quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

ALL CREATURES GREAT AND SMALL



Éramos quatro menos um. Vivíamos com pouco, mas havia sempre quem tivesse menos do que nós. Os invernos eram duros e nunca mais acabavam. Chovia o tempo todo. A água gelava nos canos, doía na garganta e nos dentes. Saíamos de manhã, entorpecidas pelo frio, a geada feita em cristais sobre as folhas e o ar limpíssimo, de cortar a pele. Acendíamos a lareira para nos aquecermos. Sentávamo-nos junto daquele coração de fogo a pulsar, na cozinha, tecendo fios e nós invisíveis. Quatro menos um. Comíamos iscas de fígado, ovos com mioleira, mão de vaca com grão, fanecas e carapaus; comidas de panela e de sertã. Felicidade era quando a nossa Mãe fritava bolo do tacho em banha derretida, só com farinha de milho, água e toucinho. Felicidade era receber um livro ou um jogo fora do Natal ou do aniversário. Felicidade era ter cinco anos e andar à solta nos pinhais, como um cabrito, iludindo o medo dos cães e dos lobisomens. Felicidade era quando ligávamos o televisor e víamos juntas a série Veterinário de Província na televisão a preto e branco. Bezerros acabados de parir, cavalos com cascos infectados, cães de pêlo dourado e doenças melancólicas: alguém cuidaria deles, alguém chegaria a tempo de os curar, sim. O Yorkshire dos anos 30 não era assim tão diferente do Alto Minho. As estradas com ravinas tão verdes e as quintas cinzentas onde se queimava carvão, os montes e vales profundos, animais e pessoas partilhando o mesmo quotidiano, a mesma comunidade dos simples. Estávamos em finais dos anos 70 e eu não sabia o que era o estilo arquitectónico georgiano, mas gostava de ter uma casa assim, cheia de quadros e chávenas de chá; e gostava de ter alguém por perto que usasse chapéus e casacos de tweed; que fosse bondoso, tranquilo, bem-disposto e um pouco desajeitado como a personagem de James Herriot, alguém que tivesse olhos claros e um sorriso franco. Sempre admirei quem tem o poder de curar, curar com paciência e amor todos os seres vivos, all creatures great and small.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

RECOBRO


Templo dos Quatro Ventos, Castelo Howard (Yorkshire, Inglaterra), cenário de rodagem da série Reviver o Passado em Brideshead. Foi construído entre 1699 e 1726, sob a égide de John Vanbrugh, que deixou uma carreira militar, a escrita e a espionagem para se dedicar à arquitectura. Não quero morrer sem ver este lugar com os meus olhos.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

MARY JOHN: SALTO DE GIGANTE



Mary John, nome evocativo da rebeldia pirata, conduz-nos ao conhecimento de uma personagem de carne e osso, Maria João, também ela confrontada com os mares turbulentos e conflituosos da adolescência. Por aqui tem navegado o universo criativo de Ana Pessoa, sabemo-lo pelos seus livros anteriores: O Caderno Vermelho da Rapariga Karateca (2012) e Supergigante (2014), editados na mesma coleção da Planeta Tangerina, Dois Passos e um Salto. Para quem tem seguido o percurso da escritora, é óbvio que Mary John representa um salto de gigante, um golpe certeiro feito de risco e ousadia, quer no domínio da linguagem estilística quer na incursão por temas tidos como tabu. Raro, muito raro um romance juvenil que se aventura pelos temas da sedução amorosa, da descoberta do corpo e da sexualidade sem nunca resvalar para o lugar comum nem para a moralidadezinha. O registo epistolar (Mary John escreve ao rapaz que quer esquecer) serve de suporte à estrutura narrativa, ao mesmo tempo que rasga folhas em branco onde se inscreve uma outra vida da protagonista; uma vida feita de mudanças, de equilíbrios precários, de passos de bailarina torpe num arame esticado, correndo em direção a algo de novo. Seguríssima, a voz da narradora agarra o leitor pelas vísceras e pelo coração, cortando rente quaisquer artifícios. Não surpreende que a última palavra seja um monossílabo: «Zás.»

Mary John
Ana Pessoa
Bernardo P. Carvalho (ilust.)
Planeta Tangerina

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

SOLSTÍCIO DE DEZEMBRO


O mundo jamais é parecido consigo próprio
tão inesperada é a noite,
mesmo quando em sua rotação se repete,
efectiva e extingue,
no corpo e cinzas de uma criança,

*
não vos espanteis por isso senhores,
dezembro é um solstício que nos sobrevive
e nada mais se anseia
do que abraçar todo o tempo do tempo
para seguir uma estrela viva,
um frágil e divino coração de criança
em homens aturdidos pelo afago da entrega,
guardai pois um Natal,
nada mais se reterá no cheiro do orvalho
que aconchegamos dentro de nós,

(...)

de Solstício de Dezembro, poema de João Rasteiro
Foto Bárcia, Matosinhos, Janeiro de 1971

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

ANA SALDANHA: SEM MARCAS DE CONDESCENDÊNCIA



«A geração dos nossos pais e avós deu-nos cabo da vida», diz um dos rapazes, o Doberman. «Depois admiram-se que a gente seja assim um bocado...». A frase é interrompida pelo toque do telemóvel de outro personagem. Três gerações cruzam-se num enredo familiar em que os personagens adultos não fazem de corpo presente, só para que os adolescentes se evidenciem. Todos são espelhos uns dos outros, mesmo quando, ou principalmente quando os diálogos resvalam para a incomunicabilidade. Marcas deste tempo, comerciais e emocionais, acompanham a travessia dos que ficaram. «Não é essa a questão», contrapõe o avô de Gonçalo e Maria, filhos de pais divorciados: «Aliás, os netos, agora, só telefonam, só aparecem quando precisam de alguma coisa. Os avós, para eles, são um caixa automático, mais nada.» Cruel? Ana Saldanha nunca é condescendente com os seus personagens, tão pouco com os leitores. «Vai-te foder» não é expressão comum na literatura para os mais novos (e, de qualquer modo, é o narrador a falar, não a autora). O recurso à metaficção fortalece o enredo, sem que o texto perca ritmo e agilidade. O final é avassalador, quase opressivo, e tudo se compõe sem que as marcas sejam apagadas.

