quarta-feira, 19 de abril de 2017

NOITE ESTRELADA



No escuro, os olhos de Kenny ficaram maiores.
– Como é que cheguei tão longe? – perguntou.
– Pediste um desejo, e um desejo é meio caminho andado para chegares onde quiseres.
Kenny encostou a cabeça à janela e imaginou um cavalo preto e brilhante, e um navio pintado de branco.
– É quase de manhã – disse o galo. – Tenho de me ir embora.
Abriu as asas e voou em direção ao céu.
– Adeus, Kenny.
Nas luzes cantantes da cidade, Kenny viu-o desaparecer.
– Adeus – murmurou.
Kenny ouviu os ruídos da cidade atravessarem o vidro da janela. Eram como as canções que eleinventava quando estava contente. Fechou os olhos e os ruídos tornaram-se numa canção sobre um cavalo que fumegava pelas narinas e soltava chispas prateadas com os cascos.
Kenny adormeceu com a cabeça encostada ao parapeito da janela. E a canção tornou-se num sonho sobre um cavalo. Kenny ia montado num cavalo negro e brilhante. Partiram os dois a galope, deixando as casas para trás, e as pessoas viam-nos das janelas e batiam palmas. Correram o mundo inteiro, até chegarem à beira do oceano. E lá estava um navio pintado de branco, com um quarto a mais para um amigo. 


(excerto do final de A Janela de Kenny, um texto filosófico e encantatório de Maurice Sendak - aqui, também autor das ilustrações - que tive o privilégio de traduzir. Acabadinho de sair pela Kalandraka.)

quinta-feira, 13 de abril de 2017

DEDICATÓRIA


SABES, EU GOSTO DE TI

acho-te tão meiga e ligeira -
teus olhos tão cheios de luz,
gosto de ti, gosto de ti.

E o teu nariz e cabelos e boca,
teus olhos e teu pescoço querido
onde na gola da tua roupa
tens teu ouvido escondido.

Sabes, gostava imenso de ser
tu, mas isso não pode ser,
a luz envolve-te, a gente é
simplesmente aquilo que é.

Ai sim, gosto de ti,
gosto tanto e tanto de ti,
Gostava de dizê-lo por completo -
Mas não o consigo em concreto.

(Herman Gorter, in Uma Migalha na Saia do Universo - Antologia da poesia neerlandesa do século vinte, ed. Assírio & Alvim, 1997. Tradução de Fernando Venâncio.)

quarta-feira, 12 de abril de 2017

HERMANO LOBO DISTINGUIDO PELO BANCO DEL LIBRO


Na Venezuela, a associação promotora da leitura Banco del Libro, vencedora do ambicionado Prémio ALMA 2007, incluiu a edição mexicana do Irmão Lobo (Hermano Lobo, El Naranjo, 2015) na sua lista anual dos melhores livros para crianças e jovens publicados em espanhol. Nunca é demais agradecer ao Jerónimo Pizarro pela tradução, ao António Jorge Gonçalves pelas ilustrações e a toda a equipa do Planeta Tangerina, além de todos os leitores que têm feito correr este livro além-mar.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

CEREJEIRAS EM FLOR


Estive com as crianças do Centro Escolar Solum Sul, em Coimbra. O local do encontro foi a Casa da Escrita, um espaço muito bonito que ninguém deve deixar de conhecer, mesmo ao pé da Sé Velha. Mostrei-lhes o Amores de Família e as maravilhosas ilustrações da Marta Monteiro. Uma delas disse que a Festa das Cerejeiras era no Japão. No fim da sessão, fomos todos ver uma verdadeira cerejeira em flor, lindíssima e perfumada, logo ali, no jardim da Casa da Escrita. Não é todos os dias que isto acontece.

terça-feira, 28 de março de 2017

LISBOA-COIMBRA-LISBOA


Entrámos na Semana da Leitura em muitas bibliotecas e escolas (a «Semana da Loucura», como eu costumo dizer) e uma pessoa não tem mãos a medir. Daqui a pouco, parto para o meu querido Norte: amanhã estarei em Vila do Conde, depois em São João da Madeira e, para terminar, em Coimbra. No sábado, 1 de Abril, véspera do Dia Internacional do Livro Infantil, visito a Casa da Escrita (16h00), respondendo a um amável convite do município, para falar de livros para os mais novos e e não só. Gostava que aparecessem, porque a ideia não é transformar a coisa num monólogo. Deixo-vos, para já, com esta questão: em vez de querermos cultivar hábitos de leitura, porque não ensinamos as crianças e adolescentes a gostar de livros, uma das invenções humanas mais fantásticas de sempre? Eu levo alguns na bagagem, para exemplificar. 

segunda-feira, 27 de março de 2017

ONDE MORAM AS CASAS OU OS SONHOS COMUNICANTES


Uma grande amiga e uma grande jornalista, cujo nome não refiro aqui porque não sei se ela gostaria, está prestes a realizar um dos meus maiores sonhos: viver fora de Lisboa, perto da praia, numa casa térrea com espaço à volta (não, não é essa que está na fotografia... queriam!). Tem um filho adolescente que cria praticamente sozinha, a família no Norte e, como se costuma dizer, «pouca rede de apoio». São coisas que partilhamos, as duas últimas. Tem, acima de tudo, uma grande coragem, capacidade de se adaptar às circunstâncias e valores mais sólidos do que o Rochedo de Gibraltar. «É muito trabalhadeira», como se diz lá em cima. Em suma, é uma grande mulher de quem espero ser amiga até que a vida o permita (ela diz que, às vezes, parecemos os velhos d'Os Marretas, sempre a rezingar à volta das mesmas coisas - os gajos, o dinheiro, o trabalho, as chatices do jornalismo -, etc., mas eu sei que isso não é mais do que um elogio à nossa resiliência).

