domingo, 25 de janeiro de 2015

O ARTISTA: UMA DEFINIÇÃO


«Encontrava-se exactamente onde tinha iniciado a viagem. E aqui ocorreu-lhe, não tendo herdeiros, ou amados, que estava sozinho. E que tinha de ser o seu próprio filho e o seu próprio pai e o seu próprio companheiro. Amar e elevar-se a si próprio como um deus se imprime contra o azul e se forma a partir do fogo.»

(Patti Smith sobre Robert Mapplethorpe, in O Mar de Coral, (não) edições. Momento de leituras de um não-lançamento, ontem, na Igreja Anglicana de Lisboa. Fotografia de Tânia Raposo)

sábado, 24 de janeiro de 2015

THE COAL BLACK SEA WAITS FOREVER



Well the coal black sea waits for me me me
The coal black sea waits forever
The waves hit the shore
Crying more more more
But the coal black sea waits forever

The tornados come up the coast they run
Hurricanes rip the sky forever
Through the weathers change
the sea remains the same
The coal black sea waits forever

There are ashes split through collective guilt
People rest at sea forever
Since they burnt you up
Collect you in a cup
For you the coal black sea has no terror

Will your ashes float like some foreign boat
or will they sink absorbed forever
Will the Atlantic Coast
have its final boast
Nothing else contained you ever

Now the coal black sea waits for me me me
The coal black sea waits forever
When I leave this joint
at some further point
The same coal black sea will it be waiting

(Lou Reed, «Cremation», do álbum Magic and Loss, 1992) 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

SETE PALMOS DE MAR


Depois do velhinho Witt (1973), publicado pela Assírio & Alvim na Colecção Rei Lagarto, eis que chega um novo livro de poesia de Patti Smith, O Mar de Coral, dedicado ao companheiro e amigo Robert Mapplethorpe, falecido em Março de 1989 (saber mais aqui). O lançamento é amanhã e o local não podia ser mais digno: a Igreja Anglicana de St. George, em Lisboa. Uma edição da (não) edições. Sim, isso mesmo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O QUE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA TEM EM COMUM COM PATTI SMITH, 2


Patti Smith explica o Cântico dos Cânticos

Deitamo-nos juntos na noite ilegal
trespassados por faíscas de prata

Talvez fôssemos sem saber nessa hora
a senha aguardada por mundos futuros
Talvez desvendássemos um centro para as rosas
e agora é de lá que partem os comboios
a decidir o curso dos impérios

Pouco importa que tenha chegado a aurora
aos bares que cumprem o horário nocturno
e o cheiro dos desinfectantes mostre
como se apagam
os vestígios do amor


José Tolentino Mendonça, in Estação Central

O QUE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA TEM EM COMUM COM PATTI SMITH, 1


«O trabalho de um artista é sempre um trabalho espiritual porque remete para a procura da verdade. A arte e a fé são matérias comuns, remetem para a procura, a interrogação e para a abertura radical ao outro. O próprio sentido de transcendência, mesmo que não explicitado, está sempre presente no trabalho do artista. Essa espécie de estaleiro da transcendência, de grande atelier da transcendência, é uma coisa que faz existir uma proximidade muito grande entre a fé e a arte.»

Conferir no post «Goddess Patti». A entrevista completa a Catarina Carvalho, publicada no Diário de Notícias, pode ser lida aqui. Fotografia de Paulo Spranger.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

ANIMAIS BESTIAIS


Com uma nova tradução do grande Tomi Ungerer em mãos, sinto-me grata por contribuir para a reabilitação de espécies animais pouco populares nos livros para crianças. A seu tempo, o polvo Emílio irá juntar-se à jibóia Crictor e ao canguru fêmea Adelaide, todos protegidos pela chancela da Kalandraka. Capas e minibiografia de Tomi Ungerer (França, 1931), um dos últimos dos moicanos, aqui mesmo