Marcas
Ana Saldanha
Caminho

sábado, 17 de dezembro de 2016

MÁQUINA DE VOAR VEZES DOIS


A editora Máquina de Voar tem dois novos livros prontos a levantar voo. O primeiro é apresentado hoje no CCB, pelas 16h00, e é uma aventura literária de homenagem ao clássico de Maurice Sendak, Onde Vivem os Monstros. Com texto de João Ferreira Oliveira e ilustrações da Maria Bouza Pinto, dá pelo título de Monterrosso. Intrigados? Eles hoje desvendarão o porquê da escolha. Amanhã, é a vez Maria João Lopes (texto) e Teresa Cortez (ilustrações) explicarem o que é que os pais não sabem, com uma pequena ajuda de moi-même. O lançamento de Os Pais não Sabem, mas Eu Explico vai ser na Landeau, também às 16h00, e haverá bolo de chocolate. Apareçam! 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

INTERTEXTUALIDADES, 1


«Voltou-me ao espírito uma frase recorrente da minha mãe: Pára ou corto-te as mãos dizia ela quando me apanhava a mexer nas suas coisas de costureira. E essas suas palavras eram para mim verdadeiras tesouras, muito grandes e de metal brilhante, que lhe saíam da boca, lâminas que me abocanhavam os pulsos e deixavam em seu lugar cotos rematados pela agulha e os fios dos carrinhos de linha.»

(Elena Ferrante, Os Dias do Abandono, ed. Dom Quixote, 2004, tradução de Miguel Serras Pereira. Ilustração de S.J.-Ash para o conto dos irmãos Grimm, A Menina sem Mãos.) 

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

WENDY NO DIVÃ: REVOLTA-TE, RAPARIGA!



WENDY DARLING Demasiado responsável, adulta antes do tempo, excessivamente permissiva e abnegada, convencional até na aparência, a filha mais velha dos Darling não parece ter grande história. Mas, sem ela, não saberíamos quem é Peter Pan.


Chegou a vez de Wendy se deitar no divã que tomou a liberdade de adoptar o seu nome. O caso de Wendy Moira Angela Darling, quando comparado com os de outros personagens, desde o psicótico Barba-Azul até à insuportavelmente narcisista Rainha Má da Branca de Neve, não parece representar grande perigo para a sociedade. Afinal, a ideia de prolongar a adolescência é apelativa para muitas personalidades; e há sempre uma (ou um) Wendy de serviço para fazer o papel de mãezinha. A vantagem da codependência é que ninguém fica a ganhar, certo? A nossa Wendy Darling é uma querida, e J. M. Barrie descreve-a com bastante profundidade. Há quem defenda o seu protagonismo na história, mas o glamour vai todo para Peter Pan. É ele quem a convida para contar histórias na Terra do Nunca, tarefa que Wendy assume com gosto, ao mesmo tempo que se mantém «muito ocupada a costurar» e a tratar de «cozinhados [que] a obrigavam a não tirar o nariz da panela». Cumprindo os seus deveres, torna-se imprescindível, e pelo meio apaixona-se por Peter, que «detestava todas as mães, excepto Wendy». O idílio não vai durar sempre. Movida pelos remorsos, Wendy regressa a casa, levando os irmãos e os Meninos Perdidos consigo. Casará, terá filhos e esquecerá como se voa. Quando volta a ver Peter Pan, já tem mais de vinte anos: sente-se «desprotegida e culpada, como uma adulta». Wendy, querida, qual seria o teu destino se tivesses enveredado pela pirataria?



(Último texto da série «Wendy no Divã», publicado na edição 143 da LER. No próximo número, a sair brevemente, começa a série «Grandes Viajantes», dedicada às personagens mais aventureiras da literatura para os mais novos – e não só.)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 26


«O mar acabara para os olhos de Macário, naquela noite. A areia frágil também acabara, e o rochedo esburacado como uma esponja pela erosão, e a sua laca de espuma e de sol, e debaixo dos barcos virados, as redes amarfanhadas em que peixes morriam e o amor, às vezes, principiava.»

Maria Gabriela Llansol, A Terra Fora do Sítio, in Os Pregos na Erva, ed. Portugália, 1962.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

CONTRA A VIOLÊNCIA SOBRE AS MULHERES


400 mulheres mortas às mãos de maridos, namorados e ex-companheiros no espaço de 10 anos. 400 vítimas, número redondo que é apenas ponta de um icebergue de violência e humilhação.

A partir de um problema ainda enraizado na sociedade portuguesa, a escritora Ana Cristina Silva construiu uma ficção que dá voz literária a um drama que se vive todos os dias. Lançado originalmente em 2004, A Mulher Transparente regressa para que, através de si, possamos ver com clareza um problema grave do Portugal contemporâneo, manchado pela violência física e psicológica que se exerce todos os dias no seio das relações mais íntimas.

Compreender a extrema vulnerabilidade psicológica destas mulheres, que vivem diariamente um nível de stress não muito diferente do das vítimas de tortura, é fundamental para lhes proporcionar ajuda. Só assim será possível interromper o ciclo de violência e de submissão a que estão sujeitas. A diminuição de casos desta natureza passa também por pôr em causa uma certa mentalidade colectiva que se reflecte em ditados populares como por exemplo “ entre marido e mulher não metas a colher” ou “quando mais me bates mais gosto de ti”. A história de cada mulher espancada comporta uma luta esgotante para sobreviver.

Na luta contra o silêncio e o desespero, as personagens como a protagonista de A Mulher Transparente podem ter um papel determinante. No fundo trata-se de trazer a Literatura para dentro da Cidadania.

As receitas referentes a direitos de autor desta edição de A Mulher Transparente revertem integralmente para a APAV — Associação Portuguesa de Apoio à Vítima.

 

LANÇAMENTO: 7 de dezembro | 18.00 | Biblioteca da Assembleia da República
Apresentação de Catarina Marcelino (Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade), Paulo Pisco (Deputado do PS) e Carla Maia de Almeida (escritora e jornalista.)

 

(Fonte: Booktailors)

sábado, 3 de dezembro de 2016

ESTÁ UM BOM DIA PARA CHORAR NO PORTO


«O Porto é um sítio fantástico para se visitar e viver. Também é um sítio óptimo para chorar desesperadamente. Por vezes, viajar é cansativo e confuso. Podemos sentir vontade de chorar; mas não temos onde, porque estamos enfiados no dormitório de um hostel com mais oito pessoas. Se só quer estar sozinho e deitar tudo cá para fora antes de se sentir capaz de enfrentar o mundo, este mapa é para si! Depois de cinco anos de intensa pesquisa, é com orgulho que lhe dou a conhecer os dez melhores sítios do Porto para chorar.»