Agora, o curioso desta história é que, durante anos, a minha amiga nunca prestou atenção ao lugar onde vai morar agora, o lugar dos meus sonhos, ao qual se chega por uma estrada cheia de curvas, entre pinhais e cheiro a maresia. Pelo contrário, dizia-me: «Ah, mas tu fazes 50 quilómetros para cá e para lá quando tens praias mais perto de Lisboa?» Eu encolhia os ombros e respondia: «Faço. Faço porque é ali que me sinto bem durante um dia inteiro, e ao pé disso o que me importa a gasolina?» Ela suspirava: «Não te entendo.» E assim continuávamos nas nossas «marretices».

O tempo passou e a vida deu-lhe uma grande volta, e quis a sorte que ela arranjasse um emprego no lugar dos meus sonhos, para onde está prestes a ir viver junto com o filho. Não lhe saiu o euromilhões, não recebeu nenhuma herança, não encontrou o homem da vida dela, com carro e casa posta. Teve apenas um pouco de sorte e um conjunto de circunstâncias a seu favor que lhe permitiram aplicar a máxima de Arquimedes: «Dêem-me um ponto de apoio e eu levantarei o mundo.» Fico mesmo muito feliz por ela, tenho muitos defeitos mas não a inveja, seguramente. Merece tudo, esta miúda da minha idade. E acho engraçada a forma como o meu sonho contagiou a vida dela, inconscientemente.

Falta-me ainda um ponto de apoio para conseguir viver numa casa assim como a da fotografia, que simboliza quase tudo o que valorizo. Talvez morra sem nunca lá chegar, mas continuo a procurá-lo. «Enquanto há força», como diz a canção, hei de continuar a procurá-lo. E pergunto-me, em jeito de FC e parafraseando Philip K. Dick («Do androids dream of electric sheep?»). Será que, neste momento, alguém está a sonhar o sonho onde eu hei de morar, um dia? Quem sabe.    

sábado, 25 de março de 2017

DIA INTERNACIONAL DO LIVRO INFANTIL 2017


«Continuamos a crescer, e o mundo à nossa volta torna-se mais complicado. Enfrentamos questões a que nem os adultos sabem responder. No entanto, é importante partilhar dúvidas e segredos com alguém. E aí o livro volta a ajudar-nos. Muitos de nós terão um dia pensado: este livro fala sobre mim! E a personagem favorita parece ser igual a nós. Tem problemas semelhantes, e resolve-os com dignidade. E há outra personagem que não é igual a ti, mas tu gostarias de seguir o seu exemplo, de ser tão corajoso e desembaraçado quanto ela.»

(Excerto do texto que celebra o Dia Internacional do Livro Infantil, este ano assinado pelo escritor russo Sergey Makhotin (n.1953), com tradução do inglês por Maria Carlos Loureiro e publicado integralmente pela DGLAB, aqui. O cartaz de 2017 é da autoria de João Fazenda, vencedor do mais recente Prémio Nacional de Ilustração)

P.S. - Daqui a uma semana, o Dia Internacional do Livro Infantil será também celebrado na Casa da Escrita, em Coimbra, e esta vossa amiga lá estará para botar faladura e suscitar o debate de ideias. Sábado, 1 de Abril, às 16h00. Até lá!

quarta-feira, 22 de março de 2017

VAMBORA COM ADRIANA CALCANHOTTO



Sim, esta selfie é mesmo com a maravilhosa Adriana Calcanhotto e foi tirada na Casa da Escrita, em Coimbra, onde o último sábado foi dedicado ao workshop «Escrita e ilustração: literatura para a infância». Na mesa, além de Adriana Calcanhotto (na qualidade de professora convidada da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, entidade organizadora do encontro), estão três ilustradores: André Letria​, Inês Prazeres e Élia Ramalho, esta última também na foto preparatória da parte prática do workshop. A moderar a mesa, para um público muito interessado que esgotou os lugares, esteve a Doutora Ana Maria Machado, professora da FLUC. Só tive tempo de ouvir a parte final do debate, mas valeu muito a pena!

Sábado, 1 de Abril, em vésperas do Dia Internacional do Livro Infantil, lá estarei também em Coimbra para falar dos livros para os mais novos. Ui, quem me dera ter assim a casa cheia!

domingo, 19 de março de 2017

QUARTEL-GENERAL EM ABRANTES


Saber receber é uma arte. A convite da Biblioteca Municipal António Botto, passei um dia excelente em Abrantes, onde fiz duas sessões para os leitores mais novos. A primeira, para crianças do 4º ano do 1º ciclo, à volta do Onde Moram as Casas; a segunda, para estudantes do 10º ano, tendo por mote o Irmão Lobo, na Escola Secundária Solano de Abreu. A professora de português ficou doente e, em consequência, vieram duas turmas que nunca tinham ouvido falar do livro. Por estranho que pareça, gosto quando isto acontece. Se falar para adolescentes já é um desafio, falar "sem rede" é quase uma missão suicida. Improviso, sinceridade e um bocado de sorte resolveram o que, pelo menos para mim, nunca seria um problema. Afinal, ninguém sabe quem são realmente os leitores, certo? Obrigada à Biblioteca AE nº1 de Abrantes pelo comentário sobre o Irmão Lobo

«De uma profundidade comovedora, a obra, sobejamente premiada e traduzida em várias línguas, apresenta um tema atual e propõe uma reflexão indispensável sobre as famílias em desagregação. Uma mesma personagem, a duas vozes e dois tempos, narra uma história que bem podia ser a de um de nós, a de muitos dos nossos adolescentes.
Sensibilidade e muito humor à mistura transformaram este encontro numa conversa inesperada, deliciosa e, sobretudo, irreverente.»

segunda-feira, 13 de março de 2017

IRMÃO LOBO NAS FINAIS DO CONCURSO NACIONAL DE LEITURA 2016/2017


Excelente notícia: Irmão Lobo (Planeta Tangerina, 2013) é o livro português eleito para a prova final dos alunos do 3º Ciclo das escolas da Área Metropolitana de Lisboa que participam na 11ª edição do Concurso Nacional de Leitura 2016/17, uma iniciativa do PNL - Plano Nacional de Leitura. Trata-se de uma área enorme que abrange 18 municípios da Grande Lisboa e da península de Setúbal; e todos os alunos seleccionados se encontrarão nas provas finais que decorrem em Sintra, município escolhido para receber o concurso, no Centro Cultural Olga Cadaval, a 2 de Maio. Alguém vai ter de ganhar, e Irmão Lobo até gostaria que todos ganhassem, mas distribui boa sorte em doses massivamente iguais. O livro estrangeiro que também chegou à final é o curiosíssimo e maravilhoso romance de John Boyne, A Coisa Terrível que Aconteceu a Barnaby Brocket (Bertrand, 2013), o autor do best-seller O Rapaz do Pijama às Riscas. Irmão Lobo não podia estar melhor acompanhado. É uma honra! 