domingo, 18 de janeiro de 2015

DESMENTIDO


Entre as dezenas de livros que costumo levar para as formações está Samuel e Saltitão (Caminho), de Margaret Wild e Freya Blackwood, vencedor do prémio Kate Greenaway 2010. Ninguém lhe fica indiferente. Trata da perda e do luto de um animal de estimação, tema tanto mais difícil de partilhar quanto mais se esconde na noite de seda que envolve o nosso coração. De vez em quando surgem livros assim, capazes de cerzir as partes inconjuntas de que é feito o nosso corpo emocional. Andamos sempre à procura da linguagem que nos permita comunicar o incomunicável; e é também para isso que temos a arte e a literatura. Por isso, o que escrevi aqui, questionando a «plausível inutilidade da arte e da literatura em geral», não é só uma mentira. É uma mentira perigosa, estéril e inútil; e parte do nosso desamparo individual e colectivo advém do facto de nos tentarem convencer disso, constantemente.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

MORTALIDADE, MORALIDADE


Tenho três gatos. Já aqui escrevi sobre eles, várias vezes, e sobre animais em geral. Gosto de animais porque gosto da Natureza; não gosto de todas as pessoas, nem todas as pessoas gostam de mim, porque há demasiadas comparações e juízos nesse conjunto de forças individuais e sociais a que se chama Cultura. Refiro-me à dicotomia antropológica Natureza e Cultura, evidentemente. Mas não interessa, para o caso. Tenho três gatos (ou «eles é que me têm a mim», como dizia Agostinho da Silva) e em breve vou ter apenas dois; e quando digo «em breve» quero mesmo dizer dentro de dias ou de horas. Depende de uma decisão que parte da minhas emoções e termina na moralidade, no meu sistema de valores. É sempre assim. Todas as formas de sofrimento, físico ou psicológico (para o cérebro, a leitura é semelhante, explicam as neurociências), acabam por interrogar a nossa humanidade, a nossa consciência. Isto, se não formos uns brutos ou psicopatas. Devo prolongar a vida dele por mais alguns dias, correndo o risco de repetir o sofrimento intenso e repentino pelo qual passou? Devo partilhar a dor da perda iminente com mais alguém, sabendo que nenhum dos meus amigos tem, neste momento, uma vida fácil? Como enfrentar a provação que será devolver o seu corpo à terra e à Natureza? São questões que merecem tempo, sabendo de antemão que o «dever», o «sentir» e o «reflectir» nem sempre estão de acordo quando se trata de chegar ao inevitável: decidir.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

ALL THE CREATURES GREAT AND SMALL


«Há nos humanos um desequilíbrio congénito que se exprime numa insatisfação que não é constante mas é frequente.
Ora, não sucede isto com os animais. Se os alimentarmos, se lhes dermos abrigo, espaço e companhia, se lhes cuidarmos da saúde, se os amarmos, eles são felizes, esfusiantemente felizes, sempre. A infelicidade é a excepção na vida dos animais amados, e não, como no caso dos humanos, a regra. Isto quer dizer que nós, que partilhamos a experiência irreversível do gosto pelos animais, conseguimos por vezes trazer a felicidade absoluta a algumas criaturas deste planeta.»

("in" Ouro e Cinza, Paulo Varela Gomes, ed. Tinta-da-China)

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

SINÓNIMOS PARA A 'CRIANÇA INTERIOR'


Estamos em contagem decrescente para o colóquio que acontecerá na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, dias 9 e 10 de Fevereiro, comissariado pela jornalista Inês Fonseca Santos e denominado É então isto para crianças? - Criações para a Infância e a Juventude

Desde o colóquio Formar Leitores para Ler o Mundo, também na Gulbenkian, em 2009, não surgia nada tão estimulante. A aproximação a um tema tão vasto parte de um ângulo menos óbvio e com uma forte tónica subjectiva, posto que a questão se coloca do lado de quem pensa e faz o objecto criativo: escritores, ilustradores, músicos, coreógrafos, realizadores, editores e outros agentes, em alguns casos «agentes duplos» ou mesmo «triplos» (Afonso Cruz, João Paulo Cotrim, Regina Pessoa...). E eis então a pergunta que importa interrogar: «o que é afinal uma criação para a infância? Cria-se para ou será que o que é criado encontra naturalmente, na sua fase final e última, aquele a quem se destina?» 