(Tradução minha para a introdução ao Map For Crying Travellers, de Joana Estrela. Ver mais aqui. E aproveitem a chuva.)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

DEPOIS DE SANTIAGO




Apesar do frio persistente, não podia ter sido mais calorosa a recepção da comitiva portuguesa que participou no encontro Desfacendo a Raia - Literatura infantil e xuvenil na Galiza e em Portugal, uma inicitiva da Livraria Ciranda, de Santiago de Compostela, em parceria com a Gálix - Asociación Galega do Libro Infantil e Xuvenil. Cá estamos na primeira fotografia, por ordem de altura métrica: Joana Estrela, ilustradora e autora de Mana, álbum vencedor do Prémio Internacional de Serpa para Álbum Ilustrado 2015 (em primeiro plano na fotografia logo acima); a «je», no meio; e Benedita Barros, uma das responsáveis da editora Máquina de Voar. Os livros ao fundo, todos portugueses, vieram das estantes da Livraria Ciranda e são procurados não só pela qualidade como pela proximidade linguística ao galego, que cada vez se ouve menos nas ruas e nas escolas. Falou-se de escrita, de edição, de ilustração, de leitura, de educação e de outros temas que nos aproximam culturalmente, inclusive às horas do almoço (apesar de «almoço» se dizer «xantar», em galego). Daí o título do encontro, «Desfacendo a Raia», que é como quem diz: «desfazendo a fronteira». Esteve para se chamar «Borrando a Raia» (borrar=apagar), mas, felizmente, alguém se lembrou a tempo que, em português, «borrar» tem um significado completamente diferente!

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A CAMINHO DE SANTIAGO


Vai ser bom voltar a Santiago de Compostela, onde já não vou desde o início dos anos 90. O pretexto é o encontro «Desfacendo a Raia», promovido em conjunto pela livraria Ciranda e a a Gálix - Asociación Galega do Libro Infantil e Xuvenil, cujo convite agradeço. Nos dias 25 e 26, no belíssimo espaço da Galeria Sargadelos (na foto), vai falar-se de escrita, crítica literária, ilustração, edição, literatura nas escolas e o que mais se verá. Pela parte de Portugal, vão estar presentes Joana Estrela, ilustradora e autora de Mana (Planeta Tangerina); Benedita Barros (da editora Máquina de Voar) e moi-même. A fechar, no sábado à tarde, há um espectáculo musical com Uxía Senlle e Sérgio Tannus. O programa completo pode ser visto aqui (cliquem na imagem para aumentar):

sábado, 19 de novembro de 2016

JOSÉ SARAMAGO, HOMEM-RIO


«Ao contrário de um rio, um escritor tem muitas margens. De um rio, sabemos onde nasce e onde desagua; a um rio, conhecemos a margem direita e a margem esquerda. Já um escritor tem tantas margens quantas as palavras que existem — as que ele mesmo escreve e as que, antes dele, outros escreveram.» A colecção de biografias Grandes Vidas Portuguesas, uma parceria editorial do Pato Lógico com a Imprensa Nacional Casa da Moeda, já ganhou mais um título: Homem-Rio, de Inês Fonseca Santos (texto) e João Maio Pinto (ilustração). Hoje, pelas 16h30, na Fundação José Saramago, os autores vão estar presentes para dar a conhecer a obra.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

JOANA ESTRELA, AS MANAS, OS IOGURTES E AS KARDASHIANS



A eterna rivalidade entre irmãos deu o mote a uma (quase) estreia prometedora: Joana Estrela. Nascida em Penafiel, em 1990, e formada em Design de Comunicação pela Faculdade de Belas-Artes do Porto, publicou um dos mais curiosos livros deste ano. Editado pela Planeta Tangerina, Mana ganhou, e muito bem, o I Prémio Internacional de Serpa para Álbum Ilustrado 2015. Joana Estrela será uma das convidadas portuguesas do primeiro encontro Desfacendo a Raia, que acontece daqui a uma semana em Santiago de Compostela. Já lá voltaremos. Para já, fica a entrevista – em versão «estendida» – que saiu na última edição da LER, secção Leituras Miúdas:

Diz que «o texto e a imagem são melhores quando estão
juntos». Sendo assim, porque é que há tantas relações falhadas?

Todos os consultórios amorosos das revistas cor-de-rosa dizem que o segredo de uma boa relação está na comunicação. Se o texto e a imagem não se conhecem, nem se complementam, nem estão dispostos a adaptarem-se um ao outro, dá em divórcio.

Como reage à resposta «o seu estilo não se enquadra na nossa linha editorial»?

Bem, ao menos responderam.

Gosta de fazer listas. Confesse sete coisas que as/os
irmãs/irmãos mais velhas detestam.
A roupa que desaparece do armário. O último iogurte que desaparece do frigorífico. O gato que adoptou sem me perguntar primeiro. Quando ela cresce e começa a ler livros muito mais inteligentes que eu. Quando se muda para a Holanda. Quando fico eu aqui com o gato dela, e sem companhia para ver as Kardashians (mas com a roupa e os iogurtes intactos!).

Está a trabalhar num projeto sobre Antónia Rodrigues (n. 1580, Aveiro), a adolescente que se vestiu de marinheiro e cortou o cabelo para ir combater no norte de África. Como imagina esta personagem?
Imagino que foi uma mulher desenrascada, corajosa e que, enquanto viveu como homem, carregou o peso de quem vive com um segredo. 

Encontrei temas de Alison Bechdel no seu trabalho: o quotidiano familiar, os desencontros comunicativos, o humor irónico, as questões de género... Bechdel é uma referência?
Não sei o quanto é influenciou o meu trabalho, mas é sem dúvida alguém que gosto muito de ler! Admiro a maneira como ela utiliza a biografia ou autobiografia para falar de temas mais gerais (política, literatura, psicologia...) e vice-versa. Em relação a outras referências, tenho a sensação de que aprendi tudo o que sei de banda desenhada com a Turma da Mónica. Leio esses «gibis» desde que sei ler, e nesses 20 anos devo ter absorvido muita coisa. Sempre gostei que não houvesse heróis nem vilões e que, dependendo de como a história é contada, às vezes és levada a torcer pelos rapazes e os seus planos infalíveis, ou pela Mónica e a sua fúria e arremesso de coelhos de peluche. Não é nada fácil fazer personagens tão complexos parecerem tão simples.


terça-feira, 15 de novembro de 2016

TEMPOS DO TEMPO



DIA DE OUTONO

Senhor: é tempo. O verão foi muito longo.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e solta os ventos sobre as campinas.

