domingo, 30 de novembro de 2008

NÃO HAVIA PORTUGUESES A BORDO

O jornalismo está cheio de lugares-comuns. Na imprensa, há os “prados verdejantes” e o “país de contrastes”, entre outros “pequenos recantos” onde se abriga a falta de imaginação. Pior, porque inútil e oportunista, é aquela mania de os telejornais fecharem notícias sobre acidentes aéreos com a expressão “não havia portugueses a bordo”. É uma informação que interessa, exclusivamente, às famílias e amigos de quem viajou naqueles dias; e sabe-se como as más notícias correm depressa. O resto é irrelevante, do ponto de vista jornalístico. Por que é que a morte de um português num desastre de avião na Tailândia tem mais peso do que a de um colombiano nas cheias ou a de um japonês num tremor de terra? A morte é absoluta, não importa se se trata de uma ou de mil pessoas. Sim, eu sei que há isso a que chamam o “critério da proximidade geográfica”, mas juro que não entendo. Não entendo como é que a morte pode ser assim uma coisa tão portuguesa, que entre em casa à hora do jantar com o pretexto de sossegar as consciências, anunciando o vazio informativo: “Não havia portugueses a bordo”. Isso que dizer que podemos comer descansados?

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