sábado, 11 de março de 2017

EM NOME DA FILHA: ENTREVISTA AO DN


Vamos começar pelo fim. Ao publicar este livro acredita que a violência na intimidade terá fim?
Não, pelo menos no meu tempo, não terei a sorte de assistir a isso. Mas temos de lutar para reduzir números que nos envergonham e, sobretudo, ampliar a consciência das gerações que estão em formação. A minha intenção, como jornalista e escritora, foi trazer informação relevante a um problema muito difícil de compreender. Como tudo o que envolve o humano.

O estudo mais aprofundado da questão faz com que esteja mais atenta no dia-a-dia ao que as "telhas escondem"?
Talvez. O conhecimento das coisas abre duas portas: primeiro, a da consciência. Depois, a da atuação, da intervenção. Tenho a certeza de que, se todos tentássemos perceber o que é a violência doméstica, todos estaríamos mais atentos. A prevenção é fundamental. 

Como se explica que após uma revolução nos alegados brandos costumes portugueses nas últimas quatro décadas esta violência se mantenha na ordem do dia?
Não acredito na teoria dos brandos costumes. Somos um povo ameno e pacífico, mas no que toca aos costumes podemos ser muito truculentos, porque é preciso pensar nos séculos que antecedem essas “últimas quatro décadas” que refere. A violência, aqui como no resto do mundo, está na ordem do dia, e exerce-se contra os mais fracos: mulheres e crianças. O último relatório Organização Mundial de Saúde diz uma em cada três mulheres vai ser vítima de agressões físicas, psicológicas e sexuais pelo simples facto de ser mulher.

Os portugueses foram surpreendidos recentemente com a violência no namoro. Esta é uma atitude que não tem limites em tudo o que diz respeito à relação entre pessoas? 
Foram surpreendidos pelos dados de investigação quanto à violência no namoro, porque esta sempre existiu. Nota-se, por um lado, uma embriaguez do poder por parte dos rapazes, imitando os piores exemplos que veem no mundo e, por outro, uma falta de rede de apoio para as raparigas terem consciência de que nada disto "é normal" e aceitável. Para ambos, rapazes e raparigas, estes dados revelam uma manifesta incompreensão do que é - já nem digo o amor! - mas uma relação afectiva plena e sadia, na qual ferir o outro, conscientemente, é algo intolerável.

A premeditação está sempre na base destes atos violentos?
Isso já é matéria de investigação criminal. Muitos agressores agem premeditadamente, outros por impulso e incapacidade de gerir as suas tensões internas. Uma coisa é certa: a violência não surge do nada. Há todo um historial, individual e familiar, que conduz à agressão. O pior é quando esta se banaliza.

Do que viu e ouviu, considera possível ultrapassar-se a passividade que decorre da violência psicológica contínua ou estamos apenas perante uma violência ainda maior?
Do que vi e ouvi, os relatos são coincidentes: a violência psicológica chega a ser mais marcante do que a violência física. Há palavras e ações que têm um efeito devastador na psique humana, especialmente quando são praticadas de uma forma sistemática e ritualizada. Lembro-me do caso de uma senhora cujo marido lhe exigia que tivesse o jantar pronto às sete da tarde, senão recusava-se a comer e atirava o prato para o chão. Isto é de uma humilhação brutal. É claro que, quando há agressão física, a violência psicológica está inerente, é o desrespeito pelo corpo do outro, pela totalidade do seu ser. Mas a violência psicológica ocupa um espaço tremendo no esquema mental e emocional da vítima. É insidiosa e muitíssimo destrutiva.  

Refere a perpetuação do ciclo da agressão. Está a ser contrariado pelas novas gerações?
Uma coisa é o ciclo da agressão numa relação conjugal, que obedece a um comportamento mais ou menos padronizado. Há uma escalada de tensão, há o explodir dessa tensão que desemboca na violência, e há a fase de acalmia, que mais não é do que um prelúdio do recomeço do ciclo. Outra coisa é o perpetuar de uma visão distorcida das relações de intimidade, em que há sempre um dominador e um dominado, e a violência torna-se admissível. Desde logo, porque não é entendida como violência! O estudo recentíssimo da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta), sobre violência no namoro, é muito preocupante.    

Chocou-a ter de colocar a palavra "puta" tantas vezes nesta narrativa?
Chocou-me em que sentido? «Puta» é um dos insultos mais frequentes nos casos de violência relacional, não só entre adultos como adolescentes. Reproduzi o que ouvi, como era meu dever de jornalista, dentro de um contexto e de um enquadramento. Numa reportagem sobre violência doméstica seria absurdo usar floreados.

O atual papel da comunicação social e das redes sociais está a destruir os mitos da misoginia ou é complacente? 
A misoginia não é um mito, é uma realidade bem inculcada que se manifesta de mil e uma maneiras. Desde o comentário de café que rebaixa as mulheres, «as gajas que são isto ou aquilo», até aos casamentos impostos a meninas de 11 anos  ou às vinganças «de honra» que permitem a um homem atirar ácido sulfúrico para a cara de uma mulher, sem que daí venha nenhum mal ao mundo.

Ainda se pode acusar a Igreja de colaborar no encobrimento destas práticas ou só se o pode fazer em relação à família?
Não sei responder a isso. As mentalidades são sempre o mais difícil de mudar, e na sociedade portuguesa essas duas instituições têm um peso enorme. Para a maior parte das pessoas, quando a violência doméstica lhes bate à porta, o sentimento predominante ainda é a vergonha. É melhor varrer para debaixo do tapete do que sacudi-lo cá fora. Mais do que acusar, temos de ouvir e agir. Tudo menos silenciar, porque a violência doméstica alimenta-se muito do silêncio e do isolamento.

