pensamos, os erros são um caminho enviesado para lograrmos o que realmente está à nossa espera. Ao ouvir uma das entrevistas de Maurice Sendak, fiquei a saber que Where the Wild Things Are esteve para se chamar Where the Wild Horses Are, tudo porque a editora da Harper Collins, Ursula Nordstrom, a primeira pessoa a detectar o génio latente de Sendak (uma mulher, sublinhado meu), adorou a sonoridade poética do título e «comprou-o» sem hesitar. Mas havia um problema: ao deitar mãos ao trabalho, Sendak percebeu que não sabia desenhar cavalos... Resolveu então mudar o título para Where the Wild Things Are (em português, Onde Vivem os Monstros). Assim nasceu um clássico que revolucionou a maneira de fazer e pensar os livros para crianças, com mais de vinte milhões de exemplares vendidos desde 1963.

segunda-feira, 3 de Março de 2014

HORAS DA INFÂNCIA



(...) Nada
é aqui o que realmente é. Ó horas da infância,
quando atrás das figuras havia mais do que apenas
passado, e o futuro não estava à nossa frente.
Crescíamos, na verdade, impacientes por vezes
por sermos depressa grandes, meio por amor daqueles
que nada mais tinham senão o serem grandes.
E contudo, no nosso caminhar solitário,
alegrávamo-nos com o que dura e estávamos ali
no espaço intermédio entre mundo e brinquedo,
num lugar que desde o início
se fundara para um puro acontecimento. (...)


Rainer Maria Rilke, in A Quarta Elegia, tradução de Paulo Quintela. ed. O Oiro do Dia

sábado, 1 de Março de 2014

O MEU AVÔ: DIAS DE FESTA



Depois de Greve e Achimpa, Catarina Sobral confirma o seu talento com um livro em (quase) tudo diferente dos anteriores. Conheçam um avô excêntrico e de bem com o tempo.

Com O Meu Avô, Catarina Sobral demarcou-se da linha conceptual explorada nas duas obras anteriores – centradas na linguagem e nas variantes linguísticas – e passou para um registo humanizado que adopta um personagem de forte ligação afectiva às crianças. Quer o título do livro quer a figura adulta e esguia desenhada na capa, de guarda-chuva e meias às riscas, remetem de imediato para O Meu Tio, de Jacques Tati; homenagem inequívoca de uma autora que concilia a ilustração com a escrita e o cinema de animação.

Não há dúvida de que este avô, um flâneur atento e sabedor das pequenas grandes coisas, pertence à mesma família de Monsieur Hulot, quer na sua relação com o neto quer com a vida. Ficamos a conhecê-lo pelas descrições textuais («o meu avô nunca se lembra de ler as notícias», «acorda todos os dias à 6 da manhã», «tem aulas de alemão e aulas de Pilates»), mas sobretudo pelo contraste com outro personagem paralelo na narrativa, o Dr. Sebastião, cujo dia-a-dia também acompanhamos.

No esquema de página dupla, Catarina Sobral estabelece raccords brilhantes entre as ilustrações, criando efeitos de continuidade visual e, ao mesmo tempo, de total divergência significante. Assim, enquanto o Dr. Sebastião faz equilíbrio com pilhas de papéis e dossiês, o Avô exercita um movimento idêntico na aula de Pilates. Enquanto um aquece o almoço no micro-ondas, o outro faz piqueniques durante a semana, acompanhado pelo neto e por amigos. Esta imagem é uma recriação da paz bucólica de Le déjeuner sur l’herbre, de Manet, uma das referências artísticas que Catarina Sobral gosta de trazer para os seus livros. Mas há outras: Chaplin, Almada, Pessoa. Descobri-las faz parte do passeio.

Catarina Sobral
O Meu Avô
Orfeu Negro

(Texto publicado na secção «Leituras Miúdas» da revista LER nº 132.)

quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2014

IRMÃO LOBO NO CONCURSO DE LEITURA DE CASCAIS


Fiquei muito contente por saber que o Irmão Lobo foi uma das quatro obras seleccionadas para o 1º Concurso de Leitura do Concelho de Cascais, que envolve a participação de alunos do 2º e 3º ciclos de onze agrupamentos. A final vai ser no dia 29 de Abril, na Biblioteca Municipal S. Domingos de Rana, e claro que estarei lá para o que der e vier (só não posso «soprar» respostas). Os outros livros seleccionados foram: Alex Ponto Com: uma aventura virtual, de José Fanha; A Talentosa Flavia de Luce, de Alan Bradley; O Mundo em Que Vivi, de Ilse Losa. Muito boa companhia.