Como moderadora do primeiro debate, «É então isto um livro?», onde vão estar Catarina Sobral, João Fazenda, Francisco Vaz da Silva e Davide Cali, interessa-me muito reflectir sobre os mecanismos conscientes e insconscientes que ligam o criador à coisa criada, partindo desse lugar de potencialidade pura em que tudo é possível: a infância. Tudo é possível porque tudo está no princípio, longe da morte. Atravessar esse estado de máxima confiança e máxima vulnerabilidade não é tarefa fácil; muitos sucumbem pelo caminho, construindo egos postiços que lhes hão de servir pela vida fora, no trabalho, nos casamentos, em frente ao espelho.

Leio Bachelard, Jung, Joseph Campbell, Marie-Louise von Franz, Ursula K. Le Guin, Alice Miller, Erik Erikson e outros pensadores que estudaram a «criança interior», um conceito psicológico não erudito, infelizmente degradado pela força do uso e abuso na praça pública, mas que me parece indissociável deste debate. Ando à procura de sinónimos para falar na tal «criança interior» sem arrepelar os neurónios do público nem fazer de conta que se ouvem sininhos no palco do auditório da Gulbenkian. Não é fácil, mas lá chegarei.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O AMOR SEM DONO



O mapa

aprendido num salmo sufi

Para os teus discípulos não há heresia
nem ortodoxia
Todos podem contemplar sem véus
a verdade que vem de ti

Insista o herético na sua heresia
e o ortodoxo na sua ortodoxia

O teu fiel é mercador de perfumes
em busca de essência de rosas
do amor divino
eu deambulo


José Tolentino Mendonça, in Estação Central
Fotografia de Nacho Doce (1998)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

ADEUS, DODÓ


Querido 2014: começaste mal, continuaste pior, mas acabas bem (embora todos os noticiários o desmintam). É isso que te safa. Isso e os «momentos especiais» do ano que o Facebook seleccionou aleatoriamente, admito que com extremo bom gosto. E houve mais, muitos mais, mas tu não ficaste a saber. Dos outros, nem falar. Pira-te depressinha e, já agora, põe o lixo lá fora. Não te esqueças de fechar bem o saco. Many thanks.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

DEAR PATTI


Patti Smith faz hoje 68 anos. Há um certo conforto em envelhecer com os nossos heróis, aqueles que tiveram a arte de roubar o fogo aos deuses sem se autoimolarem no altar das oferendas (Ian Curtis, Janis Joplin, Kurt Cobain, Amy Winehouse). Contrariando o aforismo grego, «morrem cedo aqueles que os deuses amam», Patti foi sempre fiel à vida e atravessou os seus tumultosos abismos com uma dignidade de princesa. Estas fotografias ilustram-no: de donzela dos infernos a velha sábia, reconhece-se aqui a inteireza de um espírito clarividente e perene, enraizado na força do rock'n'roll. Nas entranhas do dragão esconde-se uma pérola, rezam os mitos. Ela regressou para contar como foi.

Mais sobre Patti Smith n'O Jardim Assombrado: May Your Path Be Your Own, Rock'n'Roll Nigger, Goddess Patti.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

«NÃO PODE SER SÓ ISTO»


É uma pena que a entrevista ao padre e poeta José Tolentino Mendonça, conduzida pela jornalista Anabela Mota Ribeiro e publicada no Jornal de Negócios de 24 de Dezembro, não possa ser lida na íntegra urbi et orbi. Foi uma óptima companhia na viagem de comboio Lisboa-Porto e continuará depois disso. Partilho aqui alguns sublinhados:


«As nossas sociedades são extenuantes nos ritmos que pedem. É sempre para lá das margens. Perdemos o sentido dos limites. Não é só em termos do espaço, com a disseminação dos "open spaces". Também com os telemóveis, e as comunicações, estamos sempre ligados.»

«Deixámos de ter tempo para nós próprios, para a gratuitidade dos gestos. Deixámos de ter tempo para uma conversa. Em vez de ouvirmos palavras, ou frases, apenas ouvimos sílabas, rumores, que já não são nada. Isso implica uma diminuição da nossa qualidade de vida.»

«Cada vez mais um de nós tem de levantar a mão, e tem de esbracejar. Temos de ouvir os poetas quando dizem:"Não pode ser só isto". Um grande manifesto político seria dizer: "Não pode ser só isto."»