Uma situação que este ensaio foca é o da repercussão nos filhos. Não é um lado sempre demasiado ignorado?
A violência doméstica em que as vítimas são as crianças e os adolescentes daria tema para outra reportagem. É preciso compreender que são sempre vítimas, mesmo que não levem estalos ou murros. Porquê? Porque percebem que não podem fazer nada nas guerras dos adultos – não é o seu papel, de resto – e essa sensação de impotência é desorganizadora e paralisante. Depois tudo se reflete, seja nos comportamentos hiperactivos e agressivos, seja numa interiorização recalcada de emoções muito fortes. Espanta-me a forma como os adultos falam à frente dos filhos, achando que eles não percebem nada só porque são crianças.

Esta questão está na ordem do dia. Foi o que a fez despertar para o problema?
Em parte, sim, mas a família é um dos meus temas literários – para não dizer que é «o» tema. Quis compreender os comportamentos, as motivações, as repercussões e alguns meandros que existem por trás das famílias disfuncionais. O que se sabe sobre a violência doméstica é realmente pouco. Sabemos dos casos pelos jornais, pela rádio, pela televisão, mas muito na perspectiva do efeito de choque, não da compreensão do fenómeno. Isto gera um efeito perverso, que é de não irmos além da superfície. Acabamos por nos cansar e desligamos, género «Olha, foi mais uma que morreu!»

Foi-lhe difícil a recolha dos depoimentos?
Não tive dificuldade nos contactos, porque garanti anonimato e o nome da Fundação Francisco Manuel dos Santos é sinónimo de credibilidade. Mas foi difícil ouvir, desgravar, ler, reler, sublinhar e depois escrever. Comovi-me muito ao escrever. Mas creio que não há ponta de lamechice neste trabalho.

Admite investigar o outro lado da questão, o da violência sobre os homens?
Claro. Ainda agora comecei.

A maior parte da sua obra é no livro infanto-juvenil. A partir de agora o tema da violência na intimidade impor-se-á como pano de fundo ou fica por este Em nome da filha?
A minha obra literária tem sido sempre no livro infanto-juvenil, mas o tema da família é quase omnipresente: no Onde Moram as Casas, no Irmão Lobo, no Amores de Família, sobretudo. Sinto que esta reportagem em forma de livro abre um ciclo novo, mas não sei o que vai acontecer. Só sei que não quero deixar de escrever. Como os meus livros irrompem de uma forma muito ligada ao inconsciente, muito orgânica, é provável que este tema regresse, mesmo que eu não queira. 


(Texto completo da entrevista conduzida por João Céu e Silva para o Diário de Notícias de 22/2/2017, cuja maior parte foi publicada aqui. Não tenho fotos. A imagem acima pertence à entrevista ao jornal i, publicada no mesmo dia e conduzida por Marta F. Reis: aqui. A foto é de Paulo Sousa Coelho.)

quinta-feira, 9 de março de 2017

HOJE: TERTÚLIA SOBRE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA


«A violência doméstica, ou de forma mais abrangente a violência contra a mulher é um assunto que nos diz respeito a todos, mulheres e homens. Infelizmente em Portugal, os dados demonstram que os casos de violência doméstica não têm decrescido. Um estudo recente sobre violência no namora revela, igualmente, dados preocupantes. O livro Em Nome da Filha, que acaba de ser editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, servirá de mote para mais esta conversa informal de fim de tarde. Para partilhar connosco os seus conhecimentos e experiência teremos: Carla Maia de Almeida (jornalista e escritora, autora do livro Em Nome da Filha; Chefe Rodrigues (agente de proximidade); Patrícia Torres (técnica de acção social da Junta de Freguesia dos Olivais).»

Hoje, das 18h30 às 20h30, no espaço Anagrama - Oficina de Sonhos (Av. de Berlim, 35C, Lisboa). Entrada livre.

EM NOME DA FILHA: APRESENTAÇÃO E DEBATE



Registo em video da apresentação do Em Nome da Filha no Auditório do Liceu Camões, a 22 de Fevereiro de 2017, com Manuel Luís Goucha (inspiradíssimo), Elisabete Brasil (UMAR), Ana Brandão (actriz) e moi-même. António Araújo, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, moderou e fez as honras da casa. Que esteve cheia. Obrigada a todos!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

EM NOME DA FILHA: DIA D



O último relatório da Organização Mundial de Saúde (2014) reflecte a proporção desmedida que a violência doméstica atingiu no mundo inteiro: uma em cada três mulheres será vítima de agressões físicas, psicológicas e sexuais, pelo simples facto de ser mulher. Está a acontecer, neste momento. O jornal El País chamou-lhe «uma pandemia devastadora», num artigo publicado a 25 de Novembro, Dia Internacional contra a Violência de Género.

Quase um quarto dos países ainda não possui legislação própria que permita combater este drama humano, mas não é o caso de Portugal. Sobretudo desde a aplicação do I Plano Nacional contra a Violência Doméstica, lançado em 1999 e renovado até à presente data, com sucessivos melhoramentos, têm sido enormes os progressos em matéria de legislação e meios de intervenção específicos. Falta o mais difícil: mudar mentalidades, formar a consciência das novas gerações. Desde logo, questionar a existência de uma hierarquia entre homens e mulheres, atribuindo aos primeiros o privilégio e a primazia do poder. O caminho a seguir parece ser inquestionável: educar, educar, educar.

Da autora da jornalista Carla Maia de Almeida, a reportagem Em Nome da Filha - Retratos de Violência na Intimidade, é maioritariamente composta por testemunhos de mulheres vítimas de violência doméstica. Entrevistadas em vários pontos do país, acederam a contar as suas histórias sob anonimato, por razões compreensíveis. Essa condição não lhes retira a força nem a pertinência, porque a essa urgência de partilha correspondeu a vontade de contribuir para a mesma causa: lutar contra um problema que não é «doméstico», mas de toda a sociedade. Nas palavras da mais jovem entrevistada, que finaliza a segunda parte do livro, ficou bem expressa essa intenção: «Quero dizer a todas a raparigas que façam como eu. Foi só à primeira.»