Manda que os últimos frutos se arredondem;
dá-lhes inda dois dias mais meridionais,
leva-os à perfeição e faze entrar
a última doçura no vinho pesado.

Quem agora não tem casa, já não vai construí-la.
Quem agora está só, longo tempo o será,
fará vigílias, e lerá, escreverá longas cartas
e vagueará, de cá para lá, nas alamedas,
agitado, quando o vento arrasta as folhas.


Rainer Maria Rilke, Poemas I, ed. Instituto Alemão da Universidade de Coimbra, 1967. Prefácio, selecção e tradução de Paulo Quintela.

domingo, 13 de novembro de 2016

ADEUS, OLHO DE RELÂMPAGO


Esta é Dharma, a husky que entrou na pele (ou devo dizer no pêlo?) de Malik, o cão-lobo do meu livro. Morreu no passado domingo, com 14 anos, e tenho a certeza de que nunca lhe faltou amor. Conheci-a no verão de 2012, quando andava a escrever o Irmão Lobo. Precisava desesperadamente de ver um husky de perto, ir além da pesquisa enciclopédia, e pedi ajuda pelo Facebook. Várias pessoas me responderam, amavelmente, entre as quais o Mário Rufino, que se prontificou a apresentar a (sua) Dharma. Combinámos encontrar-nos no Vale do Silêncio, aqui perto de casa, e passeámos os quatro pelos trilhos do parque; a Ana e o Mário a explicarem-me, com toda a paciência, que os huskies não ladravam (ou raramente ladravam), mas produziam um som que depois descrevi como «um uivar soletrado, uma espécie de código morse dos huskies». Era parecido com a fala do Chewbacca, do Star Wars, insistia o Mário. Eu, burra, fiquei na mesma; foi preciso conhecer a Dharma e a sua estupenda família para colmatar essa falha cinéfila. Bom, então lá seguia ela, muito tranquila no seu andar gingão, sem me conceder a graça de um olhar, um olharzinho que fosse. Só quando o Mário lhe disse qualquer coisa é que a deusa levantou a cabeça e me encarou, fulminando-me ali mesmo, implacável; nem dez segundos aguentei a profundidade daquele azul-estalactite. Digo-vos, é preciso coragem para acolher os olhos de um cão. Agora que a Dharma se foi embora deste mundo, repito a pergunta que fiz ao Malik, seu irmão lobo: «Em que pradarias corres agora, Olho de Relâmpago? Solta o teu ladrar de trovão para eu saber onde estás.»

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

LEONARD COHEN (1934 - 2016)


QUE FAÇO AQUI?

Não sei se o mundo mentiu
Eu menti
Não sei se o mundo conspirou contra o amor
Eu conspirei contra o amor
O ambiente de tortura não é agradável
Eu torturei
Mesmo sem a nuvem em forma de cogumelo
ainda assim teria odiado
Escutai
teria feito as mesmas coisas
mesmo que a morte não existisse
Não me deterei como um bêbado
sobre a fria corrente dos factos
Recuso o álibi universal

Como uma cabine telefónica vazia na noite
da memória
como os espelhos de uma sala de cinema
como uma só saída
como uma ninfomaníaca que se une a mil seres
em estranha fraternidade
espero
que cada um de vós confesse.

(Leonard Cohen, Que faço aqui?, in Filhos da Neve, ed. Assírio & Alvim, 1985. Versões de Jorge Sousa Braga e Carlos Tê.)

domingo, 30 de outubro de 2016

CHESTERTON, O MEDO E OS CONTOS DE FADAS


«Dei-me conta de que existem realmente seres humanos que acham que os contos de fadas fazem mal às crianças. Não estou a falar do homem da gravata verde, até porque nunca poderei considerá-lo como um verdadeiro ser humano. A verdade é que uma senhora escreveu-me uma carta muito sentida a dizer que os contos de fadas não deviam ser ensinados às crianças, mesmo que sejam verdadeiros. Ela diz-me que é cruel ler contos de fadas às crianças visto que os mesmos as aterrorizam. Pela mesma lógica, poderemos então dizer que é cruel oferecer romances sentimentais às raparigas porque estes as fazem chorar. Este género de conversa baseia-se num total esquecimento do que é uma criança, esquecimento esse que tem sido o fundamento incontornável de tantos programas pedagógicos. Se mantivermos as crianças longe dos bichos-papões e dos duendes, elas acabarão por inventá-los na mesma. Uma criancinha a sós e rodeada de escuro é capaz de desvendar mais infernos do que Swedenborg. Uma criancinha é capaz de imaginar monstros tão gigantes e negros que uma só imagem não os conseguirá capturar, ao mesmo tempo que lhes atribui nomes demasiado irreais e cacofónicos para figurarem sequer nos gritos de um qualquer lunático. Em primeiro lugar, a criança sente-se naturalmente inclinada para os vários horrores, e mesmo que não goste deles não deixará de os alimentar. A dificuldade de dizer com propriedade onde é que o puro tormento começa neste caso é tão grande quanto a de dizer onde começa o nosso tormento quando decidimos encaminharmo-nos de livre vontade para a câmara de tortura de uma grande tragédia. O medo não nasce dos contos de fadas; o medo nasce do universo da alma.»

G.K. Chesterton, «O Anjo Vermelho», in Ficar na Cama e Outros Ensaios, tradução de Frederico Pedreira, ed. Relógio d'Água, 2016. 

sábado, 29 de outubro de 2016

HOJE, NA LIVRARIA ALMEDINA


«Recordar os Esquecidos» é um encontro para falar de livros que não andam nos tops das livrarias. Dois convidados escolhem quatro ou cinco títulos que justificam um segundo olhar; mas só o moderador, João Morales, tem conhecimento prévio das escolhas. Logo à tarde, vou estar com o jornalista Paulo Moura no espaço da Livraria Almedina (Atrium Saldanha, em Lisboa), para uma conversa aberta ao público que se deseja amena e prazenteira. O tempo está bom para isso. Começa às 18h00. Apareçam!

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

VAMOS COMPRAR UM POETA? VAMOS!