«A questão é se estamos a pensar na sobrevivência ou se estamos entretidos com a sobrevivência. Sobrevivemos para alguma coisa. A sobrevivência não é a finalidade da própria vida, é um meio para a construção de outra coisa. Vivemos para quê? É esse tipo de abertura que é necessário rasgar.»

«Também digo que o corpo é a língua materna de Deus.»

«Os distúrbios permitem-nos tomar consciência do sítio onde estamos. As crises são máquinas de consciência, de intensificar a nossa atenção aos próprios processos, àquilo que estamos a viver. Senão, caímos num automatismo muito grande.»

«Muitas vezes, o que a nossa casa precisa é que abramos a janela, em vez de estarmos exasperadamente a introduzir um novo purificador do ar. Precisamos de uma boa corrente de ar. E isso é uma metáfora para a própria vida.»

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

ESPÍRITO & REVOLUÇÃO


Duas sugestões de última hora n'O Jardim Assombrado, antes da pausa para recolhimento festivo, passe a contradição. Dois livros, duas gerações, duas autoras admiráveis: Sophia de Mello Breyner Andresen e Isabel Minhós Martins (A Fada Oriana está para Quando Eu Nasci como a minha infância está para um propósito de vida; a ambas infinitamente grata me confesso). Se A Noite de Natal (Porto Editora) significa reencontrar a protecção da Consoada e a «casa pintada de amarelo com um jardim à volta», na edição especial agora ilustrada por Jorge Nesbitt, Daqui Ninguém Passa! (Planeta Tangerina) incita-nos a avançar sem medo para 2015, depois de cingir os rins e enxugar os fígados. O trabalho de ilustração de Bernardo P. Carvalho é excepcional: Daqui Ninguém Passa! é mesmo a grande surpresa do final deste ano tramado, disseram-no mais cedo os blogues Cadeirão Voltaire, O Bicho dos Livros e Hipopótamos na Lua. «Espírito da revolução» ou «revolução do espírito», preparem-se para o melhor; nada menos do que isso. E Boas Festas (sempre)!

domingo, 21 de dezembro de 2014

SOLSTÍCIO DE INVERNO


Vieste vagante através da visão e da dor,
vieste dos meus mais escuros dias
e construíste até mim uma ponte
por sobre a culpa e a neve.

Sorridente e brandamente tu me guias,
e, sobre teu cabelo em coroa de ouro,
levas breves, leves, plumosos flocos
a morrer alegremente em primavera.


Rainer Maria Rilke, Primeiros Poemas - Advento (1898). Prefácio, selecção e tradução de Paulo Quintela, Atlântida Editora, Coimbra, 1967.

A MAIS SOLITÁRIA DAS LUTAS


«Quando se escreve temos de nos isolar dos outros, não podemos lembrar-nos de que eles existem, do que vão pensar do nosso trabalho, do que poderão dizer. Temos de ser completamente livres. Escrever tem de ser muitas vezes um acto imoral. Para o fazer é preciso ser independente e livre, e isso obriga a que de vez em quando se tenha de ir contra o social, que é o lugar da moral.»

Karl Ove Knausgard, autor de A Morte do Pai (Relógio d'Água), em entrevista a José Riço Direitinho no Ípsilon de sexta-feira.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

TRILOGIA DO INVISÍVEL


Tempus fugit. Não vou conseguir deixar um best of de 2014, mas antes de fazer as malas há que lembrar alguns (bons) livros que chegaram nas últimas semanas. Da Orfeu Negro veio O Escuro, com texto de Lemony Snicket (o mesmo de Uma Série de Desgraças) e ilustrações de Jon Klassen, admirável na sua arte de brincar com um dos nossos medos imortais. Da Kalandraka, chegou o vencedor do recente VII Prémio Internacional de Compostela para Álbuns Ilustrados, Ícaro, de Federico Delicado, narrativa de traço hiperrealista que mergulha no oniríco e na metaficção, com ecos de Franz Kafka e de Edward Hopper pairando sobre uma família-pássaro. Também próximo da temática familiar, O Regresso, da Bruaá, um álbum sem texto em que a autora, Natalia Chernysheva, evoca o sentimento nostálgico da infância recorrendo apenas à exploração das perspectivas, formas, cores e indícios olfactivos. Três livros unidos pela mesma capacidade de evocar, questionar e sugerir, como é próprio da literatura, e que por isso se recomendam a todas as idades.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