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

EM NOME DA FILHA



(...) Violência doméstica, violência relacional, violência entre parceiros íntimos, violência em contexto de intimidade: nas páginas que se seguem usei as várias expressões num sentido equivalente. Na primeira parte, conta-se a história de uma adolescente, hoje com 39 anos, que no início da década de 1990 presenciou o assassinato da mãe às mãos do pai. Desde então, muito se progrediu no afrontar de um drama que deixou de ser «doméstico» e se assumiu como uma responsabilidade político-social, dotada de legislação e de intervenção específicas. Na segunda parte, podem ler-se nove testemunhos recolhidos em casas de abrigo (com uma excepção), intercalados com contributos de vários especialistas nesta área, com conhecimentos teóricos e «de terreno». Por fim, na terceira parte, e porque acredito que as histórias têm o poder de curar, proponho a adaptação de um conto dos irmãos Grimm, A Rapariga das Mãos Cortadas, uma metáfora da condição agredida das mulheres; mas também da possibilidade de aceitarmos, corajosamente, as nossas feridas emocionais e seguirmos em frente. Homens e mulheres, juntos, num caminho de absoluta igualdade.
A violência, doméstica ou não, nunca vai acabar, mas não podemos remeter-nos ao silêncio dos não-inocentes. Este é o tempo que nos foi dado a viver. Temos de estar à altura dele. 

(da introdução à reportagem Em Nome da Filha - Retratos de Violência na Intimidade, o meu 12º livro, recém-publicado na colecção «Retratos» da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Fotografia de capa de Valter Vinagre) 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

MIGRAÇÕES



Estou a traduzir um livro em que os protagonistas são cisnes selvagens de uma espécie endémica da América do Norte, os magníficos cisnes-trombeteiros, cujo canto soa como um trompete. No meio das minhas pesquisas, tropecei neste videoclip que integra a banda sonora de um documentário francês (Le Peuple Migrateur), com assinatura desse romântico incurável chamado Nick Cave. Vem isto a propósito do Dia dos Namorados? Não. Adoro namorar e adoro o número 14, por motivos que nada têm a ver com estas convenções. Mas a música é lindíssima e a letra, idem: uma formulação poética do amor sem fronteiras e sem limites, não como pulsão egoísta de quem tudo quer (e tudo perde), mas do amor como movimento perpétuo entre a impermanência e a verdadeira entrega. O nosso querido Nicholas Edward Cave tem razão: «Love comes on a wing». O amor chega num golpe de asa, feito clarão e sobressalto, mas cresce num trabalho diário de filigrana, com «disciplina», «concentração» e «paciência», porque o amor é essencialmente «uma força activa» e não um segredo mitificado. Disse-o Erich Fromm, psicanalista, sociólogo e filósofo da Escola de Frankfurt, num livro que recomendo, The Art of Loving, traduzido em português por A Arte de Amar (não se deixem desmotivar pela capa), originalmente publicado em 1956 e perfeitamente atual. Um excerto:

«Ter fé requer coragem, a capacidade de correr riscos e de aceitar a dor e a desilusão. Quem insiste na segurança e na cautela como condições primárias para viver, é incapaz de ter fé; quem se isola num sistema de defesa, na segurança da possessividade e da distância, transforma-se num prisioneiro. Amar e ser amado requer coragem, a coragem de acreditar em certos valores - e de arriscar e apostar tudo nesses valores.»

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

MANEIRAS DE SER MENINO


   «Meninos da rua. Bulhentos, sujos, execrados. Escorregam nas escadinhas do bairro em tábuas roubadas a vedações, pondo à roda a cabeça das vizinhas velhas. Urinam nos portais. Viram caixotes do lixo. Vendem pentes. São presos às vezes.
   Meninos da serra. Acanhados, desconfiados, lentos. Têm dez, doze irmãos. Não gostam de doces. Estudam na escola a nascente e a foz dos rios, e nunca viram o mar.
   Meninos pastores. Solitários. Sabem histórias medonhas de lobos e de bruxas. Guiam-se pelo Sol. Guardam no bolso o Universo num ovo de pisco, num seixo vidrento, num saltão todo verde.
   Meninos filhos de pescadores. Olhos de alga, corpo de onda, voz de vento. Embalados em canastras ou ao colo de velhas redes, seus sonhos cabem num barco. E como nada os espanta e nada os amedronta, nem chegam a ter infância.
   Meninos ciganos. Nascidos e criados à borda dos caminhos. Alimentam-se de bagas silvestres e de rábanos como os cavalos. De pele da cor da terra, têm gestos fugidios de cobra e olhos de noite e de mistério. E a sua alma é antiga como a própria raça.»

(...)

Maria Ondina Braga, «Maneiras de ser menino», crónica incluída no livro A Revolta das Palavras, ed. Livraria Bertrand, 1975.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 27


   «Arminda era alta, esbelta, tinha cabelos ondeados e gordurosos de cigana e uma expressão sensual nos lábios feridos do cieiro que se entreabriam num sorriso doce e púdico, de virgem. Isabel Montalvão nunca fora muito bonita mas, ao ir perdendo a frescura, os traços tinham-se-lhe depurado e ganhara em distinção a tal ponto que a sua fotografia preferida, a que devia representá-la para a posteridade, havia de ser tirada por um fotógrafo profissional, contratado para ir a casa no dia em que fez cinquenta anos. No dia a dia, sobretudo se não tencionava sair, arranjada com simplicidade e de cara lavada, podia passar por criada de uma casa rica, mas bastava-lhe calçar as luvas, prender o cabelo no chapéu e empoar-se, para ficar o nec plus ultra da elegância. Havia ainda Leni, morena e espalhafatosa, que usava boina, fazia caretas de palhaço e tinha sempre um cigarro suspenso entre dois dedos ou provocadoramente entalado nos lábios.
   O meu pai gostava das três e toda a sua infelicidade estava em que nenhuma o consolava da ausência das outras.»