[A página do Facebook do Irmão Lobo está aqui.]

quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2014

O REGRESSO DA ORDEM


A Babel vai reeditar O Clube das Chaves, uma das colecções de mistério e aventura mais marcantes para a geração de jovens leitores dos anos 90. Da autoria de Maria Teresa Maia Gonzalez e Maria do Rosário Pedreira, começou a ser publicada em 1990 e foi, mais tarde, adaptada para televisão. Frederico, Pedro, Anica, Guida, Vasco e André são as personagens principais do núcleo de investigadores autodenominado a O.R.D.E.M. Bem precisamos dela.

terça-feira, 25 de Fevereiro de 2014

POR DENTRO DA COZINHA DA NOITE


E pronto. Depois da rigorosa aprovação dos herdeiros da obra, entrou em trabalho de impressão o segundo livro da «trilogia deslaçada» de Maurice Sendak (a expressão pertence-lhe). Na Cozinha da Noite (1970) segue-se a Onde Vivem os Monstros (1963), já publicado em 2009 pela Kalandraka, com tradução de Elisabete Ramos, e antecede Outside Over There (1981). Note-se que entre o primeiro e o segundo livro há sete anos de intervalo; e entre o segundo e o terceiro nada mais nada menos do que onze anos... Só isto já dá uma ideia do pensamento sinuoso do Sendak, para quem escrever e desenhar - coisa que fez durante toda a vida - significou pôr a criatividade ao serviço das forças do inconsciente e não de ditâmes exteriores. Daí a sua radicalidade, o seu compromisso, a sua liberdade; e a sua influência em tantos outros autores. Foi fácil traduzir In The Night Kitchen? Não, mas estou satisfeita com o resultado. O livro deverá chegar às livrarias na segunda semana de Março.

segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2014

WENDY NO DIVÃ: CAPITÃO GANCHO


CAPITÃO GANCHO O personagem mais só e melancólico da história de Peter Pan é também um vilão sinistro, à altura dos princípios da pirataria. Quem lhe der a mão acaba ferido.

Prisioneiros do risco e da tragédia, os piratas cultivam uma exuberância festiva, que no caso de James Gancho se associa ao porte de grand seigneur. Filho indesejado, cativo de um passado misterioso, «revelar quem ele era de facto poria ainda hoje o país a ferro e fogo», insinua J.M. Barrie. Essa identidade reprimida mostra-se nos «olhos cor de miosótis e de uma profunda melancolia», um dos seus estados de alma constantes. O próprio autor diz que «o homem não era totalmente mau», embora procedesse como um canalha a maior parte das vezes. Prepotente com a tripulação do Jolly Roger, sádico com as vítimas, capaz de mentir e enganar sem escrúpulos, Gancho é um caso evidente de personalidade anti-social. A educação no colégio interno de Eton não lhe terá feito muito bem. Afinal, talvez seja ele o mais perdido dos lost boys, fugindo do tic-tac do crocodilo até à hora fatal. Mas não choremos, já que morreu como um pirata: a rir-se dos seus tormentos.

(Texto publicado na revista LER nº 132, rubrica «Wendy no Divã»).

sexta-feira, 14 de Fevereiro de 2014

NAMORA UMA RAPARIGA QUE LÊ

 
«Namora uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros. Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca desde os doze anos.

Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler na mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que queria. Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas.

Ela é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se espreitares a chávena, vês que a espuma do leite ainda paira à superfície, porque ela já está absorta. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das raparigas que lêem não gostam de ser interrompidas. Pergunta-lhe se está a gostar do livro.

Oferece-lhe outra chávena de café com leite.

Diz-lhe o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entende que, se ela disser ter percebido o Ulisses de James Joyce, é só para soar inteligente. Pergunta-lhe se gosta da Alice ou se gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de anos, no Natal e em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como presente, em poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton, cummings. Deixa-a saber que tu percebes que as palavras são amor. Percebe que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade – mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não será tua.

Ela tem de arriscar, de alguma maneira.

Mente-lhe. Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de mentir. Atrás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. Nunca será o fim do mundo.

Desilude-a. Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao clímax. Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao fim. Que podes sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra vez e outra vez e continuar a ser o herói. Que na vida é suposto existir um vilão ou dois.