Imagine-se um mundo onde poetas e artistas inspirassem medo. Novela para todas as idades ou retrato do poeta enquanto jovem cão, nada se exclui. Afonso Cruz assinou o Scrapbook da LER de Verão, uma coluna onde se pretende cruzar o trivial com o essencial, sem nunca ultrapassar os 1200 caracteres. Ora (re)leiam:

CMA: Vamos Comprar um Poeta é uma novela distópica ou realista?
AC: Não são sinónimos?

CMA: Gostaria que este livro fosse lido por quem?
AC: Por toda a gente, claro. Há sempre a legítima esperança de chegar a pessoas que sabem ler, mas que (ainda) não são leitoras. Por vezes faz-se alguma confusão entre uma coisa e outra. Aprender a ler é um trabalho mais ou menos confinado no tempo, mas ser leitor é um trabalho eterno. É sempre possível interpretar melhor, é um processo inesgotável.
A cultura tem um papel muito importante a todos os níveis, ontologicamente e teleologicamente, por isso espero que nunca seja demais sublinhar isso. Tenho pena de que, por vezes, os próprios agentes culturais desprezem a profundidade que lhe é inerente e digam coisas como «a ficção é um escape para uma realidade difícil». Acho que é muito mais do que isso. A ficção constrói toda a realidade. Todo o futuro humano depende dela.

CMA: Quando usou a palavra «debalde», imaginou-a meio cheia ou meio vazia?
AC: No contexto, vazia. Mas acredito que terá a sua ressurreição, enquanto vocábulo em desuso, em relação a direitos humanos, democracia, justiça social.

(Mais sobre Vamos Comprar um Poeta aqui.) 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

RUDYARD KIPLING: ELEGÂNCIA E SABEDORIA


Publicada em 1902, pela Macmillan, a colectânea de contos Histórias Assim vai beber às narrativas mitológicas de explicação do mundo («Como apareceram os tatus», «Como se escreveu a primeira carta», «Como o leopardo arranjou as suas pintas»...), transmitidas oralmente por todas as culturas. Kipling encarna aqui a figura patriarcal do contador de histórias, deixando sobressair marcas de oralidade com forte cariz afetivo. Pelo recurso à repetição, ao comentário e ao vocativo «ó-Mais-que-tudo» («O my Best Beloved», no original), os contos ganham uma aura presencial íntima que influencia o pacto narrativo com o leitor.

Há uma razão para que tal aconteça. As primeiras três fábulas de Histórias Assim foram inventadas para a filha primogénita do casal Kipling, Josephine (Effie), que a cada reconto «exigia» ao pai a mais rigorosa reprodução da narrativa anterior, sem que uma vírgula fosse alterada. A menina morreu aos seis anos, vítima de pneumonia, e Rudyard Kipling recriou a magia do contador de histórias nos nove contos posteriores – doze, no total, um número perfeito e simbolicamente carregado. Essa típica exigência infantil da repetição explica o título do livro, Just So Stories, mais certeiro na tradução de Ana Saldanha (Histórias Assim Mesmo, Caminho, 1999), onde o uso adverbial de «mesmo» enfatiza a procura de exatidão e de fidelidade. 

Dito isto, há que elogiar a força da tradução literária desta nova edição ilustrada, um trabalho de Ana Mafalda Tello/João Quina Edições que preserva a elegância minuciosa da escrita de Kipling, a sua musicalidade e sua extraordinária riqueza vocabular. Não é todos os dias que um livro para crianças nos obriga a consultar o dicionário, mas talvez este não seja bem um livro para crianças. Não existe uma retórica moralista e universalizante nestas histórias, e os seus desfechos inesperados são prova disso. Situadas nos quatro cantos do mundo, da Austrália à Amazónia; atravessando os mares, os desertos e as savanas, transportam-nos para um tempo mítico em que tudo era possível – nem sempre a contento de todos, mas sempre explicável. 

Histórias Assim
Rudyard Kipling
Sébastien Pelon (ilust.)
Bertrand/Círculo de Leitores


(Texto publicado na revista LER nº 143, secção Leituras Miúdas. Sobre Os Livros da Selva, recentemente reeditados num só volume pela Relógio d'Água, ler aqui.)

terça-feira, 27 de setembro de 2016

PEDIMOS DESCULPA PELA INTERRUPÇÃO


«Pedimos desculpa pela interrupção. O programa segue dentro de momentos.» Era assim que se dizia no tempo da outra senhora, quando a televisão era a preto e branco e os telejornais duravam, se bem me lembro, talvez uma meia hora. Agora, a grande obsessão é não interromper o directo, não parar para pensar, não rever a matéria dada. Tudo isto só para dizer que nesta semana e na próxima estarei praticamente ausente do Facebook, blogue e telemóvel, impondo-me uma disciplina estóica e espartana. Tem de ser. Porquê? «Por motivos de força maior», evidentemente. Até já!

domingo, 25 de setembro de 2016

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 25


   «Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.
   Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.»

Clarice Lispector, A Hora da Estrela, ed. Relógio d'Água, 2002. Originalmente publicado em 1977.

(Ver todos da etiqueta "O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO na «nuvem» ou aqui)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

COMECEI A DESENHAR PORQUE ERA MÁ ALUNA



Entrevista a Jutta Bauer (com respostas em inglês e legendas em espanhol), Prémio Hans Christian Andersen de Ilustração 2010, que estará este fim-de-semana no Festival Folio, em Óbidos (programa aqui).