Teresa Veiga, A Paz Doméstica, ed. Cotovia, 1999.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

POEMAS QUE SALVAM O DIA


GANSOS SELVAGENS
Não tens que ser bom.
Não tens que caminhar ajoelhado
durante quilómetros através do deserto, em sinal de arrependimento.
Só tens que deixar o afável animal do teu corpo amar aquilo que ama.
Fala-me do teu desespero e eu falar-te-ei do meu.
Entretanto o mundo não pára.
Entretanto o sol e os seixos transparentes da chuva
movem-se através da paisagem
sobre as pradarias e as árvores mais altas,
as montanhas e os rios.
Entretanto os gansos selvagens, lá no alto de um límpido azul,
dirigem-se para casa de novo.
Quem quer que tu sejas, por mais solitário que estejas,
o mundo oferece-te à tua imaginação,
chama-te como os gansos selvagens, de uma forma áspera e emocionante -
repetidamente anunciando o teu lugar
na família das coisas.»


(«Gansos Selvagens», de Mary Oliver, in ANIMAL ANIMAL - um bestiário poético, ed. Assírio & Alvim, 2005. Tradução de Jorge Sousa Braga.)

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

AHAB REVISITADO



«Sou o mais hábil caçador de baleias de todos os mares, capitão do barco Pequod e habitante da ilha de Nantucket. Tratem-me por Ahab.» Uma releitura fabulosa do clássico Moby Dick por um dos mais premiados ilustradores atuais.

Ahab e a Baleia Branca
Manuel Marsol
Orfeu Negro

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O MUNDO É ESTRANHO


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Costumes estranhos, ideias absurdas, lugares que não parecem deste mundo e curiosidades da natureza fazem parte dos ingredientes deste atlas muito original. Os martelinhos das festas de São João, usados para bater na cabeça das pessoas, também interessaram os autores. 

Atlas de Curiosidades
Clive Gifford
Tracy Worrall (ilust.)
Nuvem de Letras

sábado, 28 de janeiro de 2017

HERMANO LOBO DISTINGUIDO PELA FUNDACIÓN CUATROGATOS


Começar o dia com esta notícia que me faz sentir muito grata: a prestigiada Fundación Cuatrogatos, sediada em Miami, EUA, incluiu a edição em espanhol do Irmão Lobo na sua selecção dos melhores livros de ficção para crianças e jovens publicados no mercado iberoamericano, nos últimos dois anos. São 20 livros «altamente recomendados pelos seus valores literários e plásticos», de todos os géneros e para vários tipos de leitor, e que este ano integraram os catálogos de editoras sediadas na Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Espanha e México. Desta lista constam também os 90 livros finalistas; entre os quais um dos meus álbuns favoritos, A Contradição Humana, de Afonso Cruz. Não nos iludamos, porém. Pelo menos no que ao mercado português diz respeito, estas distinções prestigiam autores, tradutores e editoras, mas não fazem vender mais livros... directamente. Mas essa é outra conversa.

Agrada-me muito que Hermano Lobo tenha sido classificado na categoria «Para os que se atrevem com livros desafiadores». Ou seja: «livros para leitores valentes, que não se deixam intimidar pela complexidade das obras ou pela sua extensão. Propostas que exigem um maior compromisso do leitor na sua condição de co-criador do texto literário». Foi assim que a equipa de seleccionadores da Fundación Cuatrogatos descreveu o livro:

«Através de dois planos narrativos, que se alternam em páginas de branco e azul, este romance de grande profundidade psicológica e agilidade expositiva retrata a vida de uma família disfuncional, através de um puzzle de memórias evocadas pela sua jovem protagonista. Com a sua precária estabilidade física e emocional, Bolota, Alce Negro, Blanche, Fóssil e Miss Kitty são personagens poliédricos, de grande verosimilhança e humanismo, chamados a enfrentar situações complexas. Obra comovedora, que explora com subtileza as paisagens humanas e nos fala, com extraordinária sinceridade e acutilância, de desmembramentos, sobrevivência, redenção e amor.»

Com ilustrações de António Jorge Gonçalves e edição portuguesa do Planeta Tangerina, Hermano Lobo foi traduzido por Jerónimo Pizarro e publicado inicialmente na Colômbia (Taller de Edición Rocca, 2014), seguindo-se a edição no México pela El Naranjo, em 2015, com distribuição extensiva à Argentina, Chile, Perú, Uruguai e Guatemala. No Brasil, foi publicado pela Rovelle, depois de uma cuidadosa adaptação ao português do Brasil. Na Europa, depois da Alemanha e Sérvia, a próxima tradução será em italiano e acho que se vai chamar Lupo Sorello.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

BIBLIOTECA INDISPENSÁVEL


Segundo volume do projeto Save the Story, organizado pelo escritor italiano Alessandro Baricco. Desta vez, os clássicos da literatura recontados aos mais novos são a epopeia de Gilgamesh, O Nariz, Rei Lear, Cyrano de Bergerac e Os Noivos. Imprescindível.

Histórias Inesquecíveis 2
AA.VV.
Nuvem de Letras

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

SÍLVIO E O AR EM MOVIMENTO



Um regresso inesperado da dupla que assinou Sílvio, Domador de Caracóis (Caminho, 2010). O diálogo entre mãe e filho recupera as mesmas dúvidas, medos e anseios da parentalidade, mas também a insistência no lado curioso e arriscado do crescimento. 

Francisco Duarte Mangas
Madalena Moniz (ilust.)
Caminho

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

KÉ IZ TUK? MEI TAPU ENA PLONTE



Escrito e ilustrado pela norte-americana Carson Ellis, Ké Iz Tuk? é uma das traduções mais divertidas e originais de 2016. «Ké iz tuk?», pergunta um insecto, ao deparar-se com o broto de uma planta na terra. «Mei nazê», responde o outro. Para ler em voz alta, de preferência.