Porquê assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que lêem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Excepto na saga Crepúsculo.

Se encontrares uma rapariga que leia, mantém-na perto de ti. Quando a vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante algum tempo.

Vais declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.

Vais sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão escrever a história das vossas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.

Namora uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.

Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve.»

(Texto de Rosemarie Urquico. Tradução "não oficial" de Carla Maia de Almeida para celebrar o Dia Mundial do Livro, 23 de Abril de 2011. Republicado no dia 14 de Fevereiro de 2014, et pour cause...)

MAR BOLONHÊS


A página da Feira do Livro Infantil de Bolonha ainda não está actualizada, mas já é público que um dos livros portugueses concorrentes aos prémios de 2014 ganhou uma menção honrosa na categoria de não ficção. Cruzamento de livro informativo com livro de actividades, escrito com muita graça e desconcerto, Mar, de Ricardo Henriques (texto) e André Letria (ilustração) é mesmo uma pequena obra-prima. Parabéns aos dois e a toda a equipa da editora Pato Lógico! Mais informações e um booktrailer podem ser vistos aqui.

O AMOR É ISTO


Quem tem gatos sabe como eles são sensíveis à voz humana (e ao ruído em geral). Na Pensilvânia, um abrigo para animais abandonados teve esta ideia maravilhosa.

domingo, 9 de Fevereiro de 2014

NOVIDADES DA TEXTO


A bem dizer, é apenas uma novidade, a primeira do ano para a editora Texto no segmento infantojuvenil: Pequena História do Mundo, um livro informativo recomendado para crianças e pré-adolescentes entre os 9 e os 13 anos, tem ilustrações de João Maio Pinto e foi traduzido do espanhol. Assina Fernando García de Cortázar, sacerdote jesuíta e professor catedrático, vencedor do Prémio Nacional de História 2008.

quinta-feira, 6 de Fevereiro de 2014

ALCE NEGRO VIVE


O meu Padrinho trouxe de Angola um tapete de parede igual a este, descoberto há dias num desses sites que compram e vendem coisas usadas. Até aos anos 70, quando ainda não estavam associados ao exotismo kitsh, encontravam-se frequentemente em muitas casas portuguesas, à entrada ou nas salas de jantar, representando leões, leopardos, antílopes e outros animais habituados aos grandes espaços. Eu teria uns quatro ou cinco anos e lembro-me de como me fascinava este enorme tapete-que-também-era-um-quadro (pelo menos, eu achava-o enorme), que se deixava tocar como veludo e exigia uma contemplação prolongada. Num mundo de adultos, em casa dos meus padrinhos, ninguém terá dado por este fascínio, nem eu teria gostado que dessem. Assim vivemos até hoje, os veados e eu, inseparáveis. Saciados pelo alimentar contínuo das imagens nas imagens sobre as imagens, num país livre onde nenhum animal se extingue.

quarta-feira, 5 de Fevereiro de 2014

TRAZ UM AVÔ TAMBÉM


O destaque da LER de Fevereiro foi para o terceiro picture book de Catarina Sobral, O Meu Avô (Orfeu Negro), muito diferente dos anteriores Greve e Achimpa. O lançamento decorre na livraria Ler Devagar, à LX Factory, no próximo domingo, 9 de Fevereiro, às 15h30. Diz que vai haver «bolo da avó». A entrada é livre.

EMBORA FAZER UM LIVRO?


Esta família não pensa inscrever-se no curso para pais e filhos (ou avós e netos, ou tios e sobrinhos...) em que a finalidade é criar um livro ilustrado. Nuno Costa Santos ajuda a orientar a narrativa, Sofia Vargues ocupa-se da ilustração. O primeiro começou no início deste mês, mas haverá outro em Março. Saibam tudo aqui.