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

MARIA TERESA ANDRUETTO EM ENTREVISTA À BLIMUNDA




A argentina Maria Teresa Andruetto, senhora de um profundo e originalíssimo pensamento sobre a escrita e a leitura, foi a jóia da coroa das Palavras Andarilhas deste ano, em Beja. Falámos dela na sequência da atribuição do Prémio Hans Christian 2012 de Literatura, aqui. A Andreia Brites entrevistou-a para a Blimunda de Setembro, que pode ser lida ou descarregada aqui. Copiei três perguntas/respostas para o Jardim Assombrado e permiti-me aplicar uns sublinhados em alguns pontos (em itálico):

AB: Que balanço faz destes últimos trinta anos ao nível da formação leitora na Argentina?
MTA: Desde 1984, quando comecei a trabalhar nesta área, até ao presente houve um desenvolvimento muito grande na formação leitora de professores na Argentina. Também houve um crescimento muito grande da literatura para crianças. Claro que se edita muita porcaria também mas há mais editoras e mais qualidade nos escritores e nos ilustradores e um trabalho maior por parte da crítica. Sobretudo há uma muito maior formação de professores leitores. Há que ver isto de um modo particular: quando digo mais formação estou a pensar em mais inclusão. É muito importante esta diferença: mais quantidade de professores que se formam, maior quantidade de crianças que acedem à leitura nas escolas, porque se trata de escolas públicas. Antes havia uma grande diferença entre algumas escolas privadas, urbanas, de grandes cidades e as escolas públicas de aldeias pequenas e isso mudou. Há muito por fazer, todavia. Há muito para crescer. Temos um governo novo, desde dezembro passado, e não estamos no melhor momento. As pessoas estão a reclamar porque foram suspensos muitos projetos de desenvolvimento cultural, nomeadamente as compras estatais de livros para as escolas públicas de todo o país. Nos últimos dez anos compraram-se 90 milhões de exemplares de livros para as escolas públicas.

AB: E quem escolhe os livros para comprar?
MTA: Em 2008 houve uma mudança que me parece muito importante. Se há uma equipa de cinco pessoas, por mais que sejam excelentes, a selecionar compras milionárias há muita pressão das editoras. Então, em 2008 as pessoas que integravam as equipas de compras de livros passaram a ser à razão de duas ou três por província, professores do secundário e politécnico nomeados para uma comissão de dois meses para ler os livros, com um contrato de confidencialidade para não divulgarem a sua identidade. No total eram 70 pessoas. Isso parece-me que tornou a seleção mais diversificada, não tão urbana, não tão de Buenos Aires, com outras perspetivas e é muito mais difícil encontrar uma maneira de subornar 70 pessoas do que quatro ou cinco. Isso por um lado. Por outro lado, tudo o que se comprou desde 2008 foi para todas as escolas do país, ou seja, uma escola rural na Patagónia recebe o mesmo número de caixas que uma escola de um bairro da capital.

AB: Foi distinguida com o Prémio Hans Christian Andersen, em 2012, o maior na área da literatura infantil e juvenil. No discurso de entrega do prémio terminou dizendo não conseguir, então, compreender o seu alcance. Hoje já conseguiu?
MTA: Às vezes parece que não aconteceu. Hoje reconheço que o prémio me trouxe muitas coisas. Esse foi o alcance que não previ: talvez não estivesse aqui, não tivesse ido a tantos lugares onde me convidaram se não tivesse os meus livros traduzidos em línguas que nunca tinha imaginado. Nesse aspeto houve mudanças mas na minha relação mais profunda com a escrita não, nem tão-pouco com a minha vida pessoal. Talvez porque já tinha uns bons anos. Também porque na América-Latina já tinha muitos leitores e disso estou muito orgulhosa. Comecei a ser conhecida da periferia para o centro. Primeiro na minha cidade, onde agora há muitas editoras mas na altura não. Comecei a publicar em 1993 e em 2003, passados dez anos, descobri que tinha mais leitores do que pensava. Porquê o orgulho? Porque acredito que o escritor constrói os seus leitores, que constrói o tipo de leitores que quer para os seus livros. Nos primeiros dez anos vendia muito pouco. Ganhava prémios mas os editores reclamavam. Stefano chegou a ser devolvido porque não se vendia. As escolas rejeitavam-no porque ali também foi preciso mudar a condição leitora dos professores. Aí começaram a tolerar questões mais complexas. Bom, fui crescendo com os meus leitores e os meus leitores foram crescendo com os meus livros. Quando o Andersen chegou fiquei muito surpreendida porque nunca imaginei ganhar. Quando fui nomeada pela Argentina comemorei, porque, isso sim, considerei um prémio. Comemorei em família e tudo. O prémio não o esperava. Mas agradeço-o, como agradeço tantas outras coisas que a vida me deu.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

AUDÁCIA E SANGUE-FRIO


Sempre que me pedem uma lista dos livros da minha infância, este não pode faltar: Sandokan - Os Mistérios da Floresta Negra, de Emilio Salgari, uma edição Europa-América traduzida por J. Ferreira a partir do texto integral da terceira edição italiana (publicada em 1903, segundo a nota do editor Francisco Lyon de Castro). Reeencontrei-o há pouco numa feira do livro, a bom preço e em óptimo estado. Fiquei muito admirada quando o li pela primeira vez e não achei o nome de Sandokan nem de Lady Marianne, mas de uma outra dupla romântica e fatal: Tremal-Naik e Ada Corishant, «a virgem do Pagode». Este epíteto causava-me uma grande perplexidade, confesso. «Pagode», ou «estar no pagode», é uma expressão muito usada no Norte, referindo-se às crianças quando estão na brincadeira. Agora, «virgem do Pagode» era muito à frente para os meus escassos oito ou nove anos; só muito mais tarde percebi o que queria dizer. Desta leitura tão marcante resultou também a curiosidade pela deusa Kali e pelas misteriosas Sunderbunds; o arrepio de palavras tão estranhas como «bangaló», «sipaios», «faquir» «brâmanes», «rupias», «tugues», «inexoráveis» e tantas outras; e ainda um fascínio por braceletes como os que envolvem os braços da suavíssima Ada. Ofereçam-me braceletes e juro que me atiro aos tigres com audácia e sangue-frio.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

ATELIER PARA CRIANÇAS COM ANA MOURATO


O Jardim Assombrado é fã do espaço Anagrama - Oficina do Sonhos, um lugar onde se põem ideias a mexer e pessoas a partilhar as coisas boas do mundo, livros e não só. Para estarem a par das actividades, o melhor é seguirem a página no Facebook. No próximo sábado vai lá estar Ana Mourato, psicóloga que dinamiza, desde 2005, projectos que envolvem a literatura para a infância e a psicologia do desenvolvimento, destinando-se a crianças e a adultos. Foi uma das convidadas deste ano das Palavras Andarilhas. Desta vez, o atelier é destinado a crianças dos 4 aos 10 anos e começa às 10h30 (cliquem na imagem para ler melhor). O espaço Anagrama fica na Av. de Berlim, 35C, por baixo de umas arcadas (a melhor referência geográfica que consigo dar é aquele restaurante chinês antiquíssimo, situado do outro lado da avenida). E não duvidem: a Ana Mourato é grande!