III CONCURSO LA ATREVIDA



No número 136 da revista LER, recém-chegado às bancas, escrevo sobre um projecto de amor em tempos de cólera: um concurso literário destinado a crianças e adolescentes entre os 8 e os 14 anos, sem condescendências nem pantominas, a julgar pela qualidade do júri e dos textos seleccionados. Já foram publicadas duas antologias e espera-se uma terceira. O prazo para a recepção dos originais em língua portuguesa foi prolongado até 30 de Janeiro (ver regulamento completo aqui). Excerto do meu artigo e de um texto sem paninhos quentes:

(...)

«Nesta segunda antologia, de 2014, a palavra «crise» continua presente. Outras: «escola», «trabalho», «bullying», «liberdade» e «LOL». As privações sociais e económicas atravessam muitos textos («Vida difícil», «Desapareceu o verbo trabalhar», «Uma moeda importante»), mas há abordagens mais lúdicas e fantasiosas, dotadas de humor surreal («Mundo ao contrário», «Os três porquinhos em Marte»). Há textos que impressionam pela brutalidade intrínseca dos temas («Sozinha», sobre a automutilação); e outros pela maturidade psicológica e literária, como o merecedor do segundo prémio, de amplas ressonâncias tchekovianas («A solução»). Os russos também não andam longe deste desassombrado retrato geracional («Ensaio sobre a maternidade»), de vocação contestatária e – porque não dizê-lo? – atrevida. A autora tinha então 14 anos:  

"Crescemos, uns de forma mais natural que outros, e chegamos àquela idade insuportável de cada projeto de vida, mais conhecido (sic) como a temível fase da ADOLESCÊNCIA (vale a pena salientar que sou uma dessas pestes em desenvolvimento...). Ficamos mais altos, mais sebosos, emanamos um imprestável odor pubescente, comemos que nem porcos, dormimos demais, ficamos mais idiotas do que nunca. Aqui, é a mãe que quer atirar o filho pela janela. E aqui surgem os maiores problemas: somos mais ou menos como os cães, “são mais giros quando são pequeninos”. Começamos a questionar e a ripostar tudo e algo mais, incluindo o trabalho a full-time das nossas queridas progenitoras. “Quando fores mãe, saberás”. Esperemos que isso não aconteça tão cedo."»

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

UM LOBO NA ARCÁDIA


«Poucas vezes a derrocada familiar é tratada com ternura», diz a crítica literária da revista Arcadia, que considerou Hermano Lobo um dos melhores livros editados na Colômbia em 2014. E lá está ele, incluído numa lista muitíssimo respeitável, apenas acompanhado pelo senhor Oliver Jeffers na categoria «Infantil» (leia-se «Infanto-Juvenil»). Grata ao meu tradutor para espanhol, Jerónimo Pizarro, à agência Bookoffice e aos pacientes editores Luis Rocca e Isabel Minhós Martins. Quem quiser ler o texto completo pode ver aqui, no blogue do Planeta Tangerina.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

ONDE MORAM AS CARLAS


A convite da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, de Torres Novas, fiz uma breve incursão a três escolas do Agrupamento Artur Gonçalves e do Agrupamento Manuel de Figueiredo, para rematar a leitura em sala de aula do Onde Moram as Casas. Tratando-se de alunos do 5º ano, era inevitável que o livro lhe parecesse «infantil», o que não impediu diálogos bastante animados a propósito de ideias transversais ao tema da «habitação recíproca»; e, sobretudo, de uma questão que actualmente me ocupa o espírito: mudar de casa. Do levantamento de opiniões efectuado, registei, no meu caderninho preto:

Coisas que levam a mudar de casa: 

- Estarmos fartos
- Ter vizinhos chatos
- Falta de ideias para novos livros
- Mudar de personalidade
- Conhecer alguém
- Falta de espaço
- Muito difícil de limpar
- Pouco dinheiro
- Ter mais um gato

... e coisas a ter em conta quando se muda de casa:

- Saber para onde vamos e o preço da casa
- Boa localização (por exemplo, ao pé de um supermercado)
- Um sítio onde nos sentimos bem
- Casa bonita e acolhedora
- Casa grande
- Ter um escritório para escrever
- Ter um quintal ou um jardim para nos inspirarmos
- Casa ao pé da praia
- Casa ao pé da floresta
- Casa longe da floresta, por causa dos fogos
- Casa ao pé de uma biblioteca
- Lugar tranquilo e sossegado, mas com pessoas ao pé, para o caso de desmaiar e ser preciso chamar o INEM

(Muito grata. Mais alguma sugestão?) 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

NÃO PISEM OS VULCÕES


Em 2015, a obra mais lida e traduzida da literatura francesa entra em domínio público numa série de países, incluindo Portugal. Prevê-se uma avalanche de traduções, versões e adaptações. Quantas maneiras haverá de desenhar uma ovelha?

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

BONS VÍCIOS


Aí estão os primeiros títulos de uma colecção dedicada aos clássicos, apropriadamente designada por Vício dos Livros, cuja imagem gráfica (da autoria do designer Pedro Aires Pinto) os torna, desde já, muitíssimo apetecíveis. Desconhecendo ainda as traduções, agora revistas pela editora Civilização, não é possível adiantar muito mais, a não ser isto: no mercado, encontram-se várias edições de A Ilha do Tesouro, As Aventuras de Tom Sawyer e O Apelo da Selva, mas o mesmo não se pode dizer de Anne of Green Gables (Anne dos Cabelos Ruivos), um clássico de 1908 escrito por Lucy Maud Montgomery que remete para o imaginário vitoriano dos «órfãos resilientes» como Oliver Twist ou Sara Crewe. A edição anterior de Anne of Green Gables, de 1972, foi então pacificamente traduzida por Anne e a Sua Aldeia (ver no catálogo da Biblioteca Nacional), em alusão à casa e à ilha do Canadá onde se situa a história, hoje transformado em atracção turística. Além disso, como é sabido, no imaginário tradicional os ruivos não são de confiança. Vamos ler.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

ELA TAMBÉM NÃO QUER USAR ÓCULOS


O francês Patrick Modiano, Prémio Nobel da Literatura 2014, tem pelo menos mais dois livros «para crianças», todos publicados entre 1986 e 1988. Desconhecendo-os, aplico as aspas por uma questão de cautela, já que muitos livros ditos «para crianças» encontram eco mais facilmente no leitor adulto, podendo agradar a ambos (ou não) e sem que daí advenha algum prejuízo da sua qualidade literária e artística. A ambiguidade do destinatário é uma questão complexa e nunca resolvida, portanto, passemos adiante. Serve este post para assinalar a tradução de Catherine Certitude (em português, A História de Catherine), nome invulgar para uma menina que tem o sonho bastante comum de tornar-se bailarina, mas precisa de tirar os óculos quando dança. Cria-se assim uma espécie de visão dividida da realidade, em que o mundo parece mais suave e perfeito num dos casos. Com ou sem os óculos? Não o vamos revelar aqui. O livro chega depois de amanhã às livrarias e será facilmente reconhecido pelas ilustrações de Jean-Jacques Sempé (esse mesmo, o do Menino Nicolau).

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O DUENDE IMAGINÁRIO


Desde os 13 ou 14 anos, idade em que comecei a poder comprar livros, mantive o bom hábito de rubricá-los e acrescentar a data e o local, no ensejo adolescente de afirmar uma identidade fortuita. Pergunto-me, agora, ao reencontrar essas folhas de rosto calcinadas pelo tempo: Onde estava? Com quem estava? Que emoções me acompanhavam? Que queriam dizer de mim aqueles sublinhados trémulos? Experimento uma hipótese de itinerário, de pertença, de memória pessoal, de constelações de interesses e de afinidades. Salvo-me do desaparecimento, da invisibilidade, da aterradora fragmentação do ser. Um dia, deixei de assinar os livros, acreditando que, mais tarde ou mais cedo, iria mudar de país; e talvez a minha modestíssima biblioteca fosse mais fácil de vender sem o meu nome aposto. Oh, estupidez das coisas começadas e interrompidas em nome de outras coisas que nunca acontecem! Afinal, continuo aqui. Os livros comigo, sempre fiéis, à espera. Entre nós perfilam-se anos perdidos em que não tive a coragem de os chamar meus nem de os libertar para outras mãos e outros nomes.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A EDUCAÇÃO QUE NÃO INTERESSA AOS MINISTÉRIOS