Ké Iz Tuk?
Carson Ellis
Orfeu Negro

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

ALL CREATURES GREAT AND SMALL



Éramos quatro menos um. Vivíamos com pouco, mas havia sempre quem tivesse menos do que nós. Os invernos eram duros e nunca mais acabavam. Chovia o tempo todo. A água gelava nos canos, doía na garganta e nos dentes. Saíamos de manhã, entorpecidas pelo frio, a geada feita em cristais sobre as folhas e o ar limpíssimo, de cortar a pele. Acendíamos a lareira para nos aquecermos. Sentávamo-nos junto daquele coração de fogo a pulsar, tecendo fios e nós invisíveis. Quatro menos um. Comíamos iscas de fígado, ovos com mioleira, mão de vaca com grão, fanecas e carapaus; comidas de panela e de sertã. Felicidade era quando a nossa Mãe fritava bolo do tacho em banha derretida, só com farinha de milho, água e toucinho. Felicidade era receber um livro ou um jogo fora do Natal ou do aniversário. Felicidade era ter cinco anos e andar à solta nos pinhais, como um cabrito, iludindo o medo dos cães e dos lobisomens. Felicidade era quando ligávamos o televisor e víamos juntas a série Veterinário de Província na televisão a preto e branco. Bezerros acabados de parir, cavalos com cascos infectados, cães de pêlo dourado e doenças melancólicas: alguém cuidaria deles, alguém chegaria a tempo de os curar, sim. O Yorkshire dos anos 30 não era assim tão diferente do Alto Minho. As estradas com ravinas tão verdes e as quintas cinzentas onde se queimava carvão, os montes e vales profundos, animais e pessoas partilhando o mesmo quotidiano, a mesma comunidade dos simples. Estávamos em finais dos anos 70 e eu não sabia o que era o estilo arquitectónico jorgiano, mas gostava de ter uma casa assim, cheia de quadros e chávenas de chá; e gostava de ter alguém por perto que usasse chapéus e casacos de tweed; que fosse bondoso, tranquilo, bem-disposto e um pouco desajeitado como a personagem de James Herriot, alguém que tivesse olhos claros e um sorriso franco. Sempre admirei quem tem o poder de curar, curar com paciência e amor todos os seres vivos, all creatures great and small.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

RECOBRO


Templo dos Quatro Ventos, Castelo Howard (Yorkshire, Inglaterra), cenário de rodagem da série Reviver o Passado em Brideshead. Foi construído entre 1699 e 1726, sob a égide de John Vanbrugh, que deixou uma carreira militar, a escrita e a espionagem para se dedicar à arquitectura. Não quero morrer sem ver este lugar com os meus olhos.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

MARY JOHN: SALTO DE GIGANTE



Mary John, nome evocativo da rebeldia pirata, conduz-nos ao conhecimento de uma personagem de carne e osso, Maria João, também ela confrontada com os mares turbulentos e conflituosos da adolescência. Por aqui tem navegado o universo criativo de Ana Pessoa, sabemo-lo pelos seus livros anteriores: O Caderno Vermelho da Rapariga Karateca (2012) e Supergigante (2014), editados na mesma coleção da Planeta Tangerina, Dois Passos e um Salto. Para quem tem seguido o percurso da escritora, é óbvio que Mary John representa um salto de gigante, um golpe certeiro feito de risco e ousadia, quer no domínio da linguagem estilística quer na incursão por temas tidos como tabu. Raro, muito raro um romance juvenil que se aventura pelos temas da sedução amorosa, da descoberta do corpo e da sexualidade sem nunca resvalar para o lugar comum nem para a moralidadezinha. O registo epistolar (Mary John escreve ao rapaz que quer esquecer) serve de suporte à estrutura narrativa, ao mesmo tempo que rasga folhas em branco onde se inscreve uma outra vida da protagonista; uma vida feita de mudanças, de equilíbrios precários, de passos de bailarina torpe num arame esticado, correndo em direção a algo de novo. Seguríssima, a voz da narradora agarra o leitor pelas vísceras e pelo coração, cortando rente quaisquer artifícios. Não surpreende que a última palavra seja um monossílabo: «Zás.»

Mary John
Ana Pessoa
Bernardo P. Carvalho (ilust.)
Planeta Tangerina

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

SOLSTÍCIO DE DEZEMBRO


O mundo jamais é parecido consigo próprio
tão inesperada é a noite,
mesmo quando em sua rotação se repete,
efectiva e extingue,
no corpo e cinzas de uma criança,

*
não vos espanteis por isso senhores,
dezembro é um solstício que nos sobrevive
e nada mais se anseia
do que abraçar todo o tempo do tempo
para seguir uma estrela viva,
um frágil e divino coração de criança
em homens aturdidos pelo afago da entrega,
guardai pois um Natal,
nada mais se reterá no cheiro do orvalho
que aconchegamos dentro de nós,

(...)

de Solstício de Dezembro, poema de João Rasteiro
Foto Bárcia, Matosinhos, Janeiro de 1971

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

ANA SALDANHA: SEM MARCAS DE CONDESCENDÊNCIA



«A geração dos nossos pais e avós deu-nos cabo da vida», diz um dos rapazes, o Doberman. «Depois admiram-se que a gente seja assim um bocado...». A frase é interrompida pelo toque do telemóvel de outro personagem. Três gerações cruzam-se num enredo familiar em que os personagens adultos não fazem de corpo presente, só para que os adolescentes se evidenciem. Todos são espelhos uns dos outros, mesmo quando, ou principalmente quando os diálogos resvalam para a incomunicabilidade. Marcas deste tempo, comerciais e emocionais, acompanham a travessia dos que ficaram. «Não é essa a questão», contrapõe o avô de Gonçalo e Maria, filhos de pais divorciados: «Aliás, os netos, agora, só telefonam, só aparecem quando precisam de alguma coisa. Os avós, para eles, são um caixa automático, mais nada.» Cruel? Ana Saldanha nunca é condescendente com os seus personagens, tão pouco com os leitores. «Vai-te foder» não é expressão comum na literatura para os mais novos (e, de qualquer modo, é o narrador a falar, não a autora). O recurso à metaficção fortalece o enredo, sem que o texto perca ritmo e agilidade. O final é avassalador, quase opressivo, e tudo se compõe sem que as marcas sejam apagadas.