Inscrições: anagrama.oficinadesonhos@gmail.com/211966088

terça-feira, 13 de setembro de 2016

MESTRE DAHL NASCEU HÁ CEM ANOS




Odiado por uns, amado pela maioria, Roald Dahl nasceu há cem anos, no dia 13 de Setembro de 1916, em Cardiff. Autor de dezenas de short stories adaptadas para as séries de televisão Contos do Imprevisto e Hitchcock Apresenta, foi como escritor de literatura para crianças que se distinguiu, em parceria com o ilustrador Quentin Blake.

Só na década que precedeu a sua morte, a 23 de Novembro de 1990, venderam-se onze milhões de livros do escritor que um número indeterminado de professores, bibliotecários e críticos classificou como «não recomendável». Depois de morrer, em Oxford, aos 74 anos, feito o diagnóstico de leucemia e uma vida inteira de dedicação aos cigarros, álcool e analgésicos, Roald Dahl continuou – até hoje – a suscitar as mais antagónicas reacções.

Nos Estados Unidos, país onde se estreou literariamente com uma narrativa de não-ficção sobre a sua experiência como piloto da RAF (publicada na Saturday Evening Post, em 1942), Dahl é agora irreconciliável com os tempos do politicamente correcto. O seu humor selvático, sustentado numa predisposição intrínseca para a ironia e para o grotesco, atinge especialmente os personagens de adultos, muitas vezes retratados como bárbaros estúpidos e capazes das maiores vilanias contra os mais fracos. Veja-se o casal de Os Tontos (The Twits), Mrs. Trunchbull, a directora de escola em Matilde (Matilda), ou esse desfile de horrores carnavalescos que é As Bruxas (The Witches), uma das suas obras mais polémicas.

A enredos de estrutura transparente, consistindo no reavivar da luta mítica do herói contra o Mal, Roald Dahl acrescentou a singularidade da sua imaginação e a sua memória obsessiva (e o bom trabalho dos seus editores, justiça lhes seja feita). Nos seus livros não há sentimentalismos, mas há afectos e emoções intensas. Nascido em Cardiff, no País de Gales, de pais noruegueses, «vinha de uma família de bons cozinheiros e bons contadores de histórias», como lembra um dos seus biógrafos, Jeremy Treglown. A mãe foi, segundo o próprio, «a primeira influência», ampliada pelo desaparecimento prematuro do pai e de uma irmã, quando ele tinha apenas três anos.

Repetindo o padrão familiar, uma série de acontecimentos trágicos acompanharia a vida pessoal de Roald Dahl, ao longo dos trinta anos conturbados de casamento com a actriz Patricia Neal. Também a experiência dos colégios internos ingleses, com os seus castigos sádicos e permanente clima de bullying, lhe deixou marcas indeléveis. No entanto, muitos dos seus heróis e heroínas – quase sempre crianças – são animados por um espírito combativo e industrioso, expurgado do narcisismo e arrogância de que o autor era acusado, entre outros defeitos. O «gigante amigo», citando um dos seus livros mais felizes, O GAG (The BFG), podia não ter o melhor feitio e carácter do mundo, mas deixou-nos grandes livros, à imagem dos seus quase dois metros de altura.


(Não costumo reeditar textos no blogue, mas creio que este se justifica. Saiu na edição nº 96 da LER, em Novembro de 2010.)

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O REGRESSO DE BEATRIX POTTER



Se excluirmos o merchandising e algumas adaptações simplificadas, como é a tendência editorial das últimas décadas (o caso de Enid Blyton é um dos mais visíveis e desgostantes), há muito tempo que Beatrix Potter andava sumida dos escaparates. A coleção Pedrito Coelho, publicada pela Verbo no início da década de 1990, é quase uma relíquia; já fazia falta uma edição que preenchesse esse vazio de forma sistemática.

Até ao final de 2016, a Pim! Edições, chancela resultante da parceria Europress/Ponto de Fuga, vai publicar mais três volumes dos contos de Beatrix Potter (1866-1943), aproveitando o embalo das comemorações dos 150 anos do seu nascimento. O primeiro tomo saiu neste verão, contando com seis das 23 histórias de animais antropomorfizados, tal como foram lidas entre 1902 e 1930. Não é um trabalho feito ao acaso. À nova tradução de Eugénia Antunes e Paulo Rêgo soma-se o cuidado posto na opção por capa flexível e formato reduzido, a pensar nas «mãos pequenas» das crianças, como desde o início pretendeu a autora.

A tradução dos textos canónicos da literatura para a infância é uma questão inesgotável, pelo menos enquanto houver clássicos a entrar no domínio público e, logo, a possibilitar várias versões do mesmo texto. Resta saber que leitores beneficiam com essas versões reescritas por outros autores, a partir do momento em que o texto original é cortado e simplificado, quer na sua estrutura sintática e vocabular, quem nas suas crescentes camadas de interpretação. 

(...)

[Mais na próxima edição da LER, que deve estar quase, quase aí a chegar...]

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

CITY-BREAKS: OVAR


E já estamos de abalada para o II Festival Literário de Ovar, que este ano tem muitas coisinhas boas (como diria o Bruno Nogueira) para quem gosta da literatura para os mais novos. Para consultar o programa ou ler uma síntese, veja-se o post anterior. Darei conta do que se vai passando na minha página do Facebook, mais prático e rápido do que o blogger-comboio-de-torresmos. Au revoir!

(A fotografia é da edição do ano passado, com o Carlos Nuno Granja, bem-disposto organizador e anfitrião.)

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

2º FESTIVAL LITERÁRIO DE OVAR


Começou ontem e prolonga-se até domingo, com uma programação especialmente interessante para quem gosta de literatura infantojuvenil. No sábado de manhã (11h00), José Fanha encontra-se com Cidália Fernandes para debater o tema «A literatura para a infância: o primeiro impulso para a literacia». A moderação é da jornalista Rita Pimenta. À tarde (15h00), com moderação de Ivo Machado, conversa-se sobre poesia: Rita Taborda Duarte, Maria João Cantinho e Cláudia Lucas Chéu («A poesia: misto de realidade e fantasia»). No domingo de manhã (11h00), Manuela Castro Neves e João Pedro Mésseder conversam sobre «A escrita poética na criação de novos leitores», numa mesa moderada por Ana Margarida Ramos. Pelo meio, sempre no Jardim Cáster, há apresentações de livros e workshops de ilustração com Rachel Caiano e Cátia Vidinhas. A fechar o domingo, lá estarei para moderar o último debate, às 17h00, com os escritores Ana Margarida de Carvalho, Possidónio Cachapa e Pedro-Guilherme Moreira. A pergunta que vai estar em cima da mesa: «Como se defende o autor dos lados obscuros da trama?». A programação completa está aqui.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

ACEITAR QUE NÃO VEMOS, SÓ TATEAMOS


«Não consigo separar a sabedoria do amor; a sabedoria é uma inteligência, uma ciência, uma arte, mas é tudo isso como uma forma de amar. Quando pensamos na grande sabedoria, pensamos naqueles que, vivendo a grande depuração que o tempo opera em cada um de nós, são capazes de conservar uma inocência, uma pureza, um afeto. É sempre necessária uma porção muito grande de amor para chegar à sabedoria.

S. Paulo, no momento da conversão, ficou cego para começar a ver. A cegueira é uma metáfora de uma outra visão. É necessário um apagamento, um corte. Quer a experiência da tradução quer a da criação literária nasce de um corte primordial, que é muitas vezes a contemplação do mundo, o espanto perante o real. Esse corte obriga-me a ver as coisas de outra forma. Há que apagar o modo imediato, comum, mais óbvio e aceitar a escuridão, aceitar que não vemos, só tateamos.»

(Da maravilhosa intervenção de José Tolentino Mendonça na recente Festa do Livro em Belém. Para ler na íntegra na Pastoral da Cultura.)

terça-feira, 6 de setembro de 2016

O AR E OS SONHOS


«Foi ela quem fez as malas. Foi ela quem escolheu ir. E escolher já é metade do movimento, é aragem.» As ilustrações sempre elegantes de Fátima Afonso, premiadas com uma menção honrosa do VII Prémio Internacional de Compostela para Álbuns Ilustrados, dão corpo a uma prosa poética que metaforiza o tema da viagem, do movimento e da liberdade. 

Sonho com Asas
Teresa Marques
Fátima Afonso (ilust.)
Kalandraka 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

CADA VEZ MAIOR


«Certa manhã, ao acordar, o Samuel deu por si na cama transformado num gigantesco hipopótamo.» Se este começo faz lembrar A Metamorfose, não é por acaso. Uma paródia genial ao mestre Kafka, recriando a estranheza e as dores do crescimento.


Tão Tão Grande
Catarina Sobral
Orfeu Negro

domingo, 4 de setembro de 2016

SIZA VIEIRA, O BICHO-ARQUITECTO


E vão onze. Este já estava escrito há algum tempo e a aguardar calendário para publicação. É uma biografia para os mais novos de Álvaro Siza Vieira, que completou 83 anos neste Verão, inserida na colecção «Chamo-me...» (Didáctica Editora) e com ilustrações de João Concha. Escrevi-a com um certo peso na consciência por não perceber nada de arquitectura, mas entre os nomes biografáveis tinha mesmo que escolher alguém de Matosinhos. Começa assim:  

«Sabes o que é um arquitecto? Se fores procurar o significado da palavra ao dicionário (eu sei que sabes, mas procura na mesma) vais poder ler, por exemplo, que um arquitecto é alguém «que projecta ou dirige construções de edifícios». OK, até aqui é fácil. Começas logo a pensar em cidades, casas, fábricas, estádios de futebol, centros comerciais e esse género de lugares por onde passa sempre muita gente. Inclusive tu. Mas logo a seguir o mesmo dicionário diz que um arquitecto «é o que projecta ou idealiza qualquer coisa». Hum… Parece mais interessante.

Projectar ou idealizar quer dizer dar forma concreta a uma ideia que passa pela nossa cabeça e fica lá o tempo suficiente para não ser varrida por outra ideia qualquer. Portanto, se calhar, todos podemos ser arquitectos à nossa maneira, já que todos sabemos usar a cabeça, certo?

Lembras-te de quando eras muito pequeno e tentavas encavalitar cubos de madeira uns nos outros? Não? Espera lá, talvez os cubos de madeira não sejam brinquedos do teu tempo… Mas lembras-te, com certeza, das construções de legos. Ora aí está! Podemos ser arquitectos de brinquedos. E já viste alguém bater claras de ovo em castelo até elas ficarem completamente brancas e tão leves como bocados soltos de nuvens? Pronto, é isso. Também podemos ser arquitectos de bolos.

Agora vou dizer-te uma coisa que talvez te deixe surpreendido, mas juro-te que está escrita no meu dicionário. É incrível, mas aqui diz que um arquitecto pode ser «Deus». Hã?! Como é que é isso? Um «arquitecto» pode ser sinónimo de «Deus»? Hum… Isto parece ainda mais interessante. Quer dizer que, no fundo, um arquitecto é um criador. Bom, eu prometo-te que vamos voltar a este assunto, mas, para já, há algumas coisas que te quero contar sobre mim.»

terça-feira, 23 de agosto de 2016

UMA ESPÉCIE DE PARAÍSO




-->A 3 de Julho de 1946, era inaugurada a primeira exposição internacional de livros para crianças, que estaria na base da construção de um projecto maior: a Biblioteca Internacional da Juventude, sediada em Munique. A ideia partiu de Jella Lepman, alemã de origem judia que fugiu ao regime hitleriano para se exilar voluntariamente em Londres. Terminada a guerra, regressou ao país a convite do exército dos Estados Unidos, uma das potências ocupantes. Na Blimunda de Agosto conto um pouco desta história que tem tanto de pessoal como de universal. Talvez por isso tenha funcionado tão bem. Um excerto do artigo:
 
«Talvez esse sentimento de não-pertença tenha contribuído para fazer emergir uma visão de futuro, assente num idealismo com os pés na terra. Podemos apenas especular. Porém, o desejo [de Jella Lepman] foi formulado sobre alicerces bem concretos: que a literatura infantojuvenil pudesse ser um território comum para todas essas crianças das ruínas, ávidas de comida e, nas suas próprias palavras, de «alimento espiritual». O alcance visionário desta ideia consistiu em imaginar que os livros pudessem chegar de todas as partes do mundo e ser uma ponte entre as muitas culturas da infância. Ainda hoje é assim.»

(A revista Blimunda, editada pela Fundação José Saramago, pode ser lida aqui, em versão online ou para download. «Biblioteca Internacional da Juventude - Uma espécie de Paraíso» começa na página 45.» Copyright das fotografias: Biblioteca Internacional da Juventude.)