«A criança que cresce em ambientes emocionalmente inseguros, ameaçadores ou negligentes, sente uma ansiedade constante e perturbadora. Com o passar do tempo, a ansiedade adquire um caráter persecutório e a criança procura ativamente proteger-se da ameaça. Depois, consoante a idade, o temperamento e o nível de resiliência, irá fechar-se sobre si mesma ou exteriorizar essa ansiedade, que se transformará em negativismo e em perturbações comportamentais.

Os ambientes emocionalmente seguros não só constituem a base do equilíbrio emocional, como também são a força geradora do intelecto e da criatividade do ser humano, pelo que deveriam ser o primeiro e o mais importante direito fundamental da criança.»

(Educar as Emoções, de Amanda Céspedes, Editorial Presença)

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

PATOS AO MAR



Aproxima-se um fim-de-semana diluviano em Lisboa (e não é por causa destas chuvas torrenciais que nos deixam loucos), diz-nos a meteorologia da editora Pato Lógico. Sábado é dia do lançamento do livro a solo de António Jorge Gonçalves (Prémio Nacional de Ilustração 2014), Barriga da Baleia; domingo de manhã são os autores do livro de actividades Mar, Ricardo Henriques e André Letria, que convidam os mais pequenos para uma oficina de pirataria na nova loja da Orfeu Mini. Horas, locais, dress code, está tudo muito bem explicado no site do Pato, aqui e aqui

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

PRÓXIMAS FORMAÇÕES



«Seleção do Livro Infantil», já no próximo sábado, 22 de Novembro, na Biblioteca Municipal de Algés (ver aqui) e «Playoga - Livros & Histórias», no sábado seguinte, 29 de Novembro, em Sintra, no âmbito do 12º Encontro Eterna Biblioteca (aqui). Mais pormenores em breve...

terça-feira, 18 de novembro de 2014

LER: UM TESOURO FANTÁSTICO


O fantástico site brasileiro Garatujas Fantásticas convidou-me para bater um papo virtual sobre o meu trabalho, fazendo companhia a outros escritores, designers e ilustradores portugueses: Isabel Minhós Martins, André da Loba, André Letria, Catarina Sobral, Yara Kono, Madalena Matoso, Ana Pessoa, Ricardo Henriques e Bernardo Carvalho. Responder às perguntas foi tão divertido como tirar as fotografias. Aqui está o resultado: http://garatujasfantasticas.com/cma_nopapo/. Na foto (cortesia de Tânia Raposo) está uma colecção essencial na minha formação leitora: O Tesouro das Crianças, um clássico dos anos 70 das edições Finsu Panamá, em português do Brasil. Oferta da minha Mãe.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

ATÉ JÁ


Quase, quase a terminar mais um livro (o sétimo ou oitavo, dependendo da ordem de saída do que está na calha para 2015), vou fazer uma pequena pausa nas postagens do Jardim Assombrado. Volto muito, muito em breve. Fiquem por perto.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

HARRY POTTER: AS NOVAS CAPAS


Ainda a propósito dos 15 anos de Harry Potter, atente-se nas diferenças entre as novas capas agora desenhadas por Kazu Kibuishi (em cima) e as anteriores. É nítida a incorporação das técnicas de ilustração digital e do direccionamento para outras faixas etárias, no sentido do que hoje se convencionou designar por crossover fiction ou escrita para young adults. Peço desculpa se os termos em inglês incomodam, mas não encontro melhor forma de dizer.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