Marcas
Ana Saldanha
Caminho

sábado, 17 de dezembro de 2016

MÁQUINA DE VOAR VEZES DOIS


A editora Máquina de Voar tem dois novos livros prontos a levantar voo. O primeiro é apresentado hoje no CCB, pelas 16h00, e é uma aventura literária de homenagem ao clássico de Maurice Sendak, Onde Vivem os Monstros. Com texto de João Ferreira Oliveira e ilustrações da Maria Bouza Pinto, dá pelo título de Monterrosso. Intrigados? Eles hoje desvendarão o porquê da escolha. Amanhã, é a vez Maria João Lopes (texto) e Teresa Cortez (ilustrações) explicarem o que é que os pais não sabem, com uma pequena ajuda de moi-même. O lançamento de Os Pais não Sabem, mas Eu Explico vai ser na Landeau, também às 16h00, e haverá bolo de chocolate. Apareçam! 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

INTERTEXTUALIDADES, 1


«Voltou-me ao espírito uma frase recorrente da minha mãe: Pára ou corto-te as mãos dizia ela quando me apanhava a mexer nas suas coisas de costureira. E essas suas palavras eram para mim verdadeiras tesouras, muito grandes e de metal brilhante, que lhe saíam da boca, lâminas que me abocanhavam os pulsos e deixavam em seu lugar cotos rematados pela agulha e os fios dos carrinhos de linha.»

(Elena Ferrante, Os Dias do Abandono, ed. Dom Quixote, 2004, tradução de Miguel Serras Pereira. Ilustração de S.J.-Ash para o conto dos irmãos Grimm, A Menina sem Mãos.) 

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

WENDY NO DIVÃ: REVOLTA-TE, RAPARIGA!



WENDY DARLING Demasiado responsável, adulta antes do tempo, excessivamente permissiva e abnegada, convencional até na aparência, a filha mais velha dos Darling não parece ter grande história. Mas, sem ela, não saberíamos quem é Peter Pan.


Chegou a vez de Wendy se deitar no divã que tomou a liberdade de adoptar o seu nome. O caso de Wendy Moira Angela Darling, quando comparado com os de outros personagens, desde o psicótico Barba-Azul até à insuportavelmente narcisista Rainha Má da Branca de Neve, não parece representar grande perigo para a sociedade. Afinal, a ideia de prolongar a adolescência é apelativa para muitas personalidades; e há sempre uma (ou um) Wendy de serviço para fazer o papel de mãezinha. A vantagem da codependência é que ninguém fica a ganhar, certo? A nossa Wendy Darling é uma querida, e J. M. Barrie descreve-a com bastante profundidade. Há quem defenda o seu protagonismo na história, mas o glamour vai todo para Peter Pan. É ele quem a convida para contar histórias na Terra do Nunca, tarefa que Wendy assume com gosto, ao mesmo tempo que se mantém «muito ocupada a costurar» e a tratar de «cozinhados [que] a obrigavam a não tirar o nariz da panela». Cumprindo os seus deveres, torna-se imprescindível, e pelo meio apaixona-se por Peter, que «detestava todas as mães, excepto Wendy». O idílio não vai durar sempre. Movida pelos remorsos, Wendy regressa a casa, levando os irmãos e os Meninos Perdidos consigo. Casará, terá filhos e esquecerá como se voa. Quando volta a ver Peter Pan, já tem mais de vinte anos: sente-se «desprotegida e culpada, como uma adulta». Wendy, querida, qual seria o teu destino se tivesses enveredado pela pirataria?



(Último texto da série «Wendy no Divã», publicado na edição 143 da LER. No próximo número, a sair brevemente, começa a série «Grandes Viajantes», dedicada às personagens mais aventureiras da literatura para os mais novos – e não só.)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 26


«O mar acabara para os olhos de Macário, naquela noite. A areia frágil também acabara, e o rochedo esburacado como uma esponja pela erosão, e a sua laca de espuma e de sol, e debaixo dos barcos virados, as redes amarfanhadas em que peixes morriam e o amor, às vezes, principiava.»

Maria Gabriela Llansol, A Terra Fora do Sítio, in Os Pregos na Erva, ed. Portugália, 1962.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

CONTRA A VIOLÊNCIA SOBRE AS MULHERES


400 mulheres mortas às mãos de maridos, namorados e ex-companheiros no espaço de 10 anos. 400 vítimas, número redondo que é apenas ponta de um icebergue de violência e humilhação.

A partir de um problema ainda enraizado na sociedade portuguesa, a escritora Ana Cristina Silva construiu uma ficção que dá voz literária a um drama que se vive todos os dias. Lançado originalmente em 2004, A Mulher Transparente regressa para que, através de si, possamos ver com clareza um problema grave do Portugal contemporâneo, manchado pela violência física e psicológica que se exerce todos os dias no seio das relações mais íntimas.

Compreender a extrema vulnerabilidade psicológica destas mulheres, que vivem diariamente um nível de stress não muito diferente do das vítimas de tortura, é fundamental para lhes proporcionar ajuda. Só assim será possível interromper o ciclo de violência e de submissão a que estão sujeitas. A diminuição de casos desta natureza passa também por pôr em causa uma certa mentalidade colectiva que se reflecte em ditados populares como por exemplo “ entre marido e mulher não metas a colher” ou “quando mais me bates mais gosto de ti”. A história de cada mulher espancada comporta uma luta esgotante para sobreviver.

Na luta contra o silêncio e o desespero, as personagens como a protagonista de A Mulher Transparente podem ter um papel determinante. No fundo trata-se de trazer a Literatura para dentro da Cidadania.

As receitas referentes a direitos de autor desta edição de A Mulher Transparente revertem integralmente para a APAV — Associação Portuguesa de Apoio à Vítima.

 

LANÇAMENTO: 7 de dezembro | 18.00 | Biblioteca da Assembleia da República
Apresentação de Catarina Marcelino (Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade), Paulo Pisco (Deputado do PS) e Carla Maia de Almeida (escritora e jornalista.)

 

(Fonte: Booktailors)