terça-feira, 4 de Fevereiro de 2014

UM MERGULHO NA COZINHA DA NOITE


Coube-me o privilégio um pouco insano de traduzir para português grande parte da obra de Maurice Sendak (1928-2012), autor norte-americano de ascendência polaca, amado e odiado q.b., homem de mau feitio e um daqueles nomes a quem se reconhece facilmente o dom da genialidade. Trata-se de uma tarefa que me deixa entre o entusiasmo e a angústia, características geneticamente apuradas desde que nasci sob o signo de Saturno. Sendak, vencedor do Prémio Caldecott de 1964 e do Prémio Andersen de 1970 (em ilustração), entre muitos outros, vai ser finalmente editado em Portugal pela Kalandraka, o que é já um dos acontecimentos do ano na área do infantojuvenil (ver a notícia da Lusa aqui.) Com a obra-prima de 1963, Where The Wild Things Are (Onde Vivem os Monstros, já editado pela Kalandraka em 2009), Sendak protagonizou um papel seminal na emergência do picture book enquanto «género editorial» (chamemos-lhe assim) e dotou o texto e a ilustração de uma profundidade simbólica tão subtil e complexa que, até hoje, o mínimo que se pede é humildade na tradução do original inglês. Não quero entrar em pormenores, mas antes de deitar mãos à obra li duas versões em línguas europeias que me arrepiaram os cabelos, autênticos atropelos reescritos sem a noção correcta do que é um trabalho de autor... Traduzir livros para crianças não é, em muitos casos, tão fácil como parece, mas sobre esse assunto falarei nos próximos posts. Para já, aqui fica a capa de Na Cozinha da Noite, o segundo título da «trilogia deslaçada» (expressão do próprio Sendak) composta por Onde Vivem os Monstros e Outside Over There, que traduzirei a seguir. Estará nas livrarias no final de Março.

quarta-feira, 29 de Janeiro de 2014

NOVO CURSO DE LIVRO INFANTIL BOOKTAILORS


Já há datas marcadas para a 6ª edição do Curso de Livro Infantil que faço em parceria com a Booktailors desde 2010. Tem sido muito bom e muito gratificante partilhar saberes. Começa a 31 de Março e prolonga-se pelo mês de Abril, num total de 18 horas em horário pós-laboral, às segundas e quartas. Está tudo aqui. Espero-vos!

terça-feira, 28 de Janeiro de 2014

INFÂNCIAS EM TEMPOS DE CÓLERA




Estreou-se na semana passada o filme baseado em The Book Thief (A Rapariga que Roubava Livros), do australiano Markus Zusak. É um romance passado em Munique e narrado pela voz omnipresente da Morte, no ano de declaração da Segunda Guerra Mundial, com um fôlego literário superior a O Rapaz do Caixote de Madeira, também centrado na vida de uma criança e sua família, mas mais dirigido ao público juvenil. De Munique a Cracóvia, cidade polaca invadida pelos nazis em 1939, toda a distância se encurta pela eterna promiscuidade entre o medo, o horror e a violência. Na mesma linha temática, é indispensável lembrar O Caderno do Avô Heinrich, de Conceição Dinis Tomé, um dos melhores títulos publicados em 2013 no segmento infantojuvenil. A Editorial Presença apostou forte e os bons leitores agradecem.

quarta-feira, 22 de Janeiro de 2014

WENDY NO DIVÃ: GATA BORRALHEIRA



GATA BORRALHEIRA Arquétipo feminino da abnegação e do altruísmo, a moça garante-nos que a virtude e a bondade compensam. É provável que tome antidepressivos às escondidas.

Encontram-se variantes desta história na China do século IX d.C., prova da sua difusão pelos quatro cantos do mundo. Também todos nós temos – ou já tivemos – uma Gata Borralheira nas nossas vidas. É essa querida que não sabe dizer «não», que só quer ajudar e para quem a assertividade consiste em passar um dia sem pedir conselhos. Órfã de mãe e filha de um pai desnaturado (que nas versões hard pretende desposá-la), Gata Borralheira era uma vítima anunciada para o desastre. A sua necessidade de aprovação provém da culpa inconsciente: quando as irmãs troçam dela por querer ir ao baile, penteia-as «perfeitamente bem», como salienta Perrault. Hum... e que tal antes duas colheradas de cinza nas chávenas das megeras, para dar mais gostinho ao chá das cinco? Sem pai que a defenda, será no submundo do borralho, acalentada pelo fogo, que Gata Borralheira se reconciliará com a sua mãe interna, renascendo das cinzas para uma nova vida. Guardado está o sapato para quem o há de calçar.

(Texto publicado na revista LER nº 131, rubrica «Wendy no Divã».)

terça-feira, 21 de Janeiro de 2014

SAKURA


O ramo da cerejeira em flor
concede o seu perfume
a quem o quebrou.

(Chiyo-ni, O Crisântemo Branco - Antologia de Haiku, ed. Pedra Formosa, 1995.)