UM CORVO DE 952 PÁGINAS


Genial, doente e miserável, como aquela criatura integrante do júri do Nobel da Literatura acha que os escritores devem ser, Edgar Allan Poe, para quem superlativos do género «mestre do gótico e do fantástico» são por demais escusados, tem uma nova edição que reúne todos os seus contos (todos mesmo?). Com a chancela Círculo de Leitores/Temas e Debates, trata-se da mesma tradução de J. Teixeira de Aguilar que já havia sido publicada em conjunto pela Quetzal/Temas e Debates, só que em dois volumes. É um calhamaço de 952 páginas: tal como a perna de borrego hitchcockiana, posicionado no ângulo correcto, dá para matar alguém.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

O NOSSO HARRY


Num instante, passaram-se 15 anos. Foi em Outubro de 1999 que a Editorial Presença publicou a primeira edição de Harry Potter e a Pedra Filosofal, com tradução de Isabel Fraga. Desde então, a saga dos aprendizes de feiticeiros de Hogwarts vendeu mais de 450 milhões de livros em dezenas de línguas, tornando Joanne Kathleen Rowling, vulgo J.K. Rowling, numa personificação do arquétipo da Gata Borralheira: de pobre professora de inglês, em Portugal, triste e mal casada, passou a ser uma das mulheres mais ricas de indústria literária, não sem antes ter levado várias «negas» das editoras. Quanto a Daniel Radcliff, o actor que encarnou a personagem de Harry Potter, é ver como também está crescido. Por exemplo, aqui, na série de televisão A Young Doctor's Notebook, decalcada da obra homónima de Mikail Bulgakov. No papel de um jovem médico desterrado na província e viciado em morfina, para aplacar as dores do ofício e não só, Radcliff não é nenhum Richard Burton (e ter John Hamm a contracenar com ele não foi um casting inocente), mas esforça-se por mostrar que ser um bom actor não é algo que se consiga por magia.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

INVENTÁRIO DOS ANIMAIS COM CAUDA


Para que serve uma cauda? Entre outras coisas, para transportar as crias, manter o equilíbrio, mudar de direção, espalhar feromonas e enxotar as moscas. Dos mesmos autores do Inventário Ilustrado das Árvores, um catálogo de animais dotados de um fim que justifica os meios. Edição da Faktoria K de Livros, uma chancela da Kalandraka. 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

KEITH & KEITH


Quando as celebridades ou «aspirantes a» desatam a escrever livros para crianças, só podemos fazer como Noé: arranjar uma cena que flutue e esperar que a chuva passe. De Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones (desculpem a referência, mas posso estar a ser lida na galáxia M87), é lícito esperar que um livro subintitulado «a história do meu avô e da minha primeira guitarra» seja isso mesmo. Caramba, o homem tem mais histórias para contar no dedo mindinho do que a maioria de nós, pobres mortais, durante a vida toda. Não sabe escrever? Não precisa. Basta-lhe ser um dos melhores músicos da História. E é também para dar uma ajuda à economia que existem ghostwriters. Provavelmente, nem a Hachette nem editora alguma conseguiria convencer Keith Richards de que o seu talento para escrever é tão nulo como o que a neta, Theodora Richards, demonstra ter para desenhar. Podemos encolher os ombros e pensar que, assim, só se estraga uma família, mas o que eu queria mesmo era uma história como deve ser. Ou algo vagamente parecido.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

MÃOS ÀS OBRAS


aqui tinha falado de Art & Max e da estreia de David Wiesner em Portugal pela Orfeu Negro. Num registo completamente diferente, mais conduzido e com alguns pontos de contacto com o livro informativo, saiu também O Museu (Presença), uma história de Susan Verde com ilustrações de Peter H. Reynolds. Para quem queira explorar livros centrados na temática das Artes Plásticas, aí estão duas sugestões a ter em conta.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

BONJOUR, TENDRESSE


Capa de Tom Gauld para a última The New Yorker. Só para quem teve preguiça de abrir o link do post anterior. Bom fim de semana!

ESCREVER NÃO TRAZ SEGURANÇA


Em nenhum sentido. (Cartoon de Tom Gauld, que assina a capa da New Yorker desta semana. Luxo e conforto para este Outono-Inverno.)

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

AVENTUREIRAS


De Sónia Serrano, investigadora na área da literatura de viagens, um ensaio de 344 páginas (Tinta-da-China) que cruza duas trajectórias tradicionalmente divergentes: a condição feminina e o impulso nómada. Neste caso, dizer «a descobrir» soa algo